Mais um filme colocando crianças em situações fantásticas chega ao cinema. Mesmo que a história da vez não seja lá muito original ou bem contada, "Mimzy - A Chave do Universo" escapa da mediocridade graças a seus talentosos protagonistas.
Durante uma das edições do RapaduraCast sobre "O Senhor dos Anéis", foi comentada a audácia e a visão de Bob Shaye em bancar a trilogia de Peter Jackson, arriscando o seu estúdio, a New Line, na empreitada. Pois bem, se Shaye jogou os dados como produtor confiando no talento de Jackson, como diretor ele se mostra bastante convencional. Em "Mimzy – A Chave do Universo", seu primeiro trabalho dirigindo um longa em muitos anos, apesar de possuir alguns poucos bons elementos, quase nada parece se destacar, a exceção do "olho" de Shaye para novos talentos, já que o filme consegue se segurar graças ao carisma de seus dois jovens protagonistas que simplesmente levam a fita nas costas com uma segurança capaz de colocar muitos atores veteranos no chinelo.
Na história, conhecemos a família Wilder. A princípio, ela parece absolutamente comum, sendo composta por David (Timothy Hutton, de "O Bom Pastor"), um pai trabalhador e esforçado, a mãe amorosa e esposa dedicada Jo (Joely Richardson, da série de TV "Nip/Tuck"), e os dois filhos do casal, o um tanto quanto relapso Noah (o estreante Chris O'Neil) e sua irmã superdotada Emma (Rhiannon Leigh Wryn, de "Hulk"). A vida deles começa a mudar quando os dois infantes, durante uma viagem em um feriado, encontram uma estranha caixa, de onde sai uma série de objetos aparentemente comuns, como uma concha, algumas pedras e um coelho de pelúcia. A partir daí, as duas crianças começam a desenvolver habilidades cada vez maiores. O antes desconcentrado Noah se torna um gênio e Emma começa a desenvolver habilidades telecinéticas e a ouvir instruções do coelho de pelúcia, chamado por ela de Mimzy, as quais podem mudar o futuro. Enquanto isso, o professor de ciências de Noah, Larry (Rainn Wilson, da série de TV "The Office"), tem sonhos recorrentes sobre o símbolo da Mandala e, junto de sua noiva Naomi, começa a tentar descobrir qual a ligação entre seus devaneios e os jovens Wilder. A situação se complica ainda mais quando envolve a divisão anti-terrorismo do governo americano, liderada pelo agente Nathanial Broadman (Micheal Clarke Duncan, de “Demolidor – O Homem Sem Medo”).
O grande problema do longa é não explorar melhor as possibilidades narrativas que são oferecidas no primeiro terço da película, optando por saídas fáceis e não aprofundando melhor as questões levantadas no decorrer da projeção. Um exemplo disso é o poder de teletransportar objetos que Noah ganha, utilizado, a certo ponto da película, para o garoto realizar uma tacada de golfe. Por que tal dom não fora utilizado no último ato do filme? Outro ponto deixado absolutamente em aberto foi o motivo dos constantes sonhos de Larry com a Mandala, já que a origem de Mimzy e dos demais objetos finda por ter muito a ver com o símbolo tibetano, que acaba servindo apenas como um efeito visual. Aliás, a própria cena onde é realizado um estudo mais aprofundado do coelho derruba boa parte de qualquer tensão que poderia se ter sobre sua existência, transformando-o em apenas uma forçada manobra de marketing de fazer inveja a produções da Globo Filmes.
Porém, a fita se mantém em pé, apesar desses grandes percalços, graças a Chris O'Neil e Rhiannon Leigh Wryn. A atuação das duas crianças é absolutamente fabulosa, principalmente a de Wryn que, além de ser absolutamente adorável – e realmente se portar como uma garotinha de verdade em uma situação dessas -, consegue a proeza de fazer com que nos importemos com o destino de Mimzy, mesmo após a decepção em relação a sua origem. Já o pequeno O'Neil consegue fugir muito bem do estereótipo de pequeno adulto, se portando como uma criança de 10 anos comum, que não gosta muito da escola e curte mais ficar nos seus games, sem ter nenhuma guinada mal-explicada em seu comportamento. Ver os dois juntos em cena é absolutamente fascinante, já que eles possuem uma química incrível. Eles realmente nos fazem crer que são irmãos, seja nos momentos mais descontraídos (como quando Noah conta a sua irmãzinha de onde os hambúrgueres vêm) ou nos mais dramáticos (como quando Emma olha "através do espelho").
Apesar do excelente trabalho dos atores infantis, a coisa complica um pouco para a parte adulta do elenco. Timothy Hutton parece estar no piloto automático no filme todo. Apesar de compartilhar uma ótima cena com Chris O'Neil, ele realmente parece não acreditar muito no projeto – vide sua exagerada atuação na cena do café da manhã e na seguinte a esta. No entanto, sua companheira de cena Joely Richardson realmente se empenha como a mãe preocupada das duas crianças especiais e seu desespero perante a possibilidade de ter algo de errado com os filhos é comovente. Rainn Wilson tenta compensar a inépcia do roteiro em desenvolver seu personagem – que transita entre instigado e preguiçoso a todo momento – lhe dando uma maior energia em seus momentos mais ativos, tendo até um certo sucesso. Algo que complica ainda mais a situação de Wilson é justamente a chatíssima atuação de Kathryn Hahn como a noiva do professor de Noah. Além de sua personagem só servir de contraponto nas cenas onde Larry se encontra "descrente", a atuação canastrona da atriz consegue deixar a personagem ainda mais desagradável, principalmente nas várias cenas onde insiste em perguntar os números da loteria a seu noivo. Falando em canastrice, não há como superar Micheal Clarke Duncan neste filme. O ator parece tão perdido quanto seu personagem que, além de conduzir um inútil subplot, daqueles que não servem para absolutamente nada para a condução da história, ainda confirmando em um diálogo que não está entendendo nada do que está a acontecer a seu redor, e saindo, literalmente, da trama do mesmo modo. Colocar um agente anti-terrorismo em uma fábula de ficção foi querer demais…
Conforme já fora dito no inicio do texto, o diretor Bob Shaye se contenta com o arroz-com-feijão em relação ao seu modo de conduzir o filme, sem inovar muito em relação à narrativa. Aliás, na única tomada em que tenta fazer algo diferente, ele não se dá muito bem. Isso acontece ao mostrar a chegada de um carro a uma determinada instalação por cima, exagerando na distância da câmera e praticamente impossibilitando a audiência de ver o automóvel. A fotografia do filme, no entanto, é ótima, alternando cores vivas e um visual um tanto mais azulado a depender da narrativa, sempre com um resultado agradável, devendo-se elogiar o trabalho do cinematógrafo J. Micheal Muro ("Crash – No Limite"). Já a edição da fita é bem menos congratulatória, apresentando alguns cortes excessivamente abruptos de uma cena para a outra neste trabalho do editor Alan Heim ("Alpha Dog"). O compositor Howard Shore se encontra bem mais contido que em seu já clássico trabalho na saga "O Senhor dos Anéis". Porém, a música "Hello (I Love You)" que Shore compôs junto ao ex-Pink Floyd Roger Waters, com performace deste último, compensa essa timidez.
Após um inicio promissor, o filme cai muito a partir de sua segunda metade, até chegar a um desfecho excessivamente simplório. Ainda assim, "Mimzy – A Chave do Universo" vale ser conferido, graças ao belíssimo trabalho realizado por seus atores mirins, cujas atuações conseguiram superar a mediocridade dos realizadores do longa.
