Cinema com Rapadura

OPINIÃO   domingo, 15 de setembro de 2013

Mercedes Sosa, La Voz de Latinoamérica (2013): doc densível e emocionante

Cineasta demonstra devoção ímpar ao contar a vida de uma das maiores artistas da história.

mercedes sosaMercedes Sosa está no panteão dos grandes artistas da história. Seu nome é sinônimo de uma bela voz. Ela foi uma das maiores responsáveis pela divulgação da música e da cultura da América Latina. Além disso, foi uma das mais ativas e influentes vozes na luta contra as ditaduras militares que assolaram o continente na segunda metade do século XX. Seu único filho, Fabián, se aproximou do diretor Rodrigo H. Vila para contar a sua vida, em um documentário digno de sua obra.

“Mercedes Sosa, La Voz de Latinoamérica” tem início com a notícia do falecimento de Mercedes Sosa. A comoção global foi ainda maior em sua terra natal, a Argentina, quando a presidente Cristina Kirchner declarou três dias de luto oficial no país. O cineasta demonstra a preocupação com os detalhes desde os créditos iniciais, quando se utiliza da computação gráfica para bordar os casacos utilizados por ela em suas apresentações. A partir daí, acompanhamos Fabián em uma jornada pelo mundo, colhendo depoimentos de artistas e amigos.

Ainda na Argentina, conhecemos um pouco de sua infância e adolescência.  Os irmãos contam da época em que frequentavam o Parque 9 de Julho para não sentirem o cheiro de comida onde moravam e para pegarem algumas frutas da árvores. O diretor mostra sensibilidade ao retratar o apego que Sosa tinha pela família, especialmente pelos pais. Ao mesmo tempo, Vila tem cuidado ao falar da perda de entes queridos.

Aos poucos conhecemos mais da grande contralto. A cada depoimento, seja no Chile, Brasil, Colômbia, Argentina, Espanha, Itália, França ou Estados Unidos, uma nova faceta é apresentada. A devoção e a admiração com que personalidades de várias idades e estilos musicais falam a seu respeito são ao mesmo tempo comoventes e instigantes. As comparações a cantores consagrados, como Paul McCartney, Mick Jagger ou Edith Piaf, são constantes. E tais comparações são feitas por personalidades do quilate de Chico Buarque de Holanda, David Byrne, Pablo Milanés, Milton Nascimento, Charly Garcia, Shakira, Sting e Fagner.

A composição de uma personagem tão importante não estaria completa sem a participação de amigos pessoais. E eles também estão presentes por toda a fita. Obviamente, todos os testemunhos são elogiosos. No entanto, quando ouvimos Flora Strozenberg, uma grande amiga brasileira, dizer “Ela não era uma artista folclórica. Ela era uma artista ligada ao mundo” e logo depois Jacqueline Fons, outra amiga pessoal, dizer que Mercedes era a  “Ella Fitzgerald da Argentina”, sentimos imediatamente a sinceridade daquelas palavras.

O longa também enfatiza seu posicionamento político. Foi dela a ideia da união entre os artistas latinos contra seus governos militares. Mercedes também teve participação ativa na criação do movimento Nuevo Cancioneiro, que visava exaltar a cultura latina, principalmente por meio das composições de Violeta Parra. O período de exílio, as controversas apresentações em Cuba e suas várias prisões também estão presentes.

Outro elemento utilizado ao longo do documentário são imagens de arquivo de shows pelo mundo. Entre apresentações na TV, temos imagens de programas Chico & Caetano e Ensaio, no Brasil, e participações em festivais na Europa ou América Central. Entre tantas inserções, o ponto alto é, sem dúvida, sua participação surpresa no show de Pablo Milanés, no estádio Luna Park.

Apesar de curto, “Mercedes Sosa, La Voz de Latioamérica” trata-se de um relato profundo e apaixonado. Depois de uma experiência tão tocante, é impossível discordar de uma frase dita em certo momento da projeção: “Se a América Latina tem uma cara, ela é Mercedes. Se a América Latina tem uma voz, essa voz é de Mercedes.”

Esse filme fez parte da programação do 23º Cine Ceará – Festival Ibero-americano de Cinema, em setembro de 2013.

David Arrais
@davidarrais

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