Cinema com Rapadura

OPINIÃO   terça-feira, 04 de dezembro de 2007

Ao Lado da Pianista

“Ao Lado da Pianista” é sufocante do começo ao fim. Com uma trama bem construída pelo roteirista e diretor Denis Dercourt, o filme cativa pela forma como desenrola uma história simples, porém arrebatadora.

Mélanie Prouvost (Julie Richalet) é uma talentosa garota que ama tocar piano. Aos dez anos, se prepara para uma apresentação para os jurados de um dos mais bem conceituados conservatórios de música da França. O apoio da família e a certeza de seu talento a impulsionam na busca por uma carreira musical. Durante a apresentação, Mélanie é perfeita em todos os momentos, até que uma das juradas se dispersa e tira a concentração da garota ao dar um autógrafo para uma fã que entrou na sala. Mélanie se perde meio às notas e não consegue recuperar o ritmo. Ao sair do local, decide que o amor pela música não será mais trabalhado e pára de tocar piano.

Dez anos depois, Mélanie (Déborah François) já é uma mulher com independência dos pais. Ela mora sozinha e procura empregos para se sustentar. Em uma das procuras, consegue um estágio temporário como secretária. Sabendo que seu patrão precisa de alguém que cuide do filho durante as férias, Mélanie se oferece para o cargo e é prontamente aceita. Ela se muda para a casa de Ariane Fouchécourt (Catherine Frot), esposa do patrão e uma exímia pianista, que tem trauma de apresentação após um acidente e se prepara para um concerto. Além de famosa, Ariane é a mulher que tirou de Mélanie a vida musical durante o ocorrido no conservatório, e as duas passam a conviver diariamente de uma forma estranha e que consome todos os sentimentos que uma personagem sente pela outra.

É incrível como Denis Dercourt constrói uma trama que surpreende pela simplicidade e eficácia. Dercourt consegue envolver o espectador de uma forma que gera curiosidade no que vai acontecer na relação daquelas duas estranhas. O personagem de Mélanie é minimamente desenvolvido para ser misterioso e capaz de qualquer coisa, mesmo com sua aparência pacífica, discreta e, como em um determinado momento é dito, com um olhar intenso. Mélanie abre um leque de possibilidades para o desenrolar da trama, e qualquer que fosse o clichê colocado em cena, impressionaria da mesma forma. Entretanto, os clichês são deixados de lado na maioria dos momentos e o desfecho se torna avassalador e destrutivo.

A relação com que Dercourt narra os dois lados da história, de Mélanie e de Ariane, se contrapõe em uma harmonia perfeita. Mélanie está ali para descarregar seus traumas, mas ao mesmo tempo admira aquela talentosa pianista. É tanto que logo se torna a pessoa que vira as páginas da partitura durante uma apresentação. Por conseguir ler perfeitamente as notas musicais e passar tranqüilidade a Ariane, Mélanie consegue a fidelidade da pianista, não só para a carreira, mas também para a vida pessoal. Ariane se apaixona pela segurança e um amor estranho surge. Sem nunca saber o passado da garota, Ariane passa a viver em função da companhia da garota, sinônimo de jovialidade e mistério. Talvez o apego de Ariane tenha sido também pela ausência constante do marido, que a deixa sozinha com o filho em uma mansão. Já Mélanie se transforma naquela que pode controlar o presente e o futuro de todos em questão.

Dercourt aborda como os traumas infantis podem alterar a personalidade de alguém. Após a desistência da carreira musical, Mélanie, que já era o tipo de menina educada e nada expansiva, se fecha com aquele sonho. Ela cresce longe do que lhe fazia bem, sem mais aspirações. Aos vinte anos, se torna uma máquina inesperada de qualquer coisa, capaz de tanto fazer o bem quanto fazer o mal. E quando opta por qualquer um dos lados, nunca parece mocinha nem vilã. A única coisa que parece é que, por mais que ela destrua ou enalteça, ela continuará vazia. Talvez consiga descarregar a consciência, mas não mudará o que aconteceu. É aí que a vitória do filme se encontra: em criar uma história que vaga entre os conceitos de certo e errado, sem nunca se posicionar sobre um deles. Ele entrega ao espectador a oportunidade de discutir sobre as ações da garota.

O elenco ajuda ainda mais na construção dos personagens. Encontrando-se particularmente feito, o grupo de atores não decepciona nas mudanças do início ao fim do filme. A arrebatadora Déborah François mantém uma regularidade em seu modo físico de agir, mas por ser calada, nunca se sabe o que articula em sua mente. É mentalmente que a personagem dela vaga pela provocação, pela vingança. Em determinados momentos, ela age como se quisesse disfarçar o ódio, como na cena da piscina com o filho de Ariane, ou quando dá dicas a ele como tocar piano. É como se ela ferisse indiretamente a figura de Ariane. Ao mesmo tempo, a forma como admira o talento da pianista é encantadora e misteriosa.

Catherine Frot é a que mais consegue variações para o personagem. Inicialmente uma mãe solitária, com a chegada de Mélanie faz com que Ariane ganhe vitalidade. Entretanto, isso vai sendo destruído aos poucos e de formas prática. No ato final, quando todo o desfecho se mistura em um único compartimento da casa, Ariane já não possui estruturas. Frot dá intensidade e anseios ao papel e tira um saldo positivo. O restante do elenco pouco tem destaque em relação a trama principal, mas não decepciona em nenhuma aparição.

A condução de Dercourt é magnífica, modelando os passos da relação das duas personagens e causando todos os tipos de reação no espectador, do estranhamento à concordância. Os planos bem elaborados e a forma com que se aproxima dos personagens, principalmente de Mélanie, fazem uma leitura interna do que eles podem oferecer a cada cena. Além disso, Dercourt dispõe de uma trilha sonora ímpar, variando do mais simples melodrama, até sonoras de suspense que são encaixadas nos momentos mais promissores. A fotografia embeleza as tomadas e explora a vastidão dos ambientes em que as protagonistas convivem, e a edição nunca deixa cair o andamento do filme.

Simplesmente fantástico e cativante, “Ao Lado da Pianista” se torna uma obra-prima francesa que se destaca pela intensidade da trama. Dercourt consegue narrar um conto palpável, extraído do dramalhão e das reviravoltas impensadas que muito atinge a indústria cinematográfica de Hollywood. Mais do que uma história original, uma trama que gera discussão e certamente se torna inesquecível.

Diego Benevides
@DiegoBenevides

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