Maggie Gyllenhaal cria uma releitura visualmente intensa sobre libertação feminina, mas perde força ao repetir suas próprias ideias.
“A Noiva!” usa diversos signos para mostrar diferentes camadas de opressões impostas por uma sociedade machista e o despertar de uma mulher que, depois de morta e ressuscitada, ainda luta para se desprender dessas amarras. O próprio título sem complemento (“noiva de…”) propõe uma libertação da personagem, que entende que não pertence a ninguém além dela mesma. A ressurreição aqui simboliza a possibilidade de uma mulher existir fora das expectativas impostas a ela.
A forma frenética e violenta como a diretora Maggie Gyllenhaal constrói a narrativa reflete um misto entre o cansaço de quem tanto já sofreu com a catarse de quem finalmente se sente livre. O longa é, de fato, bem violento, mas nada é mostrado de forma fetichista. Pelo contrário, as ações causam impacto que visivelmente reverberam na protagonista. A encenação assume um ritmo mais agressivo, com a câmera se movendo com urgência, tendo dificuldade de enquadrar a personagem.
Algumas sequências de cunho feminista são mais sutis, enquanto outras se mostram bem literais, como a subtrama da investigadora Myrna Malloy (Penélope Cruz). Trata-se de mais um retrato do clichê da profissional que, em um meio predominantemente masculino, é deixada de lado apesar de muito mais qualificada. Essa parte do filme visivelmente não tem a mesma força que o restante, sentimento que cresce à medida que ganha mais importância e tempo de tela.
Jessie Buckley brilha dando vida não só às diferentes personas (Ida, Penny, a Noiva…), como também à própria Mary Shelley. A escritora, “aprisionada” em uma espécie de limbo, funciona como um Id em constante diálogo com a protagonista, chegando por vezes a possuí-la de fato e provocando-a a confrontar desejos e ressentimentos que antes permaneciam reprimidos. Já Christian Bale é um ótimo complemento. A solidão profunda do monstro ainda é o motor da trama, mas o personagem provê uma leveza bem-vinda ao tom da história. Por viver tão deslocado dessa sociedade cruel, ele é capaz de seguir sua amada na busca pela sua própria identidade — ainda que em alguns momentos também tente lhe impor limites.
Depois de uma grandiosa sequência envolvendo um número de dança seguido por um discurso inflamado da Noiva, o filme perde um pouco de força. As sequências de conotação feminista se repetem de formas ainda mais didáticas, como se o público não fosse capaz de compreender o que não é desenhado para ele. Esse espaço poderia ser aproveitado com um aprofundamento maior, seja nos próprios conceitos (a revolução que se instaura a partir daí parece apressada e sem tanta substância), seja em valorizar mais a dinâmica entre os protagonistas, ponto realmente alto da obra. Gyllenhaal escolhe representar a voz feminina como um grito incessante que não aceita abrir espaço para conversa.
Apesar disso, o filme é visualmente intenso e estimulante, com a fotografia e o figurino construindo um mundo punk gótico noir repleto de referências clássicas e contemporâneas. Tudo resulta em um caos estético que dialoga com o processo interno da protagonista, que tenta reorganizar sua existência depois de uma vida moldada por expectativas alheias.
