Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 04 de novembro de 2006

Pequena Jerusalém, A

"A Pequena Jerusalém" é escrito e dirigido por Karin Albou e traz a história de uma família judia (vinda da Tunísia) que vive num subúrbio de Paris, em um bairro que dá nome ao filme.

Logo na cena de abertura, temos uma noção do que vem pela frente ao nos depararmos com um ritual judaico, coroado com uma trilha comovente que dá o toque de singeleza a tudo que será mostrado ao longo do filme. Este, gira em torno de dois conflitos: o primeiro está em Laura, a jovem judia de dezenove anos (interpretada pela ótima Fanny Valette), fascinada pela filosofia de Kant e seu racionalismo exacerbado. Ao apaixonar-se por um imigrante argelino, as suas teorias e sua própria crença na religião (que já vinha sendo questionada anteriormente pela filosofia), caem por terra. No segundo, temos a irmã mais velha de Laura, Mathilde. Casada e mãe de quatro filhos, sua vida entra em choque com a descoberta da traição do marido (o que é terminantemente contra a religião deles). Ela então procura uma conselheira sexual, membro da comunidade judaica, que lhe ajudará a "agradar" seu marido sem necessariamente infligir as regras de conduta da mulher recatada, como prega o Torá (as leis religiosas), fazendo com que seu marido não mais procure uma mulher fora de casa. O problema é que Mathilde teme que essa liberdade sexual a faça perder seu recato e a leve para um caminho de perdição, e, por conta da educação que teve, enfrenta dificuldades nas relações sexuais.

Ambas estão com coração partido por motivos diversos e tentando encontrar-se no meio das preocupações cotidianas. Enquanto isso, a mãe das duas mostra uma melancolia que parece incurável, mas estabilizou-se pelos anos de experiência. Atenção para um diálogo entre Mathilde e a mãe, uma das melhores cenas da película.

Um bom filme, que mostra um lado da cidade das luzes que não conhecemos exatamente. Geralmente, em filmes que se passam em Paris, costumamos ver glamour e luxo. Aqui, temos o lado que é reservado à grande maioria dos imigrantes, que mora em prédios que não são o que se pode chamar de obras arquitetônicas e passam longe de uma estética de beleza própria da cidade.

A direção de Karin Albou traz uma focalização em olhos, boca, nariz, mãos; numa mostra de que os personagens estão à flor da pele, com seus sentidos pulsando constantemente numa ordem acima do normal. Dizem que tudo que é proibido vale mais a pena. Numa casa onde se segue à risca leis onde quase tudo que leva ao prazer é proibido, não seria difícil de imaginar que existe uma tensão sexual bastante óbvia, fazendo com que algumas coisas comecem a ser questionadas. Tudo muito bem conduzido pela diretora em seu primeiro longa.

A realidade e a atualidade da história nos levam a um outro ponto: ser imigrante é sempre difícil. Existem os costumes de quem chega, e os costumes de quem já é do local. A discriminação existe e se impõe. Acabam-se formando guetos. O filme torna-se um retrato do que existe e nem sempre é passado nos jornais. Mas informa também que em todas as culturas existe discriminação. Não só entre os imigrantes e locais, e também entre os próprios imigrantes entre si, que chegam de diversos países com culturas diferentes e formam sua própria comunidade, por vezes tão excludentes quanto os parisienses. A nudez em alguns momentos surge sem propósito, mas não chega a incomodar e chocar, por ser mostrada com naturalidade.

O debate, pela primeira vez em muito tempo, não aconteceu. Por motivos que grande parte das pessoas sequer entendeu (visto que os responsáveis do cinema fizeram o "favor" de colocar música ambiente na hora em que chegavam à sala pessoas para falar da falta de debate). O tema a ser discutido era bastante esperado: "Kant e as atribulações do espírito", e sem dúvida causou enorme desapontamento nas pessoas, que ficaram por vários minutos esperando o início da discussão. Ao que parece, os debatedores Emmanuel Rocha Fragoso e Leandro Massuda não puderam comparecer – pelo menos foi isso que eu ouvi de uma das pessoas que saía da sala.

Mas vale lembrar que o filme traz uma profunda noção de realidade e é muito humano. Karin Albou definiu da melhor maneira os conflitos apresentados nos 96 minutos de projeção: "por amar um argelino, ela (Laura) transgride a lei e encontra sua liberdade. Inversamente, sua irmã Mathilde necessita estar na lei: ela não pode se sentir livre na transgressão".

Beatriz Diogo
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