Cinema com Rapadura

Críticas   domingo, 27 de março de 2005

Antes do Amanhecer: longa sintetiza toda nossa condição humana

“Antes do Amanhecer” marca a geração 90, não muito diferente da atual: uma geração “perdida, desiludida, sem ideais,” como próprio define a inseparável co-roteirista de Linklater, Kim Krizam.

“Que ninguém hesite em se dedicar à Filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho (…) Quem afirma que a hora de dedicar-se à Filosofia ainda não chegou ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou a hora de ser feliz. (…) a Filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir”.

EPICURO, Carta sobre a Felicidade (a Meneceu).

Parece mentira, mas “Antes do Amanhecer” (Before Sunrise – 1995), do talentoso – e independente – diretor americano Richard Linklater (o mesmo de Waking Life e Tape), já completou nove anos. Talvez este momento seja realmente o ideal (agora mais do que nunca, posto que em 2004 entrou em cartaz a continuação “Before Sunset” – 2004) para que possamos enaltecer, com mais intensidade, a importância desse filme. Injustamente considerado “mais um romance pueril” na boca de alguns dos vários rudimentares críticos de cinema espalhados por aí, “Antes do Amanhecer” marca a geração 90, não muito diferente da atual: uma geração “perdida, desiludida, sem ideais,” como próprio define a inseparável co-roteirista de Linklater, Kim Krizam.

O argumento é bem simples: Destinos de dois jovens em seus vinte e poucos anos cruzam-se numa rara oportunidade em uma viagem de trem pela Europa. O destino de Jesse, um jovem americano que após romper o namoro com uma espanhola, compra um Eurail pass para aproveitar os poucos dias que lhe restam na Europa até retornar ao seu país, se mistura ao destino de Celine, uma doce estudante francesa que retorna aos estudos na Sourbone depois das férias com a avó em Budapeste. Duas vidas distintas: uma marcada pela insegurança provinda de uma decepção amorosa e outra marcada pela vontade de ser romântico-idealista frustrada pelo pragmatismo e realismo impelidos pelas vicissitudes da vida. A inocência pueril de Jesse, leitor de Kinski (Eu só preciso de Amor) se mistura ao requinte intelectual de Celine, por sua vez, leitora de Georges Bataille (Madame Eduarda), resultando em um sonho intenso e trepidante, mas com horário certo para terminar.

É que Jesse tem vôo marcado para os EUA na manhã seguinte com saída em Viena. E como nesses sonhos sem pé nem cabeça, que realmente não há como calcular o tempo, o trem estaciona na romântica cidade um instante depois que Jesse e Celine passaram a se conhecer. O mesmo trem que os uniu é o mesmo trem que os separa, o que me leva a crer que tal transporte seja a metáfora do tempo que conduzirá o romance daquelas duas singulares almas gêmeas.

Como seguir destino adiante, deixando pra trás aquela rara oportunidade de conhecer melhor alguém como Celine? Por que não deixar-se invadir neste sonho, e convencê-la a descer com ele em Viena, não para aproveitar seu último dia na Europa com uma francesinha atraente, mas para se deixar permitir ser escravo de suas palavras e de seu silêncio? Carpe Diem, já dizia Horácio, já pregava Epicuro e já lembrava o inesquecível professor John Keating, de Sociedade dos Poetas Mortos. O menino aprendeu a lição e aproveitou o dia. Conseguiu convencer Celine a descer com ele, sob o argumento de que era preciso se permitir viajar no tempo, do futuro ao passado, sob a condição de jamais usufruir de oportunidade semelhante novamente.

Jesse é cínico, descolado, muito bom de papo, mas apesar de fingir uma insensibilidade e uma incredulidade no amor, ele acaba se revelando uma pessoa carente e apaixonante, ressaltando porém a sua aversão a romantismos tolos. Celine é doce e feminista, dona de opiniões próprias e críticas, além de ser totalmente favorável a conflitos. São, como podemos ver, seres humanos diferentes, que tiveram criações diferentes em países com costumes igualmente diferentes, mas que, coincidentemente, nunca se cansaram de buscar uma mesma incerta felicidade.

