Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 04 de julho de 2007

Oldboy

Impactante, desconfortável, original, memorável. “Oldboy” pode não ser unânime para todos os gostos, mas ninguém pode negar que esta é uma produção, no mínimo, notável.

São muitas as produções que chegam, ainda que timidamente, à nossas telonas e não recebem a atenção merecida, seja por falta de publicidade ou até mesmo preconceito do grande público por não se tratar de um filme comercial ou blockbuster. O thriller “Oldboy” é, infelizmente, um legítimo representante dessa espécie. Com roteiro baseado em um quadrinho japonês de mesmo nome, essa produção oriunda da Coréia do Sul é uma das mais fantásticas obras da sétima arte dos últimos tempos, com um conjunto de aspectos que resultam num verdadeiro show conematográfico. Sem ser necessário maravilhosos efeitos especiais, um elenco conhecido ou uma propaganda esmagadora, “Oldboy” mostra o que é preciso para ser verdadeiramente um grande filme.

O roteiro parte de uma premissa um tanto surreal. Oh Dae-su é um homem que, após ser detido por estar alcoolizado, consegue liberação e tenta ligar para sua família. Enquanto está na cabine telefônica, ele é sequestrado e colocado em uma prisão que consiste em uma espécie de quarto de hotel. Oh Dae-Su não sabe porque foi colocado lá e seu único contato com o mundo exterior é um aparelho de televisão, com o qual procura suprir todas as suas necessidadas interpessoais. Após 15 anos, com a memória um tanto comprometida, o protagonista é libertado sem nenhuma maior explicação e seu instindo automático é o de procurar saber o que lhe aconteceu, assim como procurar vingança. Aos poucos, Oh Dae-Su vai encontrando pessoas-chave para a resolução de seu mistério, que se torna cada vez mais instigante.

Como sugere a sinopse e, consequentemente, o roteiro, o longa está longe de originar uma trama leve, revelando-se de uma forma absurdamente intensa que se segue em toda a projeção. Com uma história densa e – porque não? – doentia, “Oldboy” leva o espectador até o pior do homem. Para apreciar e se envolver no filme é preciso se despir de qualquer conceito do que é correto para um ser humano, pois o que vemos está longe de se encaixar nesta categoria.

Quanto a questão visual, o filme cala a boca de quem acha que Quentin Tarantino promove o apogeu da violência, o que até se explica, tendo em vista que o diretor de “Kill Bill” fez escola com as produções orientais. “Oldboy” é o tipo de filme totalmente desaconselhado para os mais sensíveis, já que traz sequências, de fato, grotescas e escatológicas. Com esse conteúdo aliado à uma fotografia muito bem conduzida, o espectador passa as duas horas de projeção completamente tenso e envolvido na atmosfera frenética da trama. Tomadas rápidas e iluminação restrita, tudo contribui para que cada descoberta feita pelo protagonista sobre a sua vida passe a sensação de crescente sufocamento para quem assiste.

O sul coreano Choi Min-sik, na pele do protagonista, talvez represente a melhor escolha que pudesse ser feita. O mais incrível do filme, assim como do personagem principal, é que não podemos imaginar uma historia semelhante sendo produzida pelos Estados Unidos ou tendo alguém como Brad Pitt no papel principal, por exemplo. Tudo é feito de forma tão peculiar que passamos a entender plenamente a forma única como é feita o cinema oriental. O papel de Oh Dae-Su parece cair como uma luva em seu intérprete, que o encarna de forma tão plena que dispensa maiores comentários. O também coreano Gang Hye-jung vive outro papel destacável, como o “vilão” da trama, passando toda a repugnância que o personagem deve despertar, tanto por suas ações presentes quanto as passadas.

Elogios à todas as partes que compõem “Oldboy”, na verdade, irão parecer redundância diante da magnitude do filme. As emoções transmitidas pelo longa devem ser algo único para cada espectador em particular. Apesar de certamente não ser compreendido e apreciados por alguns, fica como um marco no cinema para quem ainda agradece o fato de existir filmes como “Olboy” diante de tanta mediocridade.

Amanda Pontes
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