Cinema com Rapadura

OPINIÃO   domingo, 12 de dezembro de 2010

A Sétima Alma

Embora não seja um bom filme, este novo trabalho de Wes Craven deve agradar aos fãs dos antigos slasher movies, com o diretor e roteirista brincando com os clichês deste subgênero.

Alguém lembra da época em que, para ter um bom filme de serial killer, você só precisava de um maluco semi-imortal em uma fantasia tosca, um bando de adolescentes sem noção e criatividade na hora de matá-los (com a adição de muito sangue, obviamente falso)? Peitinhos eram opcionais, mas sempre muito bem vindos pela plateia masculina. Atuações canastronas e personagens carismáticos eram sempre acessórios muito bem vistos.

Bom, este “A Sétima Alma” marca quase todos os quesitos supracitados, e seria um exemplar clássico dos slasher movies oitentistas se fosse lançado àquela época. A razão disso é bem simples, o longa é escrito e dirigido por Wes Craven, pai da franquia “A Hora do Pesadelo” e cineasta responsável pela cinessérie “Pânico”.

Neste sentido, não espere grandes efeitos digitais ou a falta de sangue (ou suco de groselha, vai saber) que rege o gênero atualmente. Craven entrega uma fita no melhor estilo da velha guarda, embora seus personagens não sejam lá muito originais nem memoráveis.

A trama se passa em uma cidadezinha do interior estadunidense chamada Riverton. O lugar está sendo assolado por um serial killer conhecido como Estripador, na verdade um homem que está sofrendo de transtorno de múltiplas personalidades. Após matar sua mulher grávida e quase matar a própria filha, o criminoso é detido pela polícia e, aparentemente, morre. Neste mesmo dia, nasceram sete crianças, ligadas por esta data trágica.

Dezesseis anos depois, um dos jovens, Bug (Max Thieriot), enquanto tenta sobreviver ao colegial, passa a sofrer diversas mudanças de personalidade. Com o assassino aparentemente de volta, Bug tem de correr contra o tempo para descobrir se ele será a próxima vítima ou se ele mesmo vem matando seus companheiros.

O filme não se leva a sério, principal característica das obras de terror de Craven. Os personagens são bem formuláicos e suas mortes mais causam risadas do que medo de tão exageradas que são, sempre acompanhadas por litros e mais litros de sangue. A película deve divertir os fãs mais sádicos deste tipo de cinema, embora Craven, infelizmente, não tenha pesado um pouco mais a mão no gore.

O grande problema do longa é o seu ritmo irregular. Após começar à mil por hora com a introdução do Estripador e sua aparente recusa em morrer, temos a apresentação do cotidiano dos sete adolescentes, encaixando-os em vários estereótipos dos teens norte-americanos, no trecho mais monótono e desinteressante da projeção, engrenando novamente apenas a partir da cena da piscina e não desacelerando até o seu final.

O elenco é bastante canastrão, apostando sempre no overacting. Neste sentido, o protagonista Max Thieriot leva a coroa, até por retratar as várias personalidades de Bug que surgem rapidamente durante o longa. O exagero mostrado na caracterização feita pelo ator chega a ser hilário, algo que Craven não nega.

A trilha sonora de Marco Beltrami é bem genérica, ficando bem aquém do que o compositor pode fazer (vide seu trabalho em “Os Indomáveis”). A fotografia do longa utiliza uma paleta bem escura, principalmente em seu terço final. Isto foi um entrave gigantesco para a fita, pois ela foi lançada em 3D nos Estados Unidos e a conversão para tal formato deve ter tornado certos trechos da película em telas quase que totalmente pretas, pois há um escurecimento da imagem por conta da conversão.

Fita relativamente curta, com apenas 107 minutos, “A Sétima Alma” mostra que Craven ainda sabe lidar com o gênero do terror adolescente e nele se sente à vontade, com o cineasta até brincando um pouco com as regras mostradas em “Pânico”. Passando longe de ser um bom filme, este é um passatempo descartável razoável e deve ter mantido seu diretor em forma para comandar o próximo ataque cinematográfico de Ghost Face, a acontecer no próximo ano em “Pânico 4”. Serve para matar (sem trocadilho) saudades de um tempo mais “inocente” dos filmes de terror, mas se você nasceu de 1990 para frente, passe longe.

Thiago Siqueira
@thiago_SDF

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