Cinema com Rapadura

OPINIÃO   domingo, 06 de dezembro de 2009

É Proibido Fumar

Um tanto sem foco, "É Proibido Fumar" acaba sendo um esforço mediano, mas que conta com uma ótima atuação de sua atriz pincipal.

eproibidofumar-posterOlhando rapidamente pela filmografia de Anna Muylaert, diretora e roteirista deste “É Proibido Fumar”, temos vários trabalhos que lidam com o cotidiano de maneira mais subjetiva, como a série “O Mundo da Lua” o excelente “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias” ou o bom “Durval Discos”, o qual ela mesma dirigiu. Este seu novo longa se encaixa perfeitamente neste padrão.

O longa acompanha a protagonista Baby (Glória Pires), uma professora de violão solitária, que tem no cigarro sua principal companhia. Distante de suas irmãs, uma delas porque constituiu família e a outra por ser workaholic, Baby procura algo para preencher o vazio de sua vida. Quando o músico Max (Paulo Miklos) se muda para o apartamento vizinho, logo ela se interessa por ele. Com esperanças deste caso se tornar mais sério, ela cede ao apelo dele em deixar de fumar. No entanto, as coisas ficarão complicadas para o casal quando a ex de Max volta à vida deste.

Com menos de 90 minutos de duração, a fita por vezes solta a impressão de falta de foco narrativo. Inicialmente, o filme demora para engrenar, contando com uma cena altamente inútil logo no começo entre Lourenço Mutarelli e a cantora Pitty, que em nada contribui para a trama principal, parecendo deslocada e gratuita. Por mais interessante que Mutarelli seja e que ver a roqueira baiana na tela cause algum impacto, no contexto geral do roteiro, a cena simplesmente não possui serventia alguma.

Após este pequeno “soluço”, o filme volta a focar na vida pessoal de Baby. Durante o terceiro ato, um incidente bizarro acaba levando o longa para uma direção totalmente despropositada, que pouco tem a ver com os dramas de cotidiano que haviam sido mostrados até aquele momento, fazendo com que o público se sinta um tanto quanto perdido em relação às intenções da cineasta. Até mesmo a metáfora do cigarro e da solidão, apresentada no começo da projeção, é esquecida.

De qualquer modo, Glória Pires segura muito bem o filme. Já havia elogiado o trabalho da atriz quando falei do mediano “Se Eu Fosse Você 2”. Aqui, tendo uma personagem mais tridimensional e complexa para viver, Pires dá um show, mostrando que não é apenas mais um nome do elenco da Rede Globo.

Vivendo uma mulher com um medo inerente de mudanças e completamente sem glamour, ela se entrega a Baby de maneira exemplar. Pires cria tiques e maneirismos para aquela figura, que logo se torna uma pessoa de verdade para a audiência. Sua química com Miklos é ótima, gerando bons momentos como a primeira ida dela ao apartamento do músico, que desencadeia uma mudança no modo daquela mulher de ver a vida, embora a nova atitude desta seja extremamente frágil.

A melhor cena da atriz é um diálogo extremamente revelador entre Baby e sua irmã mais velha, Pop, encarnada por uma Marisa Orth que aparece somente nesta sequência. Sem grandes exageros, as duas atrizes mostram muito bem a dinâmica entre suas personagens. O personagem de Paulo Miklos, por sua vez, cai um pouco no estereótipo do músico meio hippie, chamando mais atenção pelo carisma do cantor/ator do que por méritos do roteiro.

Um destaque altamente positivo do filme é o design de produção e a direção de arte, que conseguem recriar muito bem a realidade da classe média brasileira, seja nas casas da maioria dos personagens ou nos locais onde convivem. Ainda há um contraste muito interessante entre as realidades de Baby e Pop, muito representado pelo local de trabalho desta última na supracitada cena. O visual da fita ainda é ajudado por uma ótima fotografia, que só tropeça ao tentar forçar filtros que lembram câmeras de segurança, com tais tomadas sempre sendo falsas demais.

Embora conte com uma ótima atuação de Glória Pires, “É Proibido Fumar” acaba se perdendo muito pela falta de uma trama mais coesa e mais sarcástica. Por mais atraente que alguns gêneros cinematográficos possam ser, a história de Baby seria muito melhor se fosse calcada em dramas corriqueiros, sendo lamentável a direção tomada pela história em seu ato final.

Thiago Siqueira
@thiago_SDF

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