Para quem aprecia histórias clássicas recheadas de ação, "Superman – O Retorno" pode ser uma boa pedida. O peso da expectativa gerada previamente, no entanto, acaba atrapalhando um pouco o resultado.
É, parece que virou moda adaptar para o cinema famosas histórias dos quadrinhos e/ou revisitar as que já haviam sido adaptadas anteriormente, como é o caso do Superman, acrescentando tudo o que a tecnologia possibilita ser criado em termos de imagens. Esse segundo caso, no entanto, se torna um pouco mais complicado, já que existe toda uma imagem prévia já criada em torno da história, uma legião de fãs que associam imediatamente o nome Superman com o rosto do ator Chistopher Reeve e com o seu jeito de dar vida a um dos super-heróis mais conhecidos e cultuados do planeta. Nesse aspecto, esse novo filme da série cumpre bem o seu papel, mas não deixa de pecar em outros âmbitos, assim como seria de se esperar de uma produção que gerou tanta expectativa.
Não sou propriamente fã da saga do Superman. Na verdade, meu conhecimento da história do super-herói em si é bastante básico. Porém, para se situar na trama de "Superman – O Retorno", não é preciso mais do que isso. Ponto para o diretor, que consegue envolver também o espectador que vai assistir a essa produção meio sem compromisso, sem se ligar muito sobre o que vai ver na tela.
"Superman – O Retorno" se passa exatamente após os dois primeiros filmes da série, o que teoricamente "anula" dois outros: "Superman III", de 1983, e "Superman IV – Em Busca da Paz", de 1987, ambas produções sem muita notoriedade. Essa decisão do diretor Bryan Singer, a princípio potencialmente controversa, acabou agradando bastante os fãs que julgam esses dois últimos filmes medíocres. O ponto de partida para essa nova produção é a jornada do super-herói em busca de vestígio de seu planeta natal, o que o levou a deixar a Terra por 5 anos e, conseqüentemente, sua amada Lois Lane.
Agora, o super-herói retorna e retoma sua vida, que consiste em salvar pessoas e tentar integrar a sociedade sob o disfarce do jornalista Clark Kent, mas tem que lidar com as mudanças que ocorreram durante sua ausência, o que inclui o fato de Lois estar casada e ter um filho. Além disso, seu arqui-inimigo, Lex Luthor, saiu da cadeia e descobriu o lugar onde estavam as últimas referências que Clark/Superman possuía sobre seu planeta, gravadas em cristais capazes de causar uma tragédia de proporções mundiais.
Argumento para render uma boa história é o que não falta e realmente o roteiro não decepciona. A trama é bem desenvolvida e é ajudada pela facilidade de tudo poder ter uma explicação mirabolante, já que se trata de uma história de super-herói. O diretor, no entanto, poderia ter "se empolgado" menos e ter cortado uns minutos de projeção. O excesso de tempo nesse tipo de filme – quase 2 horas e meia – cansa o espectador.
Outro aspecto que se destaca, não pela qualidade, mas pela estranheza que causa é a aparência do Superman. Não sei se é pelo excesso de maquiagem ou pela digitalização da imagem, mas o fato é que o personagem está com um aspecto um tanto quanto falso, o que deu margem até a perguntas de muita gente sobre a possibilidade de não ser realmente o ator na tela e sim uma pessoa criada digitalmente. "Superman – O Retorno" traz efeitos especiais incríveis, mas infelizmente algumas cenas até perdem o brilho devido a aparência quase "robótica" que o protagonista adquire em determinados momentos.
A surpresa da produção – essa sim agradável – acaba sendo o próprio Brandon Routh, que interpreta o Homem de Aço. As expectativas em torno de um ator novato encarnando um personagem já consagrado por outro ator não eram das melhores, mas o estreante mostrou que fez o dever de casa direitinho. Além do tipo físico extremamente semelhante ao de Christopher Reeve, Brandon Routh captou inclusive muitos dos trejeitos presentes nos filmes anteriores da série. A oscilação de comportamento do personagem enquanto Clark Kent e Superman também foi bem explorada pelo ator, que mostrou-se bastante competente mesmo aos que ousaram duvidar de que ele daria conta do recado.
Kevin Spacey como Lex Luthor também é um ponto positivo na produção, adicionando um ar irônico ao inescrupuloso vilão. O plano mirabolante de Lex, no entanto, deu-me a impressão de ter ficado mal explicado, fato que poderia ter sido melhor explorado pelo diretor. Complementando o elenco, está James Marsden, mais conhecido como o Scott de "X-Men", na pele do marido de Lois Lane (a Kate Bosworth, de "Palavras de Amor"). Ambos com uma interpretação mediana, mas que não chega a comprometer o filme.
Bryan Singer, que já havia mostrado sua inclinação para dirigir filmes do gênero ao assumir "X-Men" e "X-Men 2", no fim das contas, consegue fazer de "Superman – O Retorno" um bom filme, que perde ironicamente pelo fato de ter gerado tanta expectativa. A produção tem potencial para cumprir seus objetivos comerciais e uma seqüência, certamente, pode ser esperada.