A química entre o talentoso Ethan Hawke com a fascinante Julie Delpy chega a ser desconcertante. A atuação dos dois é muito real e espontânea, o que certamente nos dá a sensação de que o filme tenha um certo quê de documentarismo. A câmera que conduz o nosso olhar parece estar oculta, tal como Jesse gostaria que estivesse em seu reality show, mas um show que, diferentemente dos muitos espalhados por aí, consegue nos mostrar a poesia de um encontro casual entre dois jovens que nunca se viram, mas que se completam. Assim como em “Meu Jantar com André”, de Louis Malle, Antes do amanhecer é sobre como a glória de uma conversa funciona para se entender o mais íntimo de um ser humano.

Os longos diálogos foram interpretados com muita naturalidade, talvez até improvisação, o que já justifica a sensação de documentarismo. Destaque especial para a forte presença de Julie Delpy, que certamente é a que prende a atenção do espectador desde o momento em que Celine desce do trem, com o seu olhar de embaraço e desejo, até o momento em que, presa numa cabine musical com o incoscertante Jesse (Ethan Hawke), disfarça olhares com o mesmo, em uma nova sensação de embaraço e desejo, agora, embalada pela bela voz de Kath Bloom, com a música “Come Here”. É ela que vai explicar que a única coisa mágica no mundo está no espaço que separa duas pessoas. Talvez seja esse o porquê de tanto encanto entre Jesse e Celine; a magia está no tênue espaço entre eles dois, entre o tênue limite entre projeção romântica e realidade.

Richard Linklater (Waking Life/Tape) dirige com muita sensibilidade este romance desprovido de clichês, baseado em uma experiência que ele mesmo tivera com uma mulher que havia conhecido em Filadélfia. Daí a inspiração de se fazer um filme sobre dois desconhecidos com suas próprias inseguranças que buscam encontrar seu rumo para a felicidade. O diretor mantém os dois ativamente conversando sobre diversos assuntos que fazem parte de nosso cotidiano como família, conflitos, amigos, amor, desilusões, crenças, infância, em situações não tão difíceis de serem realizadas em Viena, tais como ter a mão lida por uma cigana, ser agraciado com um poema feito na hora por um poeta de rua, visitar uma catedral à meia-noite, ver o rio Danúbio do alto de uma roda-gigante, ao mesmo tempo que acompanha o pôr-do-sol (ocasião esta em que Celine e Jesse trocam o primeiro beijo). Enfim, é realmente difícil escolher qual o melhor momento, melhor então citar mais uma inesquecível seqüência em que Jesse e Celine encontram-se em um restaurante, fingindo estar telefonando para seus respectivos amigos, numa tentativa de descobrir o que cada um pensa do outro, mas que naturalmente não teriam coragem para revelar diretamente. Quanto mais esses dois se descobrem, mais desejam manter o prazer de estar ao lado um do outro e fazer com que as 14 horas juntos valesse por cada segundo. O grande mérito de Linklater é o de ter conseguido fazer com que este filme, que tem suas ações 100 % expressadas por conversas, mantivesse a atenção de um público, tão subestimado com filmes de ações rápidas e entediantes.

Finalizo o presente “artigo” com um trecho que não só completa o pensamento de Richard Linklater em “Antes do Amanhecer”, mas que, certamente, sintetiza toda nossa condição humana: “A criação veio da imperfeição. Parece ter vindo de um anseio e de uma frustração. É daí, eu acho , que veio a linguagem: do nosso desejo de transcender o nosso isolamento e de estabelecer ligações uns com os outros. Devia ser fácil quando era apenas uma questão de mera sobrevivência. Mas fica realmente interessante, quando usamos esse mesmo sistema de símbolos para comunicar tudo de abstrato e intangível que vivenciamos.. (…) As palavras são inertes, apenas símbolos. Estão mortas. E tanto da nossa experiência é intangível. Tanto do que percebemos é inexprimível. É indizível. E ainda assim, quando nos comunicamos uns com os outros e sentimos ter feito alguma ligação e termos sido compreendidos, acho que temos uma sensação quase como uma comunhão espiritual. Essa sensação pode ser transitória, mas é para isso que vivemos”. Sem mais comentários.

Cinema com Rapadura Team
@rapadura

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