Travis Knight leva He-Man de volta a Eternia em uma adaptação que abraça a excentricidade da franquia sem abrir mão do humor.
Por mais icônico que seja, Eternia é um mundo construído a partir de conceitos tão extravagantes que qualquer adaptação sempre está sujeita a parecer ridícula para quem está de fora ou excessivamente contida para quem cresceu com os brinquedos e desenhos. Travis Knight se arrisca a ir por um caminho intermediário em seu “Mestres do Universo”. Em vez de fugir da cafonice da fonte original, o filme a abraça quase o tempo todo, entregando uma aventura de fantasia que demonstra grande carinho pela franquia.
Diferente do longa de 1987, que levava seus protagonistas para a Terra por limitações orçamentárias, a nova adaptação permanece quase integralmente em Eternia. Isso permite que o filme explore as criaturas bizarras e as tecnologias impossíveis características do universo com mais liberdade. Knight demonstra não sentir vergonha dos visuais clássicos dos personagens, e toda a equipe criativa claramente se esforça para transpor elementos que poderiam facilmente soar artificiais. Esqueleto, Teela, Mandíbula, Homem-Fera e tantos outros surgem reconhecíveis, preservando características que poderiam ter sido suavizadas em nome do realismo sombrio.
Essa energia de entregar algo à altura do sucesso da franquia se concentra principalmente nos quarenta minutos iniciais. Knight parece sempre buscar novas maneiras de brincar com aquele mundo, explorando cores vibrantes e cenas de ação que utilizam enquadramentos criativos e uma boa noção de espaço. Contudo, parte desse ímpeto se perde conforme a narrativa avança. As sequências de combate continuam frequentes, mas se tornam mais convencionais, sem o mesmo carinho nos diferentes ângulos de câmeras e coreografias.
Nicholas Galitzine sustenta bem o protagonista, trazendo uma ingenuidade sincera ao seu Adam. Porém, o roteiro opta por preservar traços dessa personalidade quando ele assume o posto de He-Man, o que acaba limitando a transformação a algo meramente físico. Não existe a imponência necessária ao herói, algo que nem mesmo a voz grave da dublagem de Garcia Júnior é capaz de proporcionar.
Manter esses traços de vulnerabilidade no He-Man parece ser algo proposital. O filme se dá a liberdade de brincar com certos ideais de masculinidade preconcebidos, equilibrando-se entre homenagear e tirar sarro do material original. Não se trata da arrogância de algo que se considera descolado demais para abraçar a galhofa. Na verdade, é possível imaginar as piscadelas dos roteiristas em cenas como a explicação para os nomes de alguns personagens, mostrando constantemente uma autoconsciência da própria excentricidade.
Conforme o longa avança, fica clara a escolha pelo caminho de explorar o potencial cômico da mitologia. Esqueleto é o principal alvo dessa abordagem, afinal, não é uma missão fácil levar a sério uma caveira afetada e musculosa tentando dominar o universo. E Jared Leto abraça a extravagância do vilão sem pudor, o que rende algumas das cenas mais divertidas da obra.
Apesar do título prometer uma aventura dos Mestres do Universo, o filme pertence quase exclusivamente a He-Man. Figuras importantes da franquia se limitam ao espaço de coadjuvantes de luxo, quando não são aparições mínimas. Teela (Camila Mendes) e Mentor (Idris Elba) recebem algum desenvolvimento adicional, principalmente por serem próximos a Adam, mas boa parte do restante do elenco permanece à margem da história.
O roteiro também reserva um espaço considerável para dramas familiares envolvendo Adam e os pais, Teela e Mentor. As histórias não são descartáveis, mas esticam a duração do filme com sequências que contrastam com a opção de humor frequente adotada em boa parte da obra. A edição se esforça para manter um ritmo agradável, principalmente pensando em um público de blockbuster, mas é certo que vários minutos poderiam ser reduzidos sem grandes prejuízos.
Apesar de tudo, “Mestres do Universo” acerta na difícil missão de fazer com que Eternia e sua mitologia mirabolante funcionem em live-action. Em uma indústria cada vez mais preocupada em tornar tudo sombrio e realista, o maior mérito do filme é perceber que He-Man nunca precisou ser levado totalmente a sério para funcionar.
