Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 25 de agosto de 2007

Espíritos 2 – Você Nunca Está Sozinho

“Espíritos 2” chega aos cinemas brasileiros sem muito oba-oba e, talvez, por isso mesmo agrada em cheio ao público sedento por um bom filme de suspense. Apesar de insistir em erros comuns ao gênero, este exemplar tailandês tem a seu favor uma trama bem elaborada sem deixar escapar detalhes, atuações convincentes e direção capaz de criar um clima de tensão do início ao fim.

Com a nova onda dos filmes de terror em fazer seqüências independentes de seus predecessores e após a boa recepção de “Espíritos – A Morte Está ao seu Lado”, chega aos cinemas pelas mãos da mesma dupla de diretores “Espíritos 2 – Você Nunca Está Sozinho”. Desta vez, Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom assinam também o roteiro sem a ajuda anterior de Sopon Sukdapisit.

Na Coréia do Sul, Pim (Masha Wattanapanich) vive bem ao lado do namorado Wee (Vittaya Wasukraipaisan) e seu cachorro de estimação Lucky. Ao receberem a notícia de que sua mãe está em coma em um hospital na Tailândia, ela se vê obrigada a passar uma temporada em sua antiga casa. Porém, os terríveis segredos e fantasmas do passado não a deixarão em paz. Pim tinha uma irmã siamesa chamada Ploy que faleceu na mesa de operação após optarem pela separação. Sentindo-se culpada por ter quebrado a promessa feita à irmã de nunca se separarem, a jovem entra em paranóia imaginando que o fantasma de Ploy está de volta para um acerto de contas.

“Espíritos 2” é um filme surpreendentemente bom. O roteiro é bem construído e guarda algumas surpresas aos menos atentos que deixaram passar despercebidas as dicas fornecidas por ele. Mesmo o que parecia ser erro de continuidade guarda uma razão de ser. Ao invés de monstros e fantasmas que surgem por erros de outrem, a culpa pelos próprios erros é o motor do medo e terror enfrentados pela protagonista. Uma ótima opção para quem está cansado de criancinhas que sofreram rejeições terríveis e agora amaldiçoam uma casa ou uma fita de vídeo. A dramaticidade, aqui, é bem explorada rendendo profundidade à história.

Na direção, Pisanthanakun e Wongpoom se mostram tão competentes quanto. O clima de suspense e tensão criado logo no início persegue até o fim da projeção. É certo que eles poderiam ter usado mais o silêncio e menos o sobe som usado para causar sustos. As imagens monstruosas “a la exorcista” também poderiam ser poupadas. Afinal, os momentos mais assustadores não as envolvem. A cena do ventilador é uma das mais terríveis criadas por filmes do gênero sem qualquer favor. Na trilha sonora, uma decisão acertada. A inocência das canções tocadas ao piano forma um paradoxo perturbador com o que se vê em cena, mexendo com os nervos dos espectadores.

A atuação de Masha Wattanapanich é outra coisa que chama a atenção. Passando por uma transformação durante a psicose enfrentada por sua personagem, a atriz cria um outro tipo e uma outra personalidade sem mudar um fio de cabelo sequer do lugar. O resto do elenco faz o que dele é esperado. Ratchanno Bunchootwong cria nos flashbacks a imagem de uma mãe afetuosa e Vittaya Wasukraipaisan é o mocinho e namorado perfeito fazendo um ótimo par ao lado de Wattanapanich.

Os tons de cinza no tratamento dado à película pelo fotógrafo Niramon Ross ajudam na melancolia da história e junto à edição e à direção faz de “Espíritos 2” um filme agradável aos olhos e uma ótima opção para os que sentiam falta de um suspense com qualidade técnica e dramática.

Igor Vieira
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