Críticas   quarta-feira, 02 de agosto de 2017

Os Meninos que Enganavam Nazistas (2017): produção modesta

Comovente em diversos momentos e com um enredo fascinante, o filme é uma belíssima jornada de amadurecimento. Seu grande defeito é que há muito para ser contado em pouco tempo, o que reduz o impacto de cenas que teriam bastante potencial.

É muito difícil adaptar para o cinema uma obra literária. O livro tem bastante espaço para aprofundar a narrativa e as personagens, enquanto o filme precisa se preocupar com inúmeros outros aspectos. Não causa espanto que poucos consigam o sucesso da trilogia “O Senhor dos Anéis”. Christian Duguay (de “A Ilha – Prisão sem Grades”) tentou transformar o livro “Os Meninos que Enganavam Nazistas” em filme (com o mesmo nome). O enredo é fascinante, o longa, nem tanto.

Trata-se da história real de dois irmãos que, ainda crianças, se separam da sua família judia durante a ocupação nazista em Paris para que pudessem se reunir novamente em um local mais seguro. O menor (de dez anos), Joseph (“Jo”) é interpretado com magnetismo pelo estreante Dorian Le Clech, um ator mirim bastante promissor. Sendo ele o protagonista e sendo tudo enxergado por seus olhos (incluindo narração voice over), imprescindível um intérprete que conseguisse chamar os holofotes para si e encantar o público. Le Clech expressa a pureza da idade de maneira orgânica, aliando seu carisma ao fascínio inafastável pelo que a personagem vive. O papel do irmão maior (de doze anos), Maurice, coube a Batyste Fleurial (de “Pourquoi Personne me Croit?”), não tão bem quanto o colega, mas acima da média. No elenco está ainda Patrick Bruel (de “Amor ao Primeiro Filho”) como o pai dos garotos, ótimo quando está em cena, ou seja, menos tempo.

O longa tem dois eixos condutores: de um lado, o afeto entre os dois irmãos e, de outro, a guerra e suas consequências. Jo e Maurice nutrem com pureza ímpar o amor fraterno: brincam e tiram sarro um do outro, mas também se protegem mutuamente no momento mais difícil de suas vidas. São crianças, agem como crianças, desconhecendo algumas expressões adultas (uma delas é rara piada na película) e demonstrando bastante inocência (o menor em especial, é claro) em diversos momentos – Jo, por exemplo, trata um desconhecido com simpatia, ignorando o período hostil. Entretanto, os dois precisam amadurecer rapidamente: é uma necessidade que a guerra trouxe. É justamente a proteção mútua que permite que amadureçam, algo que apenas uma narrativa tão rica poderia contar.

Os garotos são ingênuos, mas firmes em suas atitudes, tanto que se defendem na escola ao sofrer preconceito por serem judeus – é possível identificar uma espécie de bullying já naquele tempo, todavia, motivado pelo antissemitismo. Ideologicamente, o filme sugere que os soldados alemães eram peões do tabuleiro, alienados pelos líderes do movimento nazista, pois entendiam que a culpa da guerra era dos judeus (dessa forma simplista). Diversamente, os franceses que apoiavam o nazismo e eram antissemitas não eram alienados, mas tinham alguma crença própria. Tudo isso em um texto que explora uma miscelânea temática envolvendo liberdade, medo, igualdade, amor de infância, fraternidade e amadurecimento. Em síntese, trata-se de uma belíssima jornada de amadurecimento.

O revés ao desenvolver a narrativa do ponto de vista de Jo é que existem sequências sem muitas explicações, como a do local onde o motorista leva os garotos, surgindo várias dúvidas. Por outro lado, o roteiro compensa isso ao evitar o formato de três atos, o que pode tornar o longa cansativo, mas lhe concede imprevisibilidade, no melhor estilo francês. O que o roteiro não consegue fazer – e é esse o grande defeito do filme – é condensar o livro: é fácil perceber que existe muito para contar em um tempo insuficiente (menos de duas horas), reduzindo o impacto de cenas que teriam imenso potencial. Uma atitude de Jo ao final, nesse sentido, seria muito mais envolvente e convincente se o arco dramático não tivesse sido tão lacônico. Também a cena no salão do pai dos meninos, no início, poderia ser mais tensa se não fosse tão sucinta.

Não que a direção de Duguay não seja exitosa nas cenas de tensão, exemplo está na que os garotos encontram um padre no trem, entretanto, é facilmente perceptível que há muito que ficou de fora, deixando ao espectador um considerável trabalho de sutura. Talvez a solução fosse eliminar cenas de menor utilidade, como a do prólogo. A fotografia acompanha o ânimo do filme, ficando mais clara nos momentos alegres. Aliás, é contagiante a notícia de que Paris fica livre da invasão. Não custa mencionar o óbvio: são vários os momentos comoventes, podendo-se citar a cena do trailer, em que o pai ensina, na força bruta, que os filhos não podem mais dizer que são judeus.

Como produção, “Os Meninos que Enganavam Nazistas” é um filme modesto – prova disso é o plano aberto do trem à noite. Seu enredo é encantador e fica claro que se trata de uma pérola faltando ser melhor trabalhada para tornar-se um clássico. De todo modo, garantidamente fica a vontade de ler o livro após assistir ao filme.

Diogo Rodrigues Manassés
@diogo_rm

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Os Meninos que Enganavam Nazistas (2017)

Un sac de billes - Christian Duguay

Durante um período de ocupação nazista na França, os jovens irmãos judeus Maurice (Batyste Fleurial) e Joseph (Dorian Le Clech) embarcam em uma aventura para escapar dos nazistas. Em meio a invasão e a perseguição, eles se monstram espertos, corajosos e inteligentes em sua escapada, tudo com o objetivo de reunir a família mais uma vez.

Roteiro: Christian Duguay, Benoît Guichard, Alexandra Geismar

Elenco: Dorian Le Clech, Batyste Fleurial, Patrick Bruel, Elsa Zylberstein, Christian Clavier, Bernard Campan, Kev Adams, César Domboy

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  • Ricardo Mendonça

    Só acho demais (e errado) a decisão de fazer um crossover entre este filme, “A menina que roubava livros” e “O garoto do pijama listrado”. Não acho que vai ser um novo Vingadores, só falta chamar a Anne Franke pra ser o Nick Fury deste Universo…