Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A Vida de Diane (2018): a efemeridade da vida

O estreante Kent Jones ao lado da já experiente Mary Kay Place traz uma mescla de ousadia com complexidade à trama. A efemeridade da vida é tratada de uma forma desconfortável, mas estranhamente cativante.

Habituado a produzir documentários como “Uma Carta para Elia” (2010) e “Hitchcock/Truffaut” (2015), Kent Jones é desafiado por Mary Kay Place, que tem um currículo enorme no cinema americano, a dirigir seu primeiro longa. Embora haja algumas confusões de roteiro e direção, Jones sai de “A Vida de Diane” com um saldo positivo, pois mesmo sendo um estreante no mundo cinematográfico, ele tem uma trama muito boa e conta com a ajuda das boas atuações do elenco.

Diane (Mary Kay Place) esta sentindo que cada dia que passa é um precioso dia a menos de vida. Já na casa dos 70 anos, viúva e com duras memórias (as quais descobrimos ao longo do filme), ela decide dedicar sua vida a servir os outros: alimentar moradores de rua, visitar e cuidar da sua prima que tem câncer, acompanhar os vizinhos idosos que se sentem solitários, papear com a amiga e cuidar do seu filho que é viciado em drogas. O que pra muitos seria uma rotina frenética, para Diane é algo natural e automático. Ao perceber que o tempo é algo incontrolável, faz tudo isso sem esperar nada em troca, além de ocupar sua cabeça para esquecer a efemeridade da vida. Porém, as pessoas que tanto precisavam dela e de sua ajuda começam a ter melhoras ou morrem. Sua rotina começa a esvair e ela se vê obrigada a olhar para si mesmo e perceber que, dessa vez, ao contrário de todos esses anos, quem precisa de ajuda é ela.

O arco de Diane é bem construído e realista. Ela é o tipo de personagem que você consegue se identificar e se conectar. As atuações só aumentam e dão ênfase para a trama e experiência do espectador. O bom trabalho de Kent Jones é visto em pequenos detalhes que abrilhantam o longa. A atarefada Diane raramente está sozinha em cena. Quem assiste ao filme consegue ver e sentir a sua ocupação, pois ela sempre estará acompanhada de alguém. De mesmo modo que ele deixa as tarefas de Diane em evidência, o filme pode soar lento para alguns – Jones não poupa tempo de tela para mostrar sua cansativa rotina diária. A fotografia sempre fria e o clima invernal dão um tom melodramático a mais para a obra.

Como nem tudo são flores, Kent Jones não faz (propositalmente ou não) transições quanto à passagem de tempo no longa. Esta é feita de forma bruta e sem prelúdio. O filme está em uma pegada, lhe cativa nela e bruscamente muda. Talvez o fato de estar acostumado a fazer documentários maiores tenha lhe atrapalhado a ter essa percepção na hora da montagem. Mortes sem explicações e sem vínculos com a história, flashbacks sem sentido, entre outras cenas poderiam ser revistas. O espectador terá dificuldades para lidar com essas novidades.

O filme tem a proposta de ser estranhamente desconfortável. “A Vida de Diane” vai lhe fazer repensar no sentido da vida, vai lhe questionar e lhe colocar em uma situação desagradável. Nesse ponto, não podemos por nenhum adendo. O longa consegue tratar com leveza a liquidez de nossa existência, retrata o inevitável caminho da vida e ainda assim consegue ser autêntico ao mesmo tempo. Lenine certa vez escreveu: “Será que é tempo que lhe falta para perceber? Será que temos esse tempo para perder? E quem quer saber? A vida é tão rara!” Se “A Vida de Diane” fosse uma brasileira, inevitavelmente, Lenine seria a trilha sonora. E se não chega a ser um filme grandioso, consegue pelo menos ser um filme intrigante. Não é um filme só para entreter e sim para instigar a pensar, pois parte de um argumento simples e traz a complexidade da vida humana.

André Bastos
@_drebastos

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