Cinema com Rapadura

OPINIÃO   domingo, 02 de setembro de 2007

Despertar de Uma Paixão, O

Traição, redenção e perda dão o tom deste ótimo romance, que conta com grandes atuações e belas cenas.

O cinema muitas vezes nos mostrou em imagens aquele velho ditado que "não há fúria no inferno comparável a de uma mulher traída", mas são poucos os filmes que mostram tão bem que a ira de um homem traído pode ser igualmente incomensurável. Uma de tais fitas a mostrar tal verdade é este "O Despertar de Uma Paixão", que fora baseado no romance escrito por W. Somerset Maugham – o mesmo de "Adorável Júlia" – no início do século passado. Conforme a tradução capenga do título nos conta – estragando o que poderia ser uma ótima surpresa no decorrer da narrativa – a película mostra o florescer de um amor verdadeiro entre duas pessoas. A grande questão é que a história romântica ocorre em uma ordem pouco convencional, com os envolvidos somente se apaixonando bem depois de casados, após uma série de desavenças e erros de julgamentos que podem levar essa união a um trágico fim.

Kitty Garstin (Naomi Watts) faz parte de uma rica família inglesa, que está por ver todas as suas irmãs constituindo seus próprios lares, enquanto permanece solteira, a despeito de todos os pretendentes apresentados por sua mãe. Certa noite, durante uma festa na residência dos Garstin, o introspectivo Walter Fane (Edward Norton) se apaixona a primeira vista por Kitty, que nada vê de interessante nele. Porém, quando Walter a pede em casamento na manhã seguinte, ela aceita a proposta para se ver livre das constantes cobranças de sua mãe. Como Walter trabalha como bacteriologista em Xangai, o casal se muda para a metrópole chinesa logo após o casamento. Entediada e solitária, algo que piora com a inabilidade de Walter em expressar seus sentimentos, Kitty acaba se apaixonando por Charlie Townsend (Liev Scheriber), um casado e mulherengo empresário que a convence de duas nobres intenções de largar sua esposa e casar-se com ela.

Quando Walter descobre o caso, ele se oferece como voluntário para ajudar a tratar uma epidemia de cólera que se alastra numa remota aldeia chinesa, coagindo Kitty a acompanhá-lo sob a ameaça de pedir o divórcio sob a alegativa de adultério, mesmo sabendo que ambos correm perigo de morte por lá, não só por conta da doença, mas também pela revolta de vários locais em relação à presença estrangeira. Dentre a tragédia e o rancor enfrentadas pelos dois, eles acabam finalmente se conhecendo (tanto a si mesmos quanto ao outro), admitindo seus defeitos e reconhecendo suas virtudes, fazendo finalmente surgir uma fagulha de amor verdadeiro no casal. Porém, após tantos erros cometidos, poderá essa união perdurar?

A grande qualidade da fita é tratar todos os seus personagens como seres humanos reais, capazes de cometer atos cruéis ou desprendidos, sem existir bem ou mal absolutos, o que os dota de uma bem-vinda complexidade. Kitty, a primeira vista, é apenas uma bela e mimada aristocrata britânica, desesperada para se livrar do rótulo de solteirona e que se casa pelos motivos errados com um homem que não conhece. São traços fáceis de reconhecer, mas a ótima atuação de Naomi Watts nos mostra tão bem o lado da personagem, sua solidão e descontentamento, que torna justificável o fato desta ter caído tão facilmente na lábia de um conquistador barato.

Alguns diálogos mais fortes entre Kitty e Walter – como a cena em que Walter descore o adultério ou a que Kitty leva o jantar para seu marido – se tornam bastante enérgicos graças à química entre a atriz e Edward Norton, que faz um excelente trabalho ao demonstrar todas as qualidades e defeitos de Walter, um bom homem, mas que, por reter demais seus sentimentos, acaba por exarcebá-los quando os libera, sejam bons ou maus. Fora do par principal, temos Liev Schreiber, que vive o canalha Charlie Townsend de maneira absolutamente despreocupada, algo bem condizente com o personagem. Além disso, Toby Jones encarna muito bem o agradável – mas um pouco excêntrico – Waddington. Temos ainda Diana Rigg, que dá a Madre Superiora um tom reconfortante todas as vezes que aparece em cena.

O diretor John Curran parece estar se especializando em filmes com casais em crise, com seu último longa, o ótimo "Tentação", tratando exatamente de problemas conjugais (e também contando com Naomi Watts no elenco). Em "The Painted Veil" ele não só extrai excelentes interpretações do elenco, mas também monta planos absolutamente fantásticos, misturando as belezas naturais de suas locações e uma boa recriação da China da década de 1920, se valendo de seu senso estético e uma ótima equipe técnica para colocar em cena tão belos quadros, principalmente graças a belíssima fotografia de Stuart Dryburgh ("O Piano").

A ótima trilha do filme, composta e conduzida por Alexandre Desplat ("A Rainha"), funciona muito bem em conjunto com a produção, não por acaso sendo ganhadora do Globo de Ouro de melhor trilha sonora deste ano. Um pecadilho da fita fica por conta de sua edição, feita por Alexandre de Franceschi, que torna por vezes o ritmo do filme excessivamente lento, mas, graças às demais qualidades da produção, nunca se torna desinteressante.

Um ótimo romance sobre as conseqüências de decisões precipitadas, pecados, redenções e, acima de tudo, amor, "O Despertar de Uma Paixão" se vale de um grande trabalho realizado por sua equipe de produção e seu elenco, sendo uma fita que vale a pena ser conferida.

Thiago Siqueira
@thiago_SDF

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