À primeira vista, "O Sacrifício" pode parecer interessante. Todavia, quem realmente estiver disposto a assisti-lo nos cinemas, apenas irá desperdiçar cerca de 105 minutos de sua vida. É um filme sem nenhum ponto alto aparente, nem mesmo Nicolas Cage e Ellen Burstyn foram capazes de dotar o longa de um clima menos monótono.
Não é novidade para ninguém que Hollywood está sem criatividade. À medida que o tempo passa, os produtores investem mais ainda em refilmagens, adaptações e afins. "O Sacrifício", remake de "O Homem de Palha", de 1973, não é diferente. Porém até que ponto regravações podem ser encaradas de forma positiva? Em sua maioria, apenas servem para que possamos afirmar que os originais são quase sempre melhores, embora tenham sido feitos anos atrás, época na qual nem havia muitos recursos. Há algumas exceções, é claro, no entanto, infelizmente, este não é o caso de "O Sacrifício".
No início, somos apresentados a Edward (Nicolas Cage), um policial que, após presenciar uma garota e sua mãe serem incineradas, fica fragilizado e abalado. Logo depois, ele recebe uma carta de sua ex-noiva, Willow, relatando que Rowan, sua filha, havia desaparecido, e pedindo ajuda ao homem. Então, ele parte para Summersisle, uma ilha remota e privada localizada em Maine, local onde a garota desapareceu. Lá, encontramos uma comunidade altamente matriarcal na qual Edward definitivamente não se encaixa. O homem reencontra Willow e passa a investigar o sumiço da menina, no entanto, não deixa de reparar nas situações estranhas acontecidas no local… E sempre que pergunta por Rowan, ninguém sabe da existência da garota. Willow estava ficando louca ou as pessoas da ilha preferiam mentir à respeito do desaparecimento?
"O Sacrifício" até que começa bem. Nas primeiras cenas, o diretor Neil LaBute consegue prender os espectadores, fazendo com que eles se interessem mais pela trama. Infelizmente, isso apenas acontece nos minutos iniciais. À medida que o tempo passa e que somos apresentados à trama em si, a história vai ficando muito monótona e sempre voltando para o ponto inicial, ou seja, o desaparecimento da menina. Não que tenha algo errado nisso, já que o assunto principal do filme é esse, mas a maneira como ele foi conduzido não criou nenhum estímulo nos espectadores, não fazendo com que estes realmente quisessem que o caso fosse solucionado. Não é criado nenhum laço de intimidade entre quem está assistindo ao filme e os personagens Rowan, Willow ou Edward. Se os conhecesse pessoalmente, diria que eram apenas pessoas dispensáveis e pronto, por mais insensível que isso possa parecer.
Neil conseguiu abordar os ambientes externos, mas não de forma surpreendente. Razoável, apenas. Focar bem nos locais abertos realmente era essencial ao longa, visto que a história se passa em uma ilha com belezas naturais. Porém nem esses ambientes favoráveis foram capazes de dar um tom mais agradável ao longa. Os 105 minutos de duração pareceram durar mais de duas horas. A trilha sonora mostra-se bem composta e, algumas vezes, até alcança o seu objetivo principal, que, talvez, seja deixar o filme, de certa forma, tenso. No entanto, as vezes, parece que as melodias são finalizadas sem nenhum encaixe com as cenas. Infelizmente, nem as canções conseguiram modificar o clima do filme, que é demasiado enfadonho. A história em si é interessante, no entanto não existe nenhum apelo para que o espectador realmente goste dela. Creio que a maneira como a trama foi administrada apenas ressaltou as suas piores características.
Como roteirista, definitivamente, LaBute se saiu pior. Vale ressaltar que o projeto também foi roteirizado por Anthony Shaffer. Não seria correto pôr a culpa toda em LaBute. Na versão original, a trama era mais centrada nos rituais pagãos em si. Neste remake, o cristianismo do protagonista é deixado um pouco de lado, dando mais espaço a uma sociedade matriarcal. É interessante ver a inversão de valores. Embora isso esteja mudando atualmente, os homens permanecem um pouco o centro. Em "O Sacrifício", acontece exatamente o contrário. No filme, as pessoas do sexo masculino são as que têm como principal função a procriação. Na realidade, poucos homens existem na comunidade e sequer possuem destaque notável. Todvia, talvez ao mudar essa parte do roteiro, a essência do filme original tenha sido deixada de lado de uma maneira nem um pouco favorável.
Particularmente, não sei por quê Nicolas Cage decidiu protagonizar este projeto. Porém até os artistas mais experientes cometem falhas. Cage já conseguiu um certo nome em Hollywood e grande parte dos seus trabalhos são de qualidade. Todavia, neste último ano, parece que o ator não está acertando. Primeiro, foi "As Torres Gêmas" – que eu não achei primoroso e nem um pouco digno de um Oscar, em seguida, "O Sacrifício". Com sua experiência, Cage foi capaz de compor um bom personagem. Seu olhar demonstrava que Edward realmente não estava entendendo o que se passava naquela ilha, mas que faria de tudo para salvar a vida da menina. Já a sua companheira de cena, Kate Beahan, responsável por interpretar Willow, não conseguiu fazer uma boa atuação. A atriz permaneceu sempre com as mesmas feições, com aquele olhar sofrido típico. Chegava a ser irritante. Definitivamente, o destaque do elenco feminino – que é a equipe de atores quase inteira, diga-se de passagem – foi Ellen Burstyn. Ao viver a Irmã Summersisle, reafirmou que é uma profissional competente e que apenas não se destaca perante aos outros porque, atualmente, não vem recebendo os papéis merecidos.
Sem nenhuma dúvida, "O Sacrifício" é uma das refilmagens mais sofríveis de 2006. Na tentativa de formular um projeto sério, Neil LaBute apenas ressaltou as piores características possíveis da história, fazendo com que o espectador, em algumas situações, fosse levado ao riso. A direção, embora não tenha sido totalmente ruim, não conseguiu fazer a diferença, apenas dotando o longa de um clima monótono e enfadonho. Com somente 105 minutos, a produção aparentou durar mais tempo do que realmente possui. Embora a inversão de valores, trazendo uma sociedade matriarcal e não patriarcal, tenha sido interessante, não foi capaz de fazer com que o longa se sobressaísse perante os outros projetos existentes. De certa forma, o filme realmente trouxe um momento de martírio – e por que não de sacrifício? – para o espectador que foi disposto a assisti-lo.
