O primeiro choque acontece logo que sabemos a sinopse: um homem de 60 anos cria uma moça de 16 (desde que ela ainda era uma criança) para casar-se com ele ao completar 17. E pasmem: dentro de um barco de pesca, em alto mar, totalmente reclusos.
A palavra "arco" pode ser interpretada como algo que prende, amarra ou ata. E temos exatamente a história de Han Yeo, uma jovem que vive aprisionada em um barco pelo desejo egoísta de um homem que não quer envelhecer só, privando-a da realidade de um mundo que ela sequer escuta falar sobre. A mudança ocorre justamente quando chega ao barco um rapaz que a fará pensar que existe muito mais do que ela imagina fora dali, despertando uma paixão que colocará em risco os planos de casamento.
É um filme trabalhado em tamanho nível de sutileza que destrói o nosso conceito inicial de amor, e, assim como a flecha do protagonista, rompe paradigmas, a partir do momento em que se torna possível a existência de uma relação afetiva entre o algoz e a vítima. Chega a parecer absurdo, mas as coisas vão além disso. O amor tem mesmo laços insondáveis e maneiras diversas de acontecer e ser. Em alguns momentos, ele quase se fundia ao ódio. Em outros, era demonstrado através de uma compaixão entendível, mas nem por isso lógica. O que mostra que nós somos, sim, capazes de enxergar o invisível (e não somente como espectadores), algo que não está claro e não tem explicação, porém acontece. Existe uma constante ambigüidade de sentido nos sentimentos: um amor que cuida e ao mesmo tempo prende.
Em vez de diálogos excessivos, temos uma preocupação em passar a história através de nuances de sentido, como o toque ou até mesmo o cheiro. Essa falta não é quase sentida, o que só engrandece o projeto, provando que não é preciso que se use uma cartilha hollywoodiana para que bons trabalhos aconteçam. A substituição do óbvio dá lugar aos olhares, a planos que priorizam closes e efeitos de câmera parada bem elaborados. As emoções são naturalmente intensificadas, libertando-se de algo que poderia ter-se tornado um roteiro clichê que não refletiria do mesmo jeito o que é passado. Um bom desempenho do diretor e roteirista Kim Ki-Duk, um visionário, que também produziu e editou (o que fez na maioria de seus filmes).
O Sul-Coreano já tinha mostrado a que veio com os bem sucedidos "Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera" (2003), além de "Casa Vazia" (2004) e "Samaria" (2004, que lhe rendeu prêmio de melhor direção no festival de Berlim). Suas histórias costumam trazer ao público fatos chocantes e considerados estranhos. Mas aí ficam os créditos pela originalidade e percepção em não se deixar levar simplesmente por experimentos, mas trazer (e fazer) filmes consistentes, com objetivos e construção trabalhada.
A trilha despretensiosa de Eun-il Kang é linda e dá um toque de beleza a mais. Porém, em alguns momentos, mostra-se repetitiva. Esse foi, vale informar, o primeiro trabalho dele como compositor em um filme.
O debate ocorrido ao fim da sessão mostrou um público participante, trazendo a mediação da Professora Silvia Leão. O amor foi o principal tema abordado, trazendo até mesmo a questão se ele de fato existe ou se seria algo inventado por nós, a título de conforto e costume psicológico.
Acontece uma simbolização que une ou separa, e o amor é uma delas. A velha questão de criar no subconsciente personalidades e ações que não existem (à respeito da pessoa que se ama), maneiras de manter a ilusão e a dificuldade em lidar com a realidade. Silvia Leão afirmou que o amado é uma invenção do amante.
Questionou-se também até que ponto a moça seria ou não uma vítima, e da força que ela tinha, apesar de claramente representar o lado frágil. A filosofia revela que infinitas questões podem sempre vir a ser discutidas. E esse filme certamente teria maior repercussão se o tempo de debate não fosse tão reduzido.
Alguns filmes trazem em si a capacidade de fazer nascer no espectador a necessidade de conferir mais uma vez o que foi visto e analisar outros pontos. Esse longa é um deles.
