Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 15 de julho de 2006

Superman – O Retorno

Fãs, fãs, queridos fãs de Superman, sejam dos quadrinhos, dos filmes, ou do seriado Smallville. Finalmente o grande dia chegou. Resta saber se com este dia toda a expectativa tenha sido assegurada ou até superada, por quê não? Não é fácil ser fã de Superman!

Em 1978, um rapaz chamado Christopher Reeve vestia pela primeira vez um uniforme azul e vermelho. Um uniforme que, apesar de já ser bastante conhecido por conta dos quadrinhos e seriados de TV, virou um clássico de adaptações de gibis para as telonas. Foi nesse ano que "Superman – O Filme" estreou. Quem diria que, desse tempo para cá, gerações e gerações após, a receita continuaria praticamente a mesma. Toda a tensão que circunda os fãs da geração mais nova, e alguns ainda antigos, para com a estréia de "Superman – O Retorno" pode ser facilmente equiparada à da geração do final dos anos 70. O problema é que ser fã de histórias em quadrinhos não é fácil, ainda mais de Superman. Há sempre aquele medo normal e pensamentos malignos sobre possíveis erros básicos de adaptação.

Antes de qualquer coisa, esqueça os dois últimos filmes da franquia e fixe-se somente nos dois primeiros. Logo daí, o diretor Bryan Singer começa acertando, pois os deploráveis "Superman III" (1983) e "Superman IV – Em Busca da Paz" (1987) não poderiam ter levado um fim melhor. "Superman – O Retorno" é como um terceiro filme da série, mesmo sendo o quinto. E o subtítulo O Retorno refere-se não somente ao longo tempo que a franquia ficou parada, mas à trama em si. Fique calmo você que não é lá muito fã, tampouco assistiu aos outros filmes. No começo, tudo pode ser confuso, mas logo você passa a entender o que está se passando, ou pelo menos o essencial para se entrar no clima da película.

Após os fatos dos dois primeiros títulos da franquia ("Superman – O Filme", de 1978 e "Superman II – A Aventura Continua", de 1980), o alienígena mais querido do cinema volta à Terra depois de uma ausência por volta de cinco a seis anos. Com ele, dúvidas que serão logo descobertas e algumas que ficarão soltas de forma estratégica. As maiores dúvidas, talvez, sejam relacionadas ao que aconteceu durante a ausência do Homem de Aço. Dentre uma dessas, o noivado de Lois Lane (Kate Bosworth, de "Palavras de Amor") com Richard White (James Marsden, o Ciclope de "X-Men"), o garoto Jason (interpretado pelo estreante Tristan Lake Leabu), o vilão Lex Luthor (Kevin Spacey, de "Corrente do Bem" e "Beleza Americana") e outros pormenores que eu não vou ter a cara-de-pau de listar e revelar algumas surpresas agradáveis a vocês. O melhor é que tudo é muito bem apresentado, salvos alguns prolongamentos em determinadas cenas, mas é só terem calma que o bojo chega.

O início do filme já cria calafrios. Não só pelos créditos serem idênticos aos do primeiro filme, mas pela demonstração de efeitos especiais e efeitos sonoros que seremos expostos ao longo de 153 minutos. Eu logo pensei: "Tá tudo muito lindo, quero ver é onde isso vai dar!". Deu no melhor lugar que poderia dar: no sucesso. Sucesso de trilha sonora, sucesso de atuações, sucesso de efeitos especiais. Mas poderia ter dado no estrelato se algumas coisas fossem melhores exploradas, outras não tão exploradas e, como de praxe, não deixei de ver algumas besteirinhas que Bryan Singer teima em colocar na trama a fim de deixar sua assinatura, além de alguns errinhos básicos que são captados pelos olhares mais atentos e menos encantados com toda aquela atmosfera – não que eu não tenha ficado encantando, pelo contrário, tive que "tirar a capa vermelha" para escrever essa crítica.

Como eu ia falando, Bryan Singer teima em querer aparecer sempre da forma mais besta que um diretor possa fazer: colocando marquinhas pessoais em filmes tão grandiosos. Posições do protagonista como o salvador – várias vezes quando Superman está voando, ele é observado na posição de uma pessoa crucificada, lembrando Jesus na cruz -, tomadas distorcidas, piadinhas não muito agradáveis e etc. Mas o diretor teve lá suas boas façanhas e nesse filme, surpreendentemente, algumas muitas. A primeira é a questão de preferir fazer uma continuação advinda do segundo filme, deixando os dois últimos de lado, do que recriar o personagem como fora feito em "Batman Begins". A outra, e principal, é sua delicadeza para com personagens já famosos no mundo todo. Bem como ele fez muito bem nos dois primeiros "X-Men", dos quais também foi diretor. Com o auxílio na medida certa dos roteiristas Michael Dougherty e Dan Harris, o ponto mais forte da direção é esse carinho para com a trama, todos os detalhes, as pequenas façanhas, as grandes, os diálogos… Tudo é tratado com uma ternura para nenhum fã colocar defeito. Parece que as coisas mais importantes foram feitas à mão e sob o olhar de mil fãs pressionando aquelas mãos. Minha visão para com o diretor melhorou bastante, mas também tenho minhas chatices em relação a ele.

