Explícito e sutil. Impactante e suave. “Nathalie X” concentra em sua essência uma série de contradições. Juntas, elas são justamente o que compõem sua atmosfera extremamente envolvente.
Alguns filmes geram polêmica pelos temas abordados em seu roteiro, outros pelo modo como é mostrado esse conteúdo em suas cenas, mas poucas são as obras que conseguem ser chocantes e sutis ao mesmo tempo. “Nathalie X” traz uma história com potencial para ser abusivamente explorada em termos visuais, mas opta por transpor todo o conteúdo repleto de erotismo para seus diálogos ásperos e crus, tornando a atmosfera mais desconfortável para o espectador desavisado do que se o primeiro artifício tivesse sido utilizado. Aliado a essa forma peculiar escolhida pela diretora como meio de concretizar a trama, está o jeito único de se fazer cinema que os europeus possuem. O resultado é algo que foge do comum e encanta, justamente por isso.
Catherine e Bernard formam um típico casal tradicional francês. Casados há 25 anos e com um filho já crescido, a vida dos dois parece perfeita, tanto pessoalmente quanto profisionalmente. Devido a uma surpresa do acaso, entretanto, Catherine passa a desconfiar que o marido a trai e isso causa um turbilhão de contradições em sua cabeça. Transtornada pelo fato, ela contrata uma prostituta para seduzir Bernard e ter, propositalmente, um caso com ele, só pra poder contá-la tudo o que não sabe sobre a personalidade oculta de seu marido. A moça escolhida é Marléne, que sob o codinome de Nathalie passa a narrar regularmente todas as suas atividades com o amante para Catherine. Enquanto isso, uma estranha relação entre as duas vai se desenvolvendo e a partir de certo ponto, não se sabe mais quem está no controle da situação.
A narrativa é linear e simples, portanto o grande atrativo do filme é mesmo sua trama. O modo como o roteiro foi conduzido – repito – é que torna uma história potencialmente comum em algo extremente instigante. Todo o conteúdo consensualmente “censurável” acontece fora dos olhos do espectador que só toma conhecimento (nos mínimos detalhes) dos encontros sexuais de Nathalie e Bernard através do relato da própria garota de programa. Ao final da projeção, temos a certeza de que em certos casos as palavras podem ter um peso infinitamente maior do que imagens. O modo quase naturalista e totalmente desprovido de pudor com que Nathalie narra cada uma de suas peripécias junto ao amante causa o mesmo efeito no público quanto o que é pretendido causar na personagem de Catherine, um misto de repulsa e encantamento. Ainda que siga uma lógica aceitável, dentro de sua prórpia peculiaridade, no entanto, o filme torna a surpreender com o rumo que toma a relação de Catherine com Nathalie e o quão patológica e frágil se revela a personalidade da prostituta.
Pode-se dizer seguramente que a diretora Anne Fontaine acertou nos aspectos-chave para realizar um bom filme. O elenco está muito bem empregado em seus papéis. O veterano Gérard Depardieu interpreta Bernard que acaba por se demonstrar um personagem secundário, ao contrário da premissa inicial, justamente por ter grande parte de sua participação ocorrida off-screen (fora da tela, quando apenas tomamos conhecimento de suas ações, sem vê-las). As figuras femininas, no entanto, dominam durante toda a trama. A belísima Fanny Ardant empresta toda a classe e (em parte) passividade que sua personagem exige, enquanto Emmanuelle Béart dá simplesmente um show ao viver Nathalie de uma forma completamente enigmática, deixando o espectador sem saber direito que opinião ter sobre ela.
A trilha sonora também se mostra bem escolhida e a fotografia está perfeitamente sincronizada com a atmosfera buscada em cada cena. Desde os ambientes serenos e formais da casa do casal e do consultório de Catherine até o claustrofóbico clube onde Nathalie trabalha e onde se passam as melhores cenas, visualmente falando, do longa.
“Nathalie X” choca e fascina. Não é um conto de fadas com começo, meio, fim e final feliz e está longe se seguir um padrão. Para quem procura algo original no cinema e que não trate a realidade de modo idealizado, no entanto, eis uma excelente pedida.
