Críticas   segunda-feira, 22 de Janeiro de 2018

The Post – A Guerra Secreta (2017): reunião de três gigantes

Meryl Streep dá (mais) um show de interpretação vivendo uma personagem fascinante e tendo uma química fenomenal com Tom Hanks. Responsável pela direção, Steven Spielberg faz um trabalho refinado, entregando uma produção que vai além do óbvio.

Se fizesse o básico, “The Post – A Guerra Secreta” seria um filme qualquer. Depois de “Spotlight – Segredos Revelados” e em um momento conturbado para a imprensa nos EUA, era necessário fazer mais.

O argumento do longa reside na árdua empreitada do jornal The Washington Post para publicar documentos sigilosos conhecidos como Pentagon Papers, referentes à Guerra do Vietnã. De um lado, o jornal, personificado pela sua dona, Kay Graham (Meryl Streep, de “Florence: Quem é Essa Mulher?”), aliada ao seu editor-chefe, Ben Bradlee (Tom Hanks, de “O Círculo); de outro, o governo dos EUA, com o Presidente Nixon invocando a Lei de Espionagem para proteger a si mesmo, seu governo e de seus antecessores.

O longa segue a esteira de diversos outros que também retratam o admirável e perigoso jornalismo investigativo – atividade que envolve uma miríade de obstáculos (pesquisa, dúvidas, riscos, pressão, óbices jurídicos e luta contra o tempo). Bradlee e seus colegas representam os bons jornalistas, aqueles que sabem que a liberdade de imprensa é um bem maior. De maneira superficial, mas satisfatória, o roteiro lembra o outro lado da moeda: o dever que a imprensa tem de informar a população, que, por sua vez, tem o direito de ser informada. Ainda assim, isso tudo é básico e óbvio demais para um filme que tem Meryl Streep e Tom Hanks no elenco (com um bom elenco de apoio).

Ninguém melhor que Streep – cujo currículo fala por si só – para interpretar Kay, personagem fascinante que faz malabarismo entre a vida de socialite, cultivar as amizades de seu falecido marido, a vida familiar e, claro, os problemas do jornal. Embora seja apresentada de maneira grandiosa ao tomar uma decisão corajosa, o script deixa expresso que ela é persona non grata na posição que ocupa na empresa. Isso, contudo, não a fragiliza: ela tem sua vulnerabilidade apenas por ser muito humana (o suficiente para derrubar uma cadeira, por ansiedade, em um restaurante). Entendendo a proposta realista, Streep optou por uma interpretação minimalista – e dá (mais) um show –, investindo na linguagem corporal, demonstrando insegurança, já que Kay não está em sua zona de conforto. Assim, em diversos momentos ela olha para baixo, suas mãos tremem e seu corpo enrijece – salvo nas cenas de exposição da sua vida social, quando sua postura relaxa. Tom Hanks é também um ator muito gabaritado, todavia, a personagem é previsível e tem menos camadas. Tudo fica mais interessante quando os dois estão juntos: Ben e Kay têm um relacionamento claramente amigável, porém, quando a conversa entre eles fica mais ácida, a sutileza das atuações justifica suas reputações. Sozinho, Hanks não vai mal. Juntos, a química é fenomenal.

O terceiro grande nome da produção é o do aclamado diretor Steven Spielberg (“O Bom Gigante Amigo”). A crítica à censura da imprensa está escancarada no roteiro (é seu mote), dispensando lapidação da direção. Assim, sua primeira preocupação é engrandecer Kay é suavemente expor o machismo da época, razão pela qual, por exemplo, em uma reunião de executivos do jornal, a opção de enquadramento é em plano médio, para enfatizar que Kay é a única mulher – contudo, em uma posição de razoável destaque. Em momentos fundamentais, mesmo que ela esteja cercada de homens, o diretor molda a mise en scène de alguma forma que permita que ela seja simbolicamente exemplo para outras mulheres, também visíveis. Trata-se de uma inteligente mensagem subliminar: o espectador fixa o olho em Kay, todavia, perifericamente, na mesma cena (ou até no mesmo plano), aparecem outras mulheres mirando-a com ar de admiração.

Como se não bastasse, Spielberg apresenta uma direção refinada, com insights admiráveis – como na brilhante cena em que o material é coletado, criando a atmosfera de clandestinidade através do uso da câmera seguindo-o, da música de tensão, da precária iluminação e da climatização notívaga – e valorizando a direção de arte na representação da época (em especial na elegância do figurino de Kay). É verdade que a câmera não dispensa obviedades (como o contraplongée em uma das cenas finais), mas valoriza movimentações, em especial mediante o uso de enquadramentos two-shot, evitando o campo-contracampo na montagem (como na cena do restaurante, com uma inquietude engenhosa).

Com três gigantes de Hollywood reunidos, “The Post – A Guerra Secreta” tinha tudo para dar certo, como de fato dá. Seu grande trunfo é criar um clima de tensão sobre os detalhes dos fatos, evitando a monotonia, caminho fácil para um plot de conhecimento público. Seu grande defeito é o recorte histórico-geográfico, ao narrar um episódio da história dos EUA que, no fundo, não diz tanto a países alheios a isso. Os valores que aborda, porém, são universais.

Diogo Rodrigues Manassés
@diogo_rm

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The Post – A Guerra Secreta (2017)

The Post - Steven Spielberg

Ben Bradlee (Tom Hanks) e Kat Graham (Meryl Streep), editores do The Washington Post, recebem um enorme estudo detalhado sobre o controverso papel dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã e enfrentam de tudo para publicar os bombásticos documentos.

Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer

Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Alison Brie, Carrie Coon, Jesse Plemons, David Cross, Zach Woods, Pat Healy, John Rue, Richard Holmes, Philip Casnoff, Jessie Mueller, Stark Sands, Brent Langdon

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