Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 08 de dezembro de 2007

30 Dias de Noite

Contando com ocasionais falhas narrativas e alguns personagens dispensáveis, esta adaptação da graphic novel de Steve Niles e Ben Templesmith agradará aos fãs do gênero terror graças a seus acertos visuais, violência chocante e a força de sua premissa.

É curioso como a humanidade sempre foi fascinada pela lenda dos vampiros. Do clássico livro de Bram Stoker, "Drácula", até o anime "Hellsing", os devoradores de sangue foram mostrados de diversos modos, formas, sempre com sua mortal e voraz sede. No entanto, uma quase constante é o glamour que acompanhava essas criaturas da noite, estabelecendo um paradigma de elevado status social desses seres imortais, como indivíduos sedutores e aristocráticos. Para quem está procurando por estes vampiros refinados, recomendo que passe longe de "30 Dias de Noite".

Baseado na graphic novel desenhada por Ben Templesmith e escrita por Steve Niles (que, em conjunto com Stuart Beattie e Brian Nelson, escreveu o roteiro desta adaptação), o filme mostra os vampiros como criaturas subumanas, quase completamente guiadas por instinto, sendo assassinos cruéis e desprovidos de qualquer empatia que o público passa vir a sentir por eles.

Na trama, um grupo dos sugadores de sangue assola a pequena cidade de Barrow, no Alasca, guiados por um estranho (Ben Foster) que deseja se tornar um deles. O lugar foi escolhido por ser extremamente isolado e, especialmente, porque anualmente fica imerso numa noite de um mês, anulando completamente o maior ponto fraco dos vampiros, que é a luz solar. O estranho destrói todos os telefones por satélite da cidade, mata todos os cães de trenó e acaba com o único helicóptero do município, isolando completamente Barrow, às vésperas de uma noite longa e sombria.

Inicialmente interpretando tais atos como um incomum caso de vandalismo, o xerife local, Eben Oleson (Josh Hartnett), lida com seus próprios problemas pessoais como o câncer de sua avó (Elizabeth McRae) e o irmão adolescente Jake (Mark Rendall). Além disso, precisa lidar principalmente com a recente separação de sua esposa, Stella (Melissa George), que ocorreu por ele se recusar a ter filhos, mesmo com ambos ainda nutrindo sentimentos um pelo outro. Quando o oficial e os outros moradores percebem o que está acontecendo, já é tarde demais. Com o aeroporto local fechado durante a longa noite e completamente sem comunicação com o mundo exterior, Barrow se torna um matadouro para os vampiros, liderados por Marlow (Danny Huston), que planeja, após devorar todos os habitantes locais, destruir a cidade, acabando assim com quaisquer evidências de que vampiros sejam algo além de uma lenda.

O que se desenrola a partir daí é uma luta por sobrevivência dos moradores restantes da cidade contra as sedentas e selvagens criaturas, praticamente invencíveis. Esqueça alho ou crucifixos. Segundo a mitologia estabelecida pelo filme, apenas decapitação ou radiação ultravioleta podem deter as criaturas. Como um confronto direto é praticamente suicídio e o sol não nascerá pelos próximos trinta dias em Barrow, o que resta para o grupo de sobreviventes liderado pelo xerife é esconder-se até a aurora.

O filme, infelizmente, desperdiça uma ótima oportunidade de criar um clima de horror psicológico que poderia ser instaurado caso se aprofundasse mais em seus personagens durante a situação absurda e aterrorizante em que se encontram. Sitiados por criaturas saídas de seus piores pesadelos e com pessoas conhecidas sendo massacradas a todo o momento, o tema acaba sendo reduzido a alguns poucos diálogos superficiais entre os sobreviventes. Outro problema do filme é que muito tempo da duração deste é gasto com uma batida e inútil sub-trama que mostra uma crise conjugal entre Eben e Stella, elemento inexistente na obra original e que nada acrescentou ao desenvolvimento da história.

