Contando com atuações impressionantes e uma história sofrida, porém encantadora, o diretor Lee Daniels realiza um filme que continuará a conquistar plateias pelo mundo todo.
“Preciosa” iniciou sua trajetória de sucesso de crítica e público ainda em janeiro de 2009 quando conquistou três prêmios no Festival de Cinema de Sundance, o de melhor filme (pelo júri e pelo público) e um prêmio especial, concedido à atriz Mo’Nique. Desde então, a produção vem acumulando mais condecorações e indicações por todo o solo americano, não deixando de ser lembrado também nas premiações de fim de ano, em especial o Globo de Ouro.
Quando um filme independente como esse, com orçamento mínimo e elenco desconhecido, alcança tantas glórias, as expectativas sobre ele aumentam consideravelmente. ‘”Preciosa” teria realmente algo de especial ou é apenas mais um longa superestimado vindo diretamente dos Estados Unidos?”, questionam os cinéfilos, acostumados com os contínuos erros da crítica especializada americana.
Partindo de sua sinopse e seu trailer, a pergunta é absolutamente entendível. Um dramalhão daqueles de forçar lágrimas aos montes no espectador é a primeira impressão que temos sobre o longa. No entanto, “Preciosa” não é mais um desses filmes. Encontrando graça e magia em meio a tanta tristeza, o diretor Lee Daniels traz para o público uma fábula realista, que emociona sem ser piegas e faz rir quando menos esperamos.
A trama se passa em 1987, no bairro pobre de Harlem, em Nova York. Aos 16 anos de idade, Clarice Preciosa Jones (Gabourey Sidibe), uma garota analfabeta, negra e obesa, está esperando seu segundo filho, resultado dos constantes abusos do próprio pai. Da mãe, Mary (Mo’Nique), recebe apenas desaforos, reclamações e ordens. Apenas as duas vivem em um pequeno apartamento, sustentado unicamente pelo dinheiro da assistência social, recebido graças aos infortúnios na trajetória da moça.
Suspensa da escola devido a sua gravidez, Preciosa procura ajuda em uma instituição alternativa, onde poderá finalmente aprender a ler e escrever. Com o apoio da professora Ms. Rain (Paula Patton), ela buscará forças para sobreviver às desgraças que insistem em aparecer diariamente em sua vida. Livrar-se das garras da mãe exploradora e ter de volta a primeira filha são apenas alguns dos desejos dessa garota, que agora tentará decidir seu próprio futuro.
O diferencial de “Preciosa” reside principalmente no tom inserido pelo diretor. Lee Daniels, que até então havia apenas comandado uma produção desconhecida, consegue fugir do melodrama como poucos e faz desta história um conto verdadeiro em seus sentimentos. O filme pode até não ser original, mas é reescrevendo o comum que ele triunfa, conquistando plateias de todo o mundo, conhecedores da condição universal que retrata.
Preciosa não é dessas garotas que lamentam a toda a hora a desgraça de vida que possuem. Pelo contrário, ela sonha. Sonha ser uma artista famosa desfilando nos tapetes vermelhos de grandes premiéres de cinema, sendo fotografada pelas maiores revistas do ramo. Deseja ter um namorado bonito, ser rica e, acima de tudo, feliz. Ou seja, ela pensa como toda menina de sua idade.
O problema é que a realidade cruel já bateu a sua porta. Mãe de uma menina com Síndrome de Down (a quem a mãe chama debochadamente de Mongo), que é criada pela bisavó, Preciosa, no entanto, teme encarar de frente as maldades de sua genitora e os abusos de seu pai. Permanece calada, até que a convivência com Ms. Rain e a chegada do novo filho a fazem reagir.
Seu mundo é desenvolvido por Daniels de uma maneira bastante particular. Cenas imaginárias, que dialogam com o mágico, são mescladas com as reais, amenizando a dureza do dia-a-dia. Em uma delas, Preciosa se arruma em frente ao espelho, mas o que vemos é reflexo de uma linda e magra garota loira. A trilha sonora acata a essa ideia, elevando o humor dessa história, assim como a fotografia, com cores sempre estouradas.
O roteiro é do também inexperiente Geoffrey Fletcher, que se baseou no livro “Push”, da escritora Sapphire, antiga professora de Harlem. Por meio de diálogos fortes, offs reveladores e tiradas cômicas eficientes, o enredo mostra sua força, evitando lições de moral óbvias, mas inserindo gradualmente frases que relembram a importância social desta trama. O inevitável choro de Preciosa, como resultado de todo o sofrimento que passou, é deixado para o desfecho, comprovando sua leve carga dramática.
Outro ponto alto do filme são suas atuações. Composto basicamente por mulheres, já que a maioria dos homens desta história são ruins, o elenco mistura performances discretas e uma bastante arrasadora. Gabourey Sidibe, em sua estreia nas telonas, surge graciosa. Sem exageros e com um timing cômico excelente, a moça sustenta o longa praticamente sozinha. Impressiona a facilidade que ela tem em demonstrar sentimentos com poucas expressões faciais. Por mais que muitos apontem Mo’Nique como a grande atriz da fita, é Sidibe quem faz o trabalho mais árduo.
Por falar nela, Mo’Nique entrega uma das atuações mais marcantes do ano. Interpretando a vilã da história, a antiga comediante de stand-up provoca a revolta do público com seus atos questionáveis e o ciúme inexplicável que tem da filha. Entre objetos lançados contra Preciosa e frases de desprezo, Mo’Nique foge do caricatural com sua voz mansa, mas imponente. Ela protagoniza os melhores diálogos do filme e, por isso mesmo, está bastante cotada para vencer o Oscar de atriz coadjuvante.
Outra atriz que agrada é Paula Patton, como a bondosa e dedicada professora de uma escola especial. As atrizes que interpretam suas alunas também estão dignas de uma bela nota, com um naturalismo que impressiona. Quem chama a atenção ainda é Mariah Carey, na primeira ótima performance da, agora sim, atriz-cantora. Grande expoente do glamour de Hollywood, ela aqui dispensa maquiagem em prol do pequeno, mas eficiente papel de assistente social. Como enfermeiro do hospital onde Preciosa dá a luz, quem aparece bem também é o cantor Lenny Kravitz, quase irreconhecível.
Fugindo de lágrimas fáceis e apostando no realismo fantástico, “Preciosa” atinge uma linguagem universal que agradará a todos os públicos. Muito bem contado, dirigido e atuado, o filme é uma lição de vida para todos aqueles que acham que já foram vencidos pelas agruras do destino. Este é mais um belo exemplar produzido pelo cinema independente americano.
