Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quinta-feira, 22 de junho de 2006

Impulsividade

Depois de levar prêmios no Festival de Berlim e de Sundance e contar com um elenco até atraente e uma sinopse daquelas que, se bem trabalhadas, gera uma baita filme, Impulsividade acaba desiludindo o espectador que se vê em meio a tanta confusão no enredo, na direção incompetente que não consegue envolver quem assiste.

Impulsividade narra a história de Justin (Lou Taylor Pucci), um adolescente comum de 17 anos que nunca conseguiu parar de chupar o dedo. Depois de ajeitar seus dentes várias vezes, seu dentista, Perry Lyman (Keanu Reeves), que está sempre dando mais que uma consulta dentária para seus clientes, servindo também como psicólogo, tenta usar a hipnose para curar a mania do rapaz. O que Justin não esperava era que seu problema seria “resolvido” pela substituição do dedo por remédios e drogas, que curariam sua ansiedade e nervosismo. A partir daí, o garoto vai conhecendo cada vez mais sua adolescência, aflorando hormônios, sofrendo com a imaturidade dos seus pais e tendo intervenções de fatos fragmentados que, se juntos, não formam um fato completo. Mas isso eu comento mais tarde.

Como eu menos esperava, a sinopse é boa demais para o que eu veria nos noventa e seis minutos de filme. Eu juro que tentei encarar o filme desde o primeiro momento como um bom drama que viria com idéias inteligentes e sacadas interessantes para trabalhar o comportamento do jovem Justin e sua mania obsessiva de chupar o dedo, mas foi a maior decepção. Logo no começo, percebe-se o tom de ridículo que o drama assume, fazendo análises fúteis e dispondo-se dos clichês para tentar engatar a história e fazer com que o protagonista busque uma cura e sua vida mude. Somos apresentados logo de cara ao objeto do filme, perdendo um pouco da credibilidade do que poderia vir a seguir. Uma péssima jogada do diretor e roteirista Mike Mills. A montagem inicial das cenas chega a irritar e parece a coisa mais amadora do mundo. Os fatos não parecem estar interligados e quando tentam fazer um jogo de cenas que se relacionam entre si, cai no fracasso. Os shots são tão curtos que não se dá para entender ao certo o que Mills está querendo expressar com esse conjunto de imagens nebulosas, finalizadas sem sucesso e que já me estressou de cara. Mas, como todo bom cinéfilo, fiquei até o fim, esperando que algo acontecesse e saísse da mesmice.

O filme se segue e parece que não sai do lugar. O enredo parece que pode se encontrar meio a tanta confusão, até sofre uma melhoria no andamento da história, mas a disposição dos fatos que vão acontecendo na vida de Justin não convencem e tudo parece correr rápido demais, causando uma série de superficialidades que não prendem o público em momento algum. Sempre dispondo de um humor que atinge o ridículo e o escracho, acredito que, se o filme tivesse levado um pouco mais a sério, poderia até ter sido mais feliz no produto final. Não se considerando um drama genuíno, ainda apela para aquela idéia que dramas têm que ter cena de choro e coloca um momento desses já nos minutos finais para que o público vá para casa certamente enganado que viu um filme dramático, o que na verdade foi um fiasco. Às vezes eu me pergunto como aprovam produções do gênero. Posso estar até parecendo rude ao julgar assim um longa que esteve em festivais famosos no mundo, mas visto com um olhar mais apurado, o filme todo não resulta em muita coisa, justamente por fazer uma análise superficial de um jovem que tem que acabar com sua mania e começar a conhecer sua vida, que, por sinal, não serve de exemplo para muita gente. Deu para perceber que um esforço foi feito para que a história engrenasse, mas o clímax passa despercebido, tornando o enredo nada convincente, fragmentado e duvidoso. Em certos momentos, questiona-se a futilidade das cenas e o fato de ser descartável à trama que é, basicamente, empurrada com a barriga pelo bom desempenho dos atores. Falo bom porque eu não imagino que um roteiro tão superficial e pouco fundamentado pudesse construir personagens realmente fortes e densos, deixando o talento do elenco escolhido (a ótima Tilda Swinton, Vince Vaughn, Keanu Reeves e o protagonista Lou Taylor Pucci, que mais parece uma cópia masculina de Swinton, que interpreta sua mãe na história; e olha que ainda queriam colocar a Scarlett Johansson como a namoradinha do protagonista!) guardado dentro de uma caixinha, pois não pode se libertar devido à incapacidade do enredo gerar bons personagens. Por várias vezes me perguntei para quê a existência de alguns atores que estavam no elenco de apoio e até o personagem de Keanu Reeves que, basicamente, aparece algumas poucas vezes e podia muito bem ser feito por alguém de um naipe menor e não sujar a carreira do eterno Neo, de Matrix.

A direção foi razoável. Talvez o que tenha atrapalhado mesmo tenha sido a edição e montagem do longa todo. É impressionante como causa desgaste no espectador. E não me venha com o argumento que “é um filme de arte e é denso” que não cola mais. Densidade pode ser muitíssimo bem explorada em qualquer filme, de arte ou não, mas desgaste nem sempre é sinônimo 'positivo' da tal densidade. O diretor até investiu em alguns momentos e enquadramentos das cenas, brincando com a posição da câmera e dos objetos usados no cenário, mas não conseguiu se estabilizar nesta linha de sucesso que sua direção estava seguindo, se perdendo meio ao enredo. A trilha sonora que embalou muitos dos momentos de Impulsividade foi bem escolhida, mas alguns solos foram usados em exagero. O diretor precisava entender que nem todas as cenas precisavam estar regadas a uma música de fundo que, muitas vezes, atrapalhava no entendimento e desenvolvimento da história.

Um drama que usa do grotesco, do humor nada engraçado e que acaba caindo no ridículo, sem muita fundamentação e diálogos fracos, não sustenta Impulsividade. Um roteiro falho pode mesmo transformar uma produção em uma verdadeira opção descartável. Não está fácil mexer com a questão comportamental nas telonas. Superficialidade não atrai mais o carisma do público. Uma história sem embasamento e que não passe segurança do que as imagens mostram, não pode transformar um filme considerado “de arte” em um sucesso, ainda mais usando a imagem de atores que têm tanto talento que não conseguiram lidar com a fraqueza dos seus papéis. E nem me venham dizer que porque ganhou prêmios em festivais internacionais (o merecido prêmio de melhor ator no Festival de Berlim e prêmio do júri no Festival de Sundance) que ele certamente é bom. Pelo menos, a minha simpatia não conquistou e, sem dúvida alguma, eu poderia viver muito bem sem ele. É tanto que saí da sala, fui pra casa e quase chorei pela decepção.

Diego Benevides
@DiegoBenevides

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