Com a fita investindo no choque provocado pela violência dos atos mostrados (o que não é necessariamente ruim), o elenco de "30 Dias de Noite" não tem em mãos muito com o que trabalhar, com sua missão se resumindo a criar tipos com os quais a platéia pudesse se identificar, objetivo cumprido pela maior parte dos atores. Josh Hartnett não compromete no papel do protagonista, o xerife Oleson, realizando um bom trabalho, mas nada de excepcional. A personalidade destemida do policial, advinda de sua versão quadrinística e sua principal virtude, fora mantida, para o alívio dos fãs. Através de pequenas menções feitas pelo roteiro e da interpretação de Hartnett, conseguimos saber mais sobre Oleson, como o fato de ele ter vivido em Barrow toda a sua vida, conhecendo muito bem cada morador da cidade. Além disso, sabemos que ele não deve ter sido o jovem mais comportado da cidade, dada a sua leve admiração com a possibilidade da destruição dos telefones por satélite ter sido uma travessura adolescente.

A bela Melissa George possui poucas cenas nas quais possa fazer além que ser a beldade na tela. No entanto, quando exigida, a atriz não desaponta, principalmente no último ato, como em sua conversa pelo rádio com seu marido e o diálogo entre os dois que encerra o filme. A despeito disso, sua personagem acaba parecendo um tanto quanto antipática aos olhos do público no primeiro ato da película, justamente por conta da já citada crise conjugal entre Stella e o xerife.

Um personagem que chama bastante a atenção do público é o grandalhão Beau, vivido pelo ator Mark Boone Jr. Aparentemente um tanto anti-social, ele reconhece os esforços de Oleson em tentar inseri-lo na comunidade de Barrow e, de fato, vemos que existe uma relação de amizade entre os dois. No entanto, Beau acaba sendo descartado cedo demais pelo roteiro e de uma forma completamente ilógica.

Os demais sobreviventes são apenas figuras decorativas, com um ou outro dilema ou problema interno que chamam a atenção para eles por cinco minutos antes de serem mortos ou escaparem por um fio, sendo deveras mal-desenvolvidas pela trama. O que ganha maior tempo de exposição é irmão mais moço de Eben, Jake, vivido pelo ator Mark Rendall. O filme não investe muito no sofrimento do garoto ao ver a morte de um ente querido no decorrer do filme ou durante um ato violento que este se vê obrigado a cometer. O personagem, no entanto, aparenta estar recuperado pouco tempo depois, sem maiores conseqüências.

Quanto aos vilões da fita, o único que merece nota é o Estranho, vivido por Ben Foster. Seu aspecto apodrecido sugere uma pessoa que passou por sérios maus tratos. Ao servir de arauto para a chegada das criaturas, sua função é, além de isolar Barrow, instigadora, instilando o medo nos moradores locais com sua figura repulsiva e avisos apocalípticos. Quanto aos próprios vampiros, não sei se é correto chamá-los propriamente de vilões, já que estes, apesar de cruéis em seus métodos, não diferem muito de animais caçando e devorando suas presas. Neste sentido, os atores que os vivem na película, liderados por Danny Huston, realizaram um ótimo trabalho, retratando-os como feras de aparência humana

É nos aspectos técnicos que a fita se sobressai. O diretor David Slade, que já havia ganhado um merecido destaque com "MeninaMá.Com", mostra mais uma vez sua habilidade com a câmera. Ele realiza quadros extremamente eficientes, como a tomada aérea que mostra o desespero da cidade de Barrow, com diversas mortes ocorrendo simultaneamente, ou a cena na qual uma mulher é arrancada para fora de sua casa.

A câmera de Slade não nos poupa dos detalhes mais horrendos dos massacres que ocorrem em Barrow, nem apela para montagens excessivamente rápidas das cenas mais violentas, aumentando ainda mais o impacto das imagens junto ao público. Neste sentido, a direção de fotografia, feita por Jo Willems, foi fator determinante. A paleta de cores utilizada na produção nos remete imediatamente a das ilustrações de Ben Templesmith na graphic novel que originou o filme, criando um clima extremamente sombrio e tenso.

Bastante simples, mas eficiente, foi a maquiagem mostrada no filme, que dá aos vampiros um aspecto monstruoso sem exageros, de modo que o público se sinta desconfortável ao vê-los. Menos feliz, no entanto, foi a edição feita por Art Jones, que acaba por tornar a película excessivamente esquemática, embora tenha obtido êxito nas cenas de ação, que, ao contrário de diversos filmes contemporâneos, são mostradas num ritmo em que o público consiga compreender o que se desenrola na tela.

Embora possua seus vários defeitos, "30 Dias de Noite" funciona como adaptação e obra cinematográfica, devendo agradar aos fãs do gênero terror, embora fãs de vampiros à lá Lestat devam sair do cinema bastante desapontados.

Thiago Siqueira
@thiago_SDF

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