Afastado do cinema desde "O Mundo de Andy", de 1999, Milos Forman volta a dirigir um filme de época, algo que não ele não fazia desde o final da década de 1980. "Sombras de Goya" mostra que o diretor de "Amadeus" não perdeu o tinto para a coisa. Utilizando-se de momentos históricos críticos e de alguns personagens reais, a produção nos leva a um mundo de sofrimento, repleto de religiosos hipócritas, inocentes sofredores, numa trama digna das mais fortes tragédias gregas
"Sombras de Goya" difere e muito de "Amadeus", obra-prima do diretor de ambos os filmes, Milos Forman. Enquanto no segundo Forman fazia uma brilhante análise da vida e personalidade do compositor Wolfgang Amadeus Mozart, em seu mais recente filme ele utiliza Goya apenas como fio condutor da história a ser contada, como o elo de ligação entre as tramas, não sendo o protagonista do filme, apesar do título deste. Aliás, que história! O roteiro foi escrito pelo próprio Forman (que não roteirizava um filme desde "Valmont – Uma História de Seduções" de 1989) em conjunto com Jean-Claude Carrière (de "Reencarnação"). O filme não nos poupa de cenas de tortura, sofrimento psicológico e traições. As situações que ocorrem, apesar dramáticas e improváveis, nunca soam forçadas, nos remetendo diretamente a antigas tragédias gregas.
A história se desenvolve em dois atos. Primeiramente somos apresentados a uma Inquisição Espanhola decadante, vendo sua força se esvaindo com o crescer das idéis iluministas. Em uma reunião dos responsáveis pelo Santo Ofício, o nome de Francisco Goya (Stellan Skarsgaard, de "Piratas do Caribe – O Baú da Morte"), um pintor altamente influente na corte real (tal influência é mostrada em algumas cenas, que são o ponto fraco do filme), é mencionado, já que suas gravuras mostram a crueldade da Inquisição, mas ele é protegido pelo Irmão Lorenzo (Javier Barden, de "Mar Adentro"), que vê em tais obras uma oportunidade de impor o medo novamente no coração dos fiéis. Ele sugere o aumento no rigor do Santo Ofício já que, segundo ele, "apenas" oito heréges foram queimados nos últimos anos, o que diminuiu o temor a Deus da população.
Com isso, novos inquisidores são convocados e treinados por Lorenzo a reparar em pequenos atos da população, como esconder o pênis ao urinar, pois quem faz isto pode ser um circunscrito, portanto um judeu. Em uma ida ao estúdio de Goya, que está pintando seu retrato, Lorenzo vê um quadro retratando Inés, a bela filha de um rico comerciante local. Lorenzo fica fascinado pela jovem, cujo rosto também está no teto de uma das capelas pintadas por Goya, como um anjo. Certa noite, Inés vai a uma taverna com seus irmãos e recusa o porco oferecido no jantar, o que acaba chamando a atenção de agentes da Inquisição. Inés é citada a comparecer a sede do Santo Ofício para "prestar esclarecimentos" e é barbaramente torturada e forçada a assinar uma confissão de que pratica rituais judaicos e é encarceirada para "aguardar julgamento". O pai da jovem, amigo de Goya, pede para que este arrume um encontro entre ele e Lorenzo, para salvar a filha. Tal encontro acaba levando a uma série de eventos que fogem ao controle de todas as partes.
Em seu segundo ato, passados 15 anos desde a prisão de Inés, as forças napoleônicas invadem a Espanha e o irmão de Napoleão assume a coroa espanhola. Um dos seus primeiros atos é acabar com a Inquisição local, prender seus líderes e libertar todos os acusados de práticas heréges. De lá, surge uma Inés irreconhecível. Desfigurada e insandecida, ela chega a sua casa e encontra apenas os corpos de sua família. Sua única opção de ajuda é Goya. Apesar de ostentar respeito e uma confortável posição social, Goya perdeu sua audição. Arrependido por não ter conseguido ajudar Inés antes, Goya lê o seu relato de que, durante seu tempo encarcerada, tivera uma filha. O pintor então busca a ajuda de Lorenzo, um homem completamente diferente do religioso de outrora. Ao ouvir de Inés que a filha também é sua, Lorenzo tenta encontrar a menina – Alicia, uma jovem prostituta, também vivida por Portman) e esconder de todos os modos os modos sua existência. Convencendo Goya de que ajudará, mal sabe ele que o destino colocará a jovem no caminho do artista e de que a situação pode em breve ficar muito pior.
O elenco fez um trabalho brilhante. Todos, sem exceção, estão ótimos no filme, mas o trio protagonista do filme, Javier Barden, Natalie Portman e Stellan Skarsgaard estão em outo nível. Barden consegue fazer com que seu Lorenzo transpire hipocrisia. Sua posição no começo do filme comparada com seu discurso durante o segundo ato, e a posição moral quando confrontado por Goya são simplesmente enojantes, mas Barden nos faz crer naquele personagem e nunca torná-lo caricato. Skarsgaard vive seu Francisco Goya de maneira irrepreensível, destacando o momento em que sua surdez começa a se mainifestar. Quando seu personagem perde de vez a audição, note que, em todos os diálogos, o ator olha fixamente para os lábios de seu interlocutor (tal detalhe é levado as últimas conseqüencias numa cena fenomenal entre Skarsgaard e Barden). Goya é um bom homem que tenta imprimir sua marca no mundo através de suas pinturas (veja a ansiedade que ele transmite ao esperar a opinião do rei sobre a pintura que ele fez). Entretanto, o grande destaque do filme é Natalie Portman. A atriz interpreta dois personagens na história, Inés e Alicia, e, não só pela maquiagem, vemos que são duas pessoas completamente diferentes. Como Inés, Portman tem sua personagem sendo arrancada de uma existência feliz e abastada e levada a passar anos de tortura e aprisonamento. Todo o sofrimento dela, físico e psicológico, se reflete nos seus movimentos e tiques, sua dicção afetada e trejeitos. Já como Alicia, a atriz se mostra bem a vontade. Alicia é segura de si, apesar de todas as peças que a vida lhe pregou e Portman consegue transmitir isso apenas com seu olhar.
O que se há de dizer da direção de Milos Forman? O veterano diretor arranca o que seu fabuloso elenco tem de melhor, e faz de seu filme uma obra pungente, deixando a crueza das situações falarem por si mesmas, sem forçar nada. A edição do filme, feita por Adam Boome (que trabalhou com Forman em "O Mundo de Andy"), ficou adequada, não deixando o foco da história se perder, mesmo com a divisão desta em dois atos distintos. O impacto da história é intensificado pela fotografia de Javier Aguirresarobe (dos ótimos "Mar Adentro" e "Fale com Ela"), que imprime um presente tom escuro cores, buscando uma analogia com a obra do pintor espanhol. Destaco ainda a direção de arte do filme, que recria desde os porões da Inquisição até o estúdios de Goya com uma perfeição incrivel. Além do trabalho de maquiagem feito no filme por Susana Sánchez (cujo trabalho mais conhecido pelos brasileiros foi no filme "1492: A Conquista do Paraíso", de Ridley Scott) que é essencial para a história (numa nota pessoal, conseguir deixar Natalie Portman feia não deve ter sido dos trabalhos mais fáceis!).
"Sombras de Goya" é um filme pesado. Com um final difícil de ser digerido e muito longe do que poderia ser considerado feliz, a produção consegue uma experiência fascinante e um estudo de personagens belíssimo. Esse belo filme marca a consagração definitiva do talento de Natalie Portman, que se despe de seu caráter de rostinho bonito e mostra do que é feita.
