Críticas   segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Mãe! (2017): a meta metáfora de Darren Aronofsky

Em um longa totalmente apoiado em suas alegorias e metáforas, o diretor pretende recontar, à sua maneira, a história mais conhecida do mundo.

É muito difícil falar sobre “Mãe!” sem detalhar aspectos de sua trama e sem revelar os tão famosos “spoilers”. Isso porque o filme de Darren Aronofsky (“Fonte da Vida”, “Cisne Negro”) é totalmente calcado em representações, não fazendo muito sentido aquilo que se vê ou que se ouve, e sim o que aquelas coisas realmente significam. Um som de dor pode significar um terremoto por exemplo, e as coisas permanecem assim pelos cento e vinte e dois minutos de duração do filme.

Uma jovem mulher (Jennifer Lawrence, de “Passageiros”) reconstrói aos poucos a casa de seu companheiro poeta (Javier Bardem, de “Piratas do Caribe – A Vingança de Salazar”). A rotina do casal, que aparentemente vive isolado na moradia, é abruptamente interrompida com a chegada de um homem (Ed Harris, de “Expresso do Amanhã”) que é acolhido pelo poeta em seu lar. A partir daí, o local torna-se o cenário para toda uma legião de acontecimentos, personagens e loucuras que são terrivelmente testemunhados e vividos pela garota desnorteada.

A trama, descrita no parágrafo acima, não faz sentido algum e nem é mesmo para fazer. É apenas uma pantomima para o que o diretor e roteirista Aronofsky quer contar. Sua pretensão fica realmente à mostra no grande acontecimento que separa o primeiro do segundo ato. É a partir dali que você entende – se se deixar levar 100% pelas metáforas – onde tudo aquilo quer chegar e é aí que as coisas começam a andar em um trilho perigoso, um caminho em que você pode deixar de acompanhar o que está vendo, para brincar de adivinhação com o que está por vir. Tudo passa a ser muito pontual e evidente demais, e o que, até aquele momento, parecia dar um nó em nossa percepção, passa a ser telegrafado em demasia com o que a “segunda” história quer e precisa contar, não nos deixando qualquer espaço para interpretação ou mesmo imaginação.

Tecnicamente o longa é impecável. Visto totalmente pela perspectiva da personagem de Lawrence, a câmera de ombro à persegue implacavelmente pelas costas, só mudando o seu ponto de vista quando quer mostrar, bem de perto, as reações dela ao que está presenciando. A casa em si, que representa todo o mundo dos personagens, é um protagonista vivo efetivamente. Tem personalidade, acolhe e repele com o mesmo encanto, transformando-se durante a grande jornada. A sintonia da câmera (fotografia), com a movimentação da atriz e o frenesi dos outros personagens pela residência vivente é o melhor aspecto do filme. Ela emula a ação como uma grande peça de teatro, vista por dentro, que funciona tal qual um relógio atômico. O som, mesmo com a ausência total de trilha sonora, é um ponto importantíssimo da composição. Ele cronometra, assusta, pontua e enoja no mesmo tom.

Lawrence não é uma atriz iniciante, então nem chega a ser um surpresa a sua versatilidade na tela. Ora meiga e assustada, ora raivosa e protetora, a protagonista rouba o filme – que já é seu de fato! – e nos ganha imediatamente, mesmo que nunca saibamos quem ela é de verdade. Seus arroubos de horror com a selvageria, tão habitual a nós como humanos, tornam-se imediatamente os NOSSOS arroubos de horror. O personagem de Bardem e todos os outros da trama são apenas instrumentos para algo maior e para o desenvolvimento da protagonista e da história. Suas atuações, na verdade, pouco importam. São teatrais porque têm de ser e os atores se entregam a isso com louvor – você nunca viu a atriz Kristen Wiig (“Caça Fantasmas“) no papel que ela interpreta aqui!

Peço desculpas pela economia do texto, pois realmente é muito complicado falar sobre “Mãe!” sem estragar a experiência sensorial que ele pretende causar no expectador. É um filme para se visto e discutido imediatamente na porta do cinema. Um longa que causa um efeito raro no cinema hollywoodiano atual, no qual o seu cerne permanece conosco durante dias, gostando dele ou não. Para mim, creio que Aronofsky calcou demais a sua saraivada de alegorias no que ele realmente queria contar. Tivesse um pouquinho mais de espaço para que nós mesmos pudéssemos montar o quebra-cabeças do nosso jeito, teria sido uma experiência infinitamente mais satisfatória. Pretensiosa ou não, esta obra permanecerá nas cabeças e nas línguas dos cinéfilos por muito e muito tempo.

Rogério Montanare
@rmontanare

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Mãe! (2017)

mother! - Darren Aronofsky

Um casal vive em um imenso casarão no campo. Enquanto a jovem esposa (Jennifer Lawrence) passa os dias restaurando o lugar, afetado por um incêndio no passado, o marido mais velho (Javier Bardem) tenta desesperadamente recuperar a inspiração para voltar a escrever os poemas que o tornaram famoso. Os dias pacíficos se transformam com a chegada de uma série de visitantes que se impõem à rotina do casal e escondem suas verdadeiras intenções.

Roteiro: Darren Aronofsky

Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson, Brian Gleeson, Kristen Wiig, Jovan Adepo, Stephen McHattie, Cristina Rosato, Patricia Summersett, Xiao Sun, Marcia Jean Kurtz, Hamza Haq, Gregg Bello, Stanley B. Herman, Sabrina Campilii, Amanda Chiu, Eric Davis, Raphael Grosz-Harvey

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