Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 24 de junho de 2026

Supergirl (2026): heroína promissora em uma aventura ultrapassada

Ao transformar Kara Zor-El em uma heroína distinta do Superman, o novo DCU encontra uma protagonista interessante, mas não uma história à sua altura.

A escolha da “Supergirl” como segundo projeto do novo universo compartilhado da DC nos cinemas é interessante por estabelecer um contraponto direto com o protagonista do primeiro filme da saga. Ao contrário de Superman, que chegou à Terra ainda bebê e construiu sua identidade entre humanos, Kara Zor-El (Milly Alcock) carrega lembranças concretas de Krypton, vendo seu planeta morrer e sendo forçada a reconstruir a própria existência em um mundo estranho. Mas ao invés de trabalhar mais essa diferença, o longa do diretor Craig Gillespie se mostra mais interessado em acompanhar uma aventura espacial genérica e repetitiva dentro do gênero.

A trama acompanha Kara ao lado de Ruthye (Eve Ridley), uma jovem determinada a encontrar e se vingar do mercenário responsável pela morte de seus pais. Inicialmente relutante em participar da caçada, a kryptoniana muda de postura quando o conflito atinge seu inseparável cão, Krypto. Daí em diante, acompanhamos uma combinação entre história de vingança e jornada de amadurecimento enquanto Kara e Ruthye chegam a um planeta, enfrentam um obstáculo, seguem para outro e repetem o ciclo até o confronto final.

Embora a história se passe em diferentes planetas e sistemas solares, quase todos os cenários parecem variações da mesma paisagem desértica amarronzada. A direção de Craig Gillespie também surpreende pela falta de energia e personalidade. O cineasta já demonstrou em trabalhos como “Eu, Tonya” e “Cruella” que é capaz de construir personagens femininas complexas e contraditórias. Porém, aqui ele parece apenas registrar os acontecimentos de forma insossa, incapaz de traduzir para a tela os conflitos da protagonista. Existe uma história sobre trauma e perda no centro da narrativa, mas quase nenhum enquadramento ou escolha estética faz o espectador sentir esse peso.

Algumas sequências de ação funcionam bem isoladamente, mas a maior parte delas não empolga ou acrescenta peso dramático. Mesmo quando Kara perde seus poderes sob diferentes condições ambientais, nunca existe uma sensação concreta de perigo. Somado a isso, os cortes frenéticos, os enquadramentos fechados e a escolha de músicas (principalmente no terço final) dificultam a leitura dos combates e acabam funcionando como tentativas de compensar a falta de criatividade das próprias sequências.

Milly Alcock se esforça com o material que tem para construir uma Kara impulsiva e abalada emocionalmente, muito diferente do ideal de equilíbrio associado ao Superman. Existe uma agressividade defensiva em suas atitudes, como alguém que ainda não aprendeu a lidar completamente com a perda. Ainda assim, a atriz preserva uma humanidade que impede a personagem de se tornar apenas uma versão rebelde de seu primo.

O roteiro estabelece paralelos entre a sede de vingança de Ruthye e as feridas emocionais que a protagonista ainda carrega desde a destruição de Krypton. Os poucos momentos em que o longa desenvolve algo sólido surgem justamente quando a narrativa desacelera para observar essas cicatrizes, apoiando-se principalmente nos flashbacks em Krypton e Argo City.

Ruthye, apesar da motivação forte, recebe pouco espaço para desenvolver sua relação com Kara além da função de coadjuvante. Eve Ridley tem uma atuação um pouco travada, e o diretor não encontra um tom consistente para a personagem. Problema semelhante enfrenta o vilão Krem, que surge como uma ameaça central mas permanece superficial durante toda a obra. Mesmo com grande empenho do ator Matthias Schoenaerts, as motivações não cativam e o visual não o destaca de qualquer capanga secundário.

Por outro lado, Jason Momoa transparece estar se divertindo interpretando Lobo e captura boa parte da energia caótica associada ao personagem. Sua participação é um vislumbre de algo memorável no filme, ainda que pareça desconectada da narrativa principal, entrando e saindo da trama sem provocar mudanças significativas.

“Supergirl” apresenta uma versão interessante de Kara Zor-El e deixa claro o quanto ela é distinta da sombra de Superman. Porém, o longa desperdiça essa premissa ao conduzir a personagem por uma narrativa que já pareceria ultrapassada há alguns anos. Não se trata de um desastre, mas é uma pena que Milly Alcock tenha encontrado a personagem, enquanto o filme jamais encontra uma história à sua altura.

Martinho Neto
@omeninomartinho

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