Críticas   terça-feira, 28 de novembro de 2017

Lola Pater (2017): profundo apenas na aparência

Apesar do argumento espinhoso, o roteiro do filme é bastante raso. Porém, é salutar a visibilidade que dá a uma população marginalizada.

A Garota Dinamarquesa” foi, provavelmente, o filme (recente) que, do ponto de vista do grande público, mais deu visibilidade às pessoas transexuais. A ele seguiram-se outros esparsos, com raríssimos destaques, como “Tangerine”. Dificilmente “Lola Pater” chegará próximo a um nível tão expressivo, todavia, reforça essa ideia da necessária visibilidade.

O argumento da película é espinhoso: após a morte de sua mãe, Zino (Tewfik Jallab, “A Marcha”), aos vinte e sete anos, decide procurar seu pai, Farid, que há vinte e cinco abandonou a família e voltou para a sua terra natal, a Argélia. Porém, ele descobre que o pai nunca voltou para a Argélia e que agora ele é Lola (Fanny Ardant, “Os Belos Dias”), uma mulher transexual.

É essa a parte mais interessante do longa, um claro conflito de interesses legítimos, que, salvo no morno clímax, não consegue ser problematizado de maneira satisfatória – no máximo, é abordado de maneira simplista, já que permeia a obra sem ser debatido e verticalizado. De um lado, Lola tem sua razão ao argumentar que é um sofrimento “viver em um corpo que não é seu”, o que justificou seus atos. De outro, uma reação rancorosa de Zino também é compreensível quando ele questiona Lola, quanto à suas faltas como pai.

Trata-se, pois, do fio condutor narrativo: provavelmente mais relevante que o afeto de Lola por Zino e sua vontade de retomar os laços familiares, bem como mais relevante que a dificuldade do filho em aceitar uma mulher transexual como nova figura paterna, foi a origem disso tudo e seu reflexo óbvio (a criação de Zino sem o pai). Uma questão pungente, renegada a diálogos lacônicos e, a rigor, rasos. Aliás, o roteiro como um todo é bastante superficial, provavelmente acreditando que a complexidade da questão fala por si só. Não fosse assim, teria adentrado no viés religioso da matéria – ou ao menos mencionado. Os flashes cômicos (como a cena do bar, em que Lola bebe um Martini enquanto toca piano), por outro lado, dão diversidade à trama.

Embora existam coadjuvantes participativos, os holofotes ficam com Zino e, principalmente, Lola. O rapaz é quieto, de poucas palavras e muitos cigarros, quase sempre acompanhado de seu capacete de motocicleta, representando sua vida agitada e desprendida. A interpretação de Jallab é pouco expressiva, mas também ofuscada pela costumeiramente maravilhosa Fanny Ardant, atriz já consolidada e que encanta como uma transexual que cai de seu pedestal. Antes da chegada do filho, Lola estava tranquila, cheia de si, dando suas aulas de dança oriental e vivendo a vida que tinha escolhido. Zino abalou a tranquilidade da protagonista, que já não podia mais viver da mesma forma. Não obstante, sua personalidade ainda era a mesma, o que se reflete em seu figurino extravagante e de cores fortes.

É imprescindível mencionar que, embora Ardant seja uma ótima atriz, certamente o ideal era a escalação de uma artista cisgênero para o papel. Se existe a reclamação de que a indústria não abre as portas para transexuais, essa seria a oportunidade perfeita.

A direção ficou a cargo de Nadir Moknèche (“Adeus, Marrocos”), em um trabalho aquém do desejável. As cenas paradigmáticas – o primeiro encontro e a da revelação – são decepcionantes – no primeiro caso, o magnetismo é decorrente do trabalho dos atores; no segundo, a trilha sonora toca com tanto atraso que acaba sendo inútil – e a mise en scène, no geral, é mal feita. Há um grave problema de montagem: existe uma cena inútil (uma alucinação que vira um flashback), uma cena desconexa (quando Zino conta para uma vizinha que Lola, na verdade, é seu pai, em um momento que não faz muito sentido) e uma elipse abrupta ao final (um fade mais longo resolveria). Porém, a edição de som é impecável, tendo sido valorizados os sons intradiegéticos, tornando o longa mais realista (como na cena em que Zino e a namorada comem comida chinesa, podendo-se ouvir sua mastigação, enquanto Lola toma whisky, também audível).

À primeira vista, “Lola Pater” chama a atenção positivamente: a sinopse é interessante e o próprio título é um trocadilho inteligente – Lola é diminutivo inglês de Dolores, que, em espanhol, significa dores; Pater significa pai em latim. Como ocorre com o roteiro, é uma aparência falsa de profundidade. O que fica é a visibilidade de uma população marginalizada, o que é sempre salutar.

Diogo Rodrigues Manassés
@diogo_rm

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Saiba mais sobre

Lola Pater (2017)

Lola Pater - Nadir Moknèche

Roteiro: Nadir Moknèche

Elenco: Fanny Ardant, Tewfik Jallab, Nadia Kaci, Lucie Debay, Lubna Azabal, Véronique Dumont, Raphaëlle Lubansu, Bruno Sanches, Baptiste Moulart, Lawrence Valin

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  • Rogério

    Tem um erro de português na seguinte frase: “A interpretação de Jallab e pouco expressiva”, acredito que deveria ser “é pouco expressiva”, não?

    • Diogo Rodrigues M

      Na verdade, não é “erro de português”, que seria desconhecimento de vernáculo, o que não é o caso ali. Foi apenas erro de digitação, já retificado 🙂

      • Rogerio

        Caro Diogo, não quis ser ofensivo, peço perdão caso tenha soado desta forma. Apenas usei do português coloquial quando mencionei “erro de português”. Em todo caso, que bom que me fiz útil. Att.

        • Diogo Rodrigues M

          Não foi ofensivo 😉