A despeito de possuir uma premissa forte e um elenco em ótima forma, este novo trabalho de Paul Haggis acaba perdendo pontos por sua conclusão frouxa e pouco corajosa.
Após um hiato de três anos desde que comandou um filme para cinema, o diretor Paul Haggis chega com o thriller “72 Horas”, fita na qual mais uma vez mostra pessoas comuns em situações extraordinárias. No entanto, seus dois trabalhos na franquia “007” parecem tê-lo deixado mal-acostumado como roteirista.
O filme mostra Russell Crowe no papel de John, um professor de inglês de uma faculdade comunitária que parece ter uma vida tranquila, a despeito de seu relacionamento tumultuado com seu pai (Brian Dennehy). Com um filho e bem casado com a geniosa Lara (Elizabeth Banks), o cotidiano de John vira do avesso quando sua esposa é acusada de assassinato.
Condenada à prisão perpétua e sem perspectivas de sair, Lara tenta o suicídio, o que leva seu marido a tomar uma decisão extrema: tirar a esposa da prisão por meio de um elaborado plano de fuga. Levado ao limite de suas crenças e pressionado por todos os lados, John deve descobrir até onde ele consegue ir por sua família.
Filmado com uma fotografia bem naturalista, ressaltando cada poro e imperfeição do rosto de seus atores, Haggis transmite uma impressão de realidade ao drama de John e Lara que realmente carrega a história vista em tela de tensão e faz o público se sentir envolvido por aquela trama, com o diretor/roteirista sendo auxiliado neste sentido pelo seu bom elenco.
Ao mostrar o personagem de Crowe tendo de se envolver com tipos perigosos, cometendo erros e aprendendo até mesmo como carregar uma arma, a identificação com o espectador médio é imediata. O ator reconhece isso e trata o seu personagem como um homem normal, envolvido em uma circunstância extrema. Neste mesmo sentido, Elizabeth Banks surpreende e muito. Vista primariamente em papéis cômicos, como na série “30 Rock” e filmes como “Pagando Bem, Que Mal Tem”, Banks se mostra emotiva, completamente sem glamour e fragilizada.
A despeito dos dois protagonistas dominarem a cena, diversos rostos conhecidos fazem participações durante a película, como Liam Neeson, Brian Dennehy, Olivia Wilde e o rapper RZA. Destaco o sempre seguro Neeson como o especialista em fugas que ajuda John a montar o seu plano e o veterano Dennehy que, embora apareça em apenas duas cenas, desenvolve com Crowe uma ótima química.
Paradoxalmente, a partir das cenas entre Crowe e Dennehy, começa a surgir o grande problema do longa, que é a crescente artificialidade no roteiro. Se a resolução do conflito entre pai e filho parece forçada, as situações no terceiro ato da fita começam a se resolver de maneiras demasiado corridas. Em seu terço final, a sorte e o acaso começam a colaborar excessivamente para o desenvolvimento da história, atrapalhando uma trama que vinha sendo desenvolvida de modo bastante natural.
John, que era mostrado como um homem que nem conseguia municiar uma arma, passa a acertar tiros impossíveis e dirigir carros com a perícia de um Ayrton Senna. Paul Haggis parece ter se acostumado com as habilidades de James Bond na hora de escrever cenas de ação, prejudicando a fluidez do arco de seu protagonista neste seu novo trabalho. Não falo da capacidade técnica de Haggis em comandar esses momentos mais movimentados do longa, com o cineasta sabendo impor ritmo às cenas de ação. No entanto, o modo como elas acontecem no filme é que não condiz com o que havia sido mostrado até aquele momento.
A conclusão, em especial, possui uma cena de dois policiais na chuva que chega a irritar pela sua imbecilidade, mostrando a fragilidade da capacidade de investigação de tais profissionais mostrados no filme. É como se Haggis começasse a lançar mão de toda e qualquer muleta e clichê para tornar a história menos complexa e os personagens mais assimiláveis para o público, prejudicando seriamente o seu próprio filme, que se mostrava um suspense bastante eficiente até ali. Apesar dessa grave queda de qualidade em seu desfecho, a película ainda vale a pena ser conferida, principalmente pelo ótimo desempenho dos atores em tela.
