Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 09 de julho de 2025

Superman (2025): nova visão que entende o que importa

Com uma performance delicada e um olhar mais humano, "Superman" acerta ao tratar o herói não como um símbolo inalcançável, mas como alguém real.

Para uma produção responsável por iniciar um novo universo cinematográfico, “Superman” se preocupa menos em erguer as fundações do DCU e se interessa mais em resgatar, com um olhar contemporâneo, a humanidade do herói mais simbólico do estúdio. Poderíamos estar esperando grandiosidade, mas o que vemos em tela é um longa que prefere trabalhar nos detalhes, entre as hesitações e a vulnerabilidade do mito. Cercado por elementos típicos do subgênero, a obra não reinventa o filme de herói. Mas o que dá fôlego à narrativa é a tentativa de mostrar o protagonista como alguém que, apesar dos poderes quase divinos, se considera apenas um homem.

Esse homem é interpretado por David Corenswet com equilíbrio e muita qualidade. O novo Superman não se apoia em arquétipos anteriores ou mesmo tenta emular o que quer que tenha dado certo ou errado previamente. Ele sorri, tem dúvidas, falha, e tudo isso contribui para criar um magnetismo difícil de alcançar. Corenswet constrói o Superman com tanta delicadeza que é convincente a ideia de um personagem de tamanho poder que se recusa a ceder à arrogância ou à ingenuidade, mesmo quando o mundo à sua volta insiste em testá-lo.

James Gunn evita a clássica história de origem e estabelece o início da trama três anos após Clark Kent revelar sua identidade, em uma realidade onde meta-humanos já coexistem com governos e exércitos. Essa escolha torna o filme mais ágil, mas também corre riscos. Gunn mostra confiar que o público já conheça a base do personagem. E deve conhecer mesmo. Mas essa aceleração acaba comprometendo momentos que deveriam ter mais importância, tanto pelas múltiplas subtramas inseridas quanto pelas resoluções aceleradas e até mesmo, por falta de palavra melhor, bobas.

No entanto, alguns lampejos de profundidade surpreendem. Um dos momentos mais interessantes do filme acontece não durante uma batalha, mas em uma conversa entre Clark e Lois Lane (Rachel Brosnahan), sobre os limites morais da intervenção do herói. Com um simples diálogo de natureza mais séria, o longa se permite questionar o que significa agir acima da lei quando se tem o poder de fazer o que quiser, além de ainda mostrar a importância de um jornalismo comprometido com a verdade. Outras sequências são pinceladas, como os haters do Superman nas redes sociais ou o uso da imprensa para desacreditar o protagonista. São discussões que aparecem e desaparecem rapidamente, mas apontam para uma autoconsciência da obra em relação ao mundo atual, além de uma maturidade importante para contrastar com a simplicidade de outros pontos do roteiro.

O humor em Superman é outra peça importante da construção do tom otimista que James Gunn busca resgatar para o protagonista. Não se trata de algo feito para rir alto. O objetivo aqui é imprimir um tom leve e caloroso o tempo todo, para fazer o público se sentir feliz e revigorado no fim da sessão. Apesar do pouco desenvolvimento, personagens como o impulsivo Guy Gardner (Nathan Fillion) conseguem se sair bem nas cenas de descontração. Já o enraivecido Lex Luthor (Nicholas Hoult) talvez seja o mais caricatural, sobretudo em seus ataques de estresse. Mas o destaque maior fica para a presença de Krypto, que traz momentos genuinamente afetuosos e, ao mesmo tempo, bem divertidos.

A sensação de ver coisas boas e não tão boas, que funcionam e não funcionam, acaba percorrendo todo o longa. Gunn parece ter se dividido entre subverter expectativas e cumprir certas convenções para agradar a todos, afinal, o início do DCU não poderia ser um fracasso de público. Ao mesmo tempo em que temos cenas vitais como o Superman se frustrando por não conseguir salvar uma vida, em outras temos vilões de motivação e caracterização genéricas envolvidos em soluções convenientes que parecem recicladas de outros filmes do gênero.

Ainda assim, a balança final de “Superman” se mostra positiva. Gunn, mesmo com algumas distrações e excessos, demonstra uma compreensão sólida da essência do personagem. Ele o coloca num mundo moralmente ambíguo, mas não o contamina por completo. E ao fazer isso, resgata o sentimento estranho que deve ser conviver com alguém tão poderoso e acredita que deve sempre fazer o bem num planeta acostumado a não confiar em ninguém. A obra não tem cara de ser a grande pedra fundamental do DCU, e parece nem querer assumir esse papel, mas ao menos inaugura uma nova leitura para o Superman, trocando a armadura intransponível de um mito pela pele sensível de um homem.

Martinho Neto
@omeninomartinho

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