O documentário escancara a instrumentalização política da fé, sobretudo pela relação simbiótica entre os evangélicos e a direita, mas erra ao não confrontar seus protagonistas e deixa o espectador sem provocações reais.
É emblemático que um dos cartazes de divulgação de “Apocalipse nos Trópicos” traga uma imagem de Luiz Inácio Lula da Silva com os olhos fechados em oração, rodeado por evangélicos. A fotografia inverte o objeto de estudo do próprio documentário: a fronteira entre religião e Estado no Brasil contemporâneo tornou-se fluida, atravessando espectros políticos e ideológicos. Escolher esse enquadramento revela a intenção de Petra Costa de se afastar de posições predeterminadas. Em “Democracia em Vertigem”, a voz da diretora narra sua própria perplexidade diante de um colapso democrático prestes a acontecer. Aqui, ela se posiciona como alguém que desconhece o assunto e opta por observar.
A proposta ambiciosa visa construir uma cronologia de eventos políticos recentes costurada por metáforas apocalípticas, flashes da teologia cristã no país e uma crítica implícita à ascensão do fundamentalismo evangélico no debate público. A montagem é ágil para articular décadas de imagens, registros e bastidores, de pregações de Billy Graham até a retórica