Cinema com Rapadura

OPINIÃO   domingo, 29 de dezembro de 2019

A Camareira (2018): intimista e cansativo

Com um ritmo lento, a diretora Lila Avilés apresenta a rotina de uma camareira como plano de fundo para uma busca pelo autoconhecimento.

A abordagem intimista de “Roma”, do mexicano Alfonso Cuarón, é perfeita para apresentar a relação entre uma família e duas empregadas de origem indígena. Já “A Camareira”, da diretora Lila Avilés, adiciona outra perspectiva da mesma discussão. Desta vez, ao invés da família, a protagonista precisa lidar com a rotina do hotel em que trabalha.

Eve (interpretada por Gabriela Cartol) é uma mãe solteira de 24 anos, que não tem chuveiro em casa e leva 2 horas para chegar no seu trabalho, um hotel luxuoso na Cidade do México. O roteiro, de autoria compartilhada entre a diretora e Juan Márquez, cria um olhar sobre o ambiente profissional da jovem. Assim, quase 99% da obra se passa pelos quartos e corredores do edifício. Além de estudar, seu maior desejo é ser a responsável pela limpeza do andar 42, com apartamentos de luxo.

A trama não tem um caminho muito claro para seguir. Em meio a uma tediosa arrumação de quartos, limpeza de banheiros, aulas no ambiente de trabalho e sua relação com os hóspedes, Eve insiste com um pedido para receber um vestido vermelho, que foi esquecido nos achados e perdidos. Cobra, mas nunca recebe. A promoção para trabalhar no outro andar também fica apenas na base da esperança futura. E são essas pequenas promessas que a ajudam a ter um ânimo de seguir em frente mesmo com o trabalho pesado.

A câmera segue Eve o tempo inteiro com uma mesma proposta que se repete muitas vezes ao longo da obra: uma cena longa com a protagonista arrumando algo. A câmera aguarda a personagem deixar o quadro, permanece com o quarto vazio alguns segundos e fim de cena. São tantas repetições que deixam o filme muito mais longo do que o necessário. A fotografia de Carlos Rossini se aproveita dos ambientes claros para contrastar a personagem com os quartos perfeitamente alinhados.

Quando aparentemente a personagem começa a ser desenvolvida, tudo volta ao normal. Quando o roteiro dá um passo à frente, em sequência retorna uns três passos. Com algo tão rotineiro, sem alívio cômico, a proposta de contemplação perde palco para o tédio. Gabriela Cartol atua de maneira introspectiva, demonstrando a timidez da personagem com um sorriso de canto de boca ou com um andar curvado.

Causando uma sensação que a personagem pode explodir a qualquer momento, a diretora reforça quão automatizado é o trabalho e como funciona a competitividade com outras funcionárias para conseguir uma promoção. Com tamanha repetição da mesma proposta, Eve sente mais quando comete seu primeiro erro. Não importa quantos quartos estejam perfeitos – um banheiro sujo já é suficiente para a funcionária temer a perda do cargo e do salário direcionado para os cuidados do seu filho.

Os hóspedes do hotel variam entre pessoas que ignoram completamente a presença da funcionária, a outras que abusam da boa vontade, como uma mulher que pede a Eve que cuide do seu bebê enquanto toma um banho. Ela não tem pé atrás ao ficar nua na frente da funcionária, sem ao menos pensar se isso incomodaria a jovem. Observando a intimidade dos hóspedes, Eve realiza uma autoavaliação sobre a sua identidade.

Em “A Camareira”, Avilés pesa a mão ao reforçar tanto a repetição da rotina, gerando uma sensação de tédio que poderia ser evitada. Por outro lado, utiliza a personalidade forte dos outros personagens para espelhar Eve em meio ao campo de força invisível que ela impõe ao seu redor. Ela é tão fechada que precisa dos excessos dos outros para começar a se abrir. Sempre em cena sob quatro paredes, Eve representa uma jovem que sobrevive no trabalho para se libertar. Quando livre, vai enfim conseguir viver.

Fábio Rossini
@FabioRossinii

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