Christopher Reeve pode descansar em paz! O primeiro ator a encarnar no cinema o super-herói da capa vermelha – e maravilhosamente bem -, faleceu em 10 de outubro de 2004. Deixou o mundo paraplégico por conta de uma queda que sofreu ao andar a cavalo, mas também deixou para o mundo vários estudos sobre células-tronco que ele mesmo financiava. Um exemplo de hombridade. Além, lógico, de deixar sua marca pessoal no tão querido personagem. Para sua felicidade, esteja ele onde estiver, não poderia ter um herdeiro melhor do que Brandon Routh. O jovem ator, agora dono da capa vermelha herdada de Christopher, não poderia ter sido melhor. Esqueçam Tom Welling de "Smallville" (não que ele interprete mal), pois Brandon se mostrou um estudioso mor de Superman, conseguindo trazer novamente à tela muitos dos trejeitos que só Christopher Reeve sabia fazer. Trejeitos que foram também captados dos quadrinhos, principalmente quando Brandon está de Clark Kent. Quando escolheram o ator, eu estava um tanto quanto cético, mas ele calou a minha boca e a de muitos. Só alguns que continuam não elogiando o rapaz por pura teimosia.

Uma atriz que também me deixava bastante amedrontado acabou confirmando minhas más expectativas, infelizmente. Não poderia a inexperiente Kate Bosworth ter recebido tamanha labuta de interpretar Lois Lane. Até a limitada Erica Durance que está interpretando a Lois de "Smallville" se portaria um pouco melhor do que Kate. Ela é muita nova para o papel e para não compensar essa meninice, não cria um carisma essencial que teria de envolver sua personagem. Ela não estragou a personagem, pois essa já tem sua marca aí há tantos e tantos anos, mas se não tivesse, Lois Lane seria a maior piada se Superman. Deixo bem claro que gostaria de uma melhorada da senhorita caso haja seqüências e torcerei para isso. Não é caso perdido.

Kevin Spacey, depois de muitos personagens competentes no cinema, finalmente ganha sua marca: Lex Luthor. Não é extraordinário, mas face aos outros Lex dos filmes eu fiquei bastante contente. O melhor não é nem o ator, é o próprio roteiro auxiliando o personagem. E, melhor ainda, as gloriosas citações de Lex Luthor estão presentes. Completando o cast principal, estão James Marsden e Sam Huntington. O primeiro é o já citado noivo da Lois Lane e o segundo é o simpático fotógrafo do Planeta Diário, Jimmy Olsen. Os dois não têm lá grandes destaques a serem apontados, mas James Marsden, que interpretou o Ciclope dos três X-Men, vai bem quando requisitado.

Ela não poderia passar batida: a trilha sonora. Que espetáculo! Mais um passeio de John Williams. Eu estava enjoado de passar anos e anos da minha vida vez ou outra escutando ao "param-pam-pam-pam" do tema de Superman. Esse filme deu uma nova vida à música e meus ouvidos agora são outros para com ela. Para dar essa revitalizada à tão conhecida trilha sonora, nada melhor do que toques básicos de John Ottman, também compositor da trilha de X-Men 2, Quarteto-Fantástico, e muitos outros grandes títulos. Competência é a palavra certa para definir o trabalho do rapaz.

Pois bem, amigos, o filme não vai ter um redondo 10 por vários errinhos básicos, tanto de roteiro quanto técnicos. Para que esse excesso de maquiagem no ator Brandon Routh? Ele já se parece com Clark Kent e, conseqüentemente, com o Superman, não precisa levar ao extremo. No roteiro, a tal da falha na condução do filme, como eu já disse aqui algumas vezes. Lá pelo fim, por exemplo, depois dos principais acontecimentos a trama vira novela. Não ao pé da letra, mas que enche o saco, enche. Algo que poderia ser evitado com mais cenas de ação na parte intermediária do filme ou uma melhor situada para o pessoal que não acompanha muito Superman, teria resolvido isso aí.

Sim, Superman – O Retorno me deixou feliz. Sim, Superman – O Retorno ainda vai render muito "pano para a manga". Espero fervorosamente que um próximo venha por aí. Enquanto não vem, fico no aguardo assistindo Smallville, lendo alguns gibis do super-herói e sempre revendo Liga da Justiça. Nos vemos lá, então.

Raphael PH Santos
@phsantos

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