Direção fraca e ritmo irregular prejudicam filme sobre conflitos entre dois irmãos.
Certos filmes já nascem fadados ao fracasso, como aqueles que possuem muitos pontos irregulares que não gerarão um bom resultado. Outros, mesmo com uma equipe, roteiro, atores e produção de qualidade, tropeçam no meio do caminho e culminam em obras frustrantes. Há, ainda, uma terceira categoria: um filme que tem pontos bons e ruins, mas que pode se dar bem ou mal. Infelizmente, “Apenas Entre Nós” entra nesta última categoria, com um resultado fortemente irregular.
Co-produção Croácia/Eslovênia/Sérvia, o longa dirigido pelo cineasta croata Rajko Grlic – indicado à Palma de Ouro em Cannes em 1978 pelo longa “Bravo Maestro” – mostra a relação entre os irmãos Nikola (Miki Manojlovic) e Braco (Bojan Navojec), rivais desde sempre quando se trata de mulheres e da relação que tinham com o finado pai. Enquanto o primogênito Nikola sempre conquistou tudo, Braco choraminga pelos cantos o fracasso do fim de seu casamento com Marta (Ksenija Marinkovic), da relação hostil com a filha adolescente e revoltada (Buga Simic) e de ficar sempre em segundo plano quando o irmão entra em cena. Nikola, por outro lado, conta com a sorte e a lábia e charme que encantam as mulheres. Ele é casado com Anamarija (Daria Lorenci), que realiza uma inseminação in vitro após tentativas vãs de engravidar do primeiro filho.
Enquanto isso, ele mantém uma segunda esposa, Latica, e um filho, cujo contato não pode ser às vistas do público para não gerar suspeitas. Não contente, ainda mantém relações sexuais com moças mais novas, como a bela Davorka (Nina Ivanisin). Em uma família enraizada no sexo, Nikola e Braco mantém mentiras e segredos debaixo do tapete enquanto tentam manter uma convivência mínima familiar.
As mulheres, no contexto, usadas apenas para procriação ou sexo, surgem como peças de um joguete masculino incômodo entre os dois, ávidos por uma prova de masculinidade e poder de dominação. Inclusive, a obra pode incomodar as mulheres mais perspicazes justamente pela coisificação da figura feminina. Há um breve arregaçar de mangas de Marta e Anamarija para se impor, porém, logo a submissão retorna de dois personagens que, no mínimo, beiram o asco. Inclusive, o filme não permite criar nenhuma empatia com os irmãos, que se engalfinham em problemas concretos e complexos para, segundos depois, agirem como se nada houvesse.
Assim, o longa se perde na ausência de conflitos, que se esvaem no ar. E neste emaranhado non-sense de personalidades, “Apenas Entre Nós” foge do crível, colocando conflito em cima de conflito que, prestes a desabar, chegam a lugar nenhum. A premissa interessante do envolvimento dos dois irmãos e suas (ex-)mulheres poderia ser muito bem aproveitada, mas se perde em um filme vulgar, que só ganha pela boa trilha sonora de Alan Bjelinski e Alfi Kabiljo, além da interpretação acima da média de Ksenija Marinkovic no papel de Marta, uma mulher perdida após a separação com o marido e que se embrenha em um universo de bebida, remédios e sexo pago. Assim, ficamos diante de uma trama apática, de cortes secos, onde a falta de conclusão bloqueiam as interessantes tramas – que poderiam resultar em um grande filme.
O resultado, porém, é cansativo e pesado na roleta de joguetes humanos que se cria, onde os escrúpulos e os personagens não se levam a sério. E as desventuras das vidas dos personagens de “Apenas Entre Nós” ficam, literalmente, entre eles, como se entrassem por um ouvido e saíssem pelo outro.
