Carey Mulligan é o destaque desta interessante, porém irregular obra.
Em um determinado momento da adolescência, você passa a querer questionar tudo o que acontece ao redor, todas as decisões dos seus pais. É como se existisse uma necessidade de querer provar uma certa independência que ainda não chegou, mas que está próxima. Por outro lado, é um momento de se conhecer melhor, de começar a querer frequentar círculos sociais diferentes, lugares mais badalados (ou não). Mesmo com exceções, é nesta fase da vida que todo ser humano começa a definir a sua personalidade para o que lhe aguarda mais na frente.
Entre uma decisão e outra, são elas que acabam moldando a relação de harmonia que se constrói consigo mesmo. Por todas estas inquietações, “Educação” surge como um filme que procura narrá-las, mas esbarra na irregularidade, nos defeitos do roteiro que perde o seu fôlego com o passar do tempo e no limite de uma família que é pouco explorada.
Jenny (Carey Mulligan) é uma garota de 17 anos que mora em uma Inglaterra dos anos 60 ainda compenetrada em viver crises que os ingleses tinham com outras nações naquele momento, mas que não são dados importantes para o filme, que não está preocupado em exatamente mostrar o momento histórico como argumento para a história que seria contada. Decisão acertada, diga-se de passagem. O longa se estende aos bailes, aos leilões e à burguesia que se formava na época. Com a ajuda de David (Peter Sarsgaard), Jenny começa a fazer parte desse mundo.
Formada em uma família de um pai conservador (Alfred Molina) e uma mãe (Cara Seymour) que apenas aceitava os desejos do marido, Jenny estava precisando de alguma inquietação no auge dos seus 17 anos, tendo por intuito sair desse objetivo definido por todos de estudar e chegar até Oxford. Com tantos planos feitos, ela precisa se aventurar, e acabou encontrando isso em David, um rapaz de 30 e poucos anos, que se mantém de maneira misteriosa até minutos finais da projeção.
Entretanto, o longa menospreza certas situações que acabam se tornando constrangedoras para quem assiste. Quando Jenny resolveu se entregar ao amor de David, ela havia decidido que somente perderia a virgindade quando completasse 18 anos. Em uma determinada cena, David entende completamente isso, mas, em seguida, ele pede para que ela possa tirar a roupa apenas para apreciar aquilo que ele não poderia ter naquela noite.
Não chega a ser exatamente um sentimento de constrangimento, mas comprova que o filme tinha em David a prova de um mau-caráter que ainda poderia aprontar alguma coisa. E isso nos leva a uma outra questão: até que ponto você estaria pronto(a) para largar tudo (escola, amigos e o seu futuro) para viver uma paixão com uma pessoa mais velha? Na abordagem que “Educação” faz em relação à David, é completamente errado pensar que ele havia passado esta confiança para a família de Jenny.
E isso leva a um outro erro do filme: enquanto Alfred Molina dá um show interpretando um pai que desconhecia o que estava acontecendo no mundo, o roteiro subestima a capacidade de quem assiste ao mostrar a facilidade com a qual ele cede aos pedidos de David. Ora, com uma filha de 17 anos e zelando pelo seu futuro, um pai conservador como ele não deixaria, por exemplo, que ela viajasse e passasse um fim de semana em Paris enquanto as provas aconteciam na escola onde ela estudava. E são por erros assim que o roteiro de Nick Hornby, baseado nas memórias de Lynn Barber, acaba pecando e não conseguindo encontrar um ponto de impacto para o seu filme. Ele acha até uma reviravolta, quando o relacionamento de David e Jenny muda e ela, querendo se equilibrar novamente, começar a retomar aquele caminho que havia sido preparado quando ela decidiu se aventurar e conhecer a alta burguesia britânica, cansada de ficar andando nos mesmos círculos sociais de antes.
Se por este lado o filme erra, é impressionante como Hornby consegue humanizar a personagem de Carey Mulligan. Responsável por criar uma Jenny tão inocente e perturbada com as experiências que ela desejava tanto viver, este é um filme que se prende na sua atuação e nos bons momentos dramáticos de Alfred Molina (que até exagera determinado momento, mas consegue ser o pai preocupado e conservador que lhe havia sido concebido). Mulligan é responsável pela complexidade criada em torno de Jenny, principalmente em colocar o seu espectador pare entender as decisões que ela toma.
A direção de Lone Scherfig é convencional, ou seja, não muda e nem acrescenta nada à narrativa, mas mostra uma certa harmonia com Mulligan, uma vez que os quadros criados se destacam pela leveza com que ela consegue atuar nas cenas. A estética do filme, aliás, é baseada em cores cinzentas que são bem características da Inglaterra.
“Educação” consegue reservar bons momentos ao seu expectador e a dialogar com ele sobre as experiências que cada um pode ter, seja na escola formal ou na escola da vida. Jenny, por exemplo, achou um atalho para conseguir viver a vida adulta que ela queria, longe das pressões do seu pai. No entanto, a partir do momento em que ela viveu também uma desilusão, Jenny começou a aprender que a vida também é feita de momentos felizes e outros tristes.
É com esta complexidade (já citada anteriormente) que está o maior mérito de Mulligan. Entretanto, o longa não coloca Jenny como coitadinha nesta história toda. Pelo contrário, ambos (ela e David) usaram um ao outro na medida em que foram se conhecendo: ela queria conhecer a alta classe e viver a vida adulta que ele tinha por oferecer, enquanto ele se sentia sozinho e precisa da companhia de uma pessoa inteligente que ela tinha por oferecer.
Entre descobertas de possibilidades que se formam na adolescência, além das complexidades e inquietações que também começam nesta fase da vida, “Educação” é divertido e que consegue se apresentar como uma obra capaz de provocar questionamentos. Carey Mulligan nos conduz a um personagem humano, que deseja ter experiência, que possui medos, anseios, questionamentos, inquietações e que, principalmente, busca aventuras em prol do seu conhecimento e das possibilidades que isso pode proporcionar.
Por esta complexidade tão bem retratada no filme, é que o espectador também pode ver o seu sofrimento, a sua volta por cima e o seu sonho se concretizando. Para esta comédia romântica, não existe exatamente um final feliz ou aquele que pode agradar o seu público. Existe, sim, um desfecho de uma jovem mulher que tomou decisões precipitadas, mas que, ao invés de se arrepender por elas, buscou a melhor maneira para superá-las: se reerguendo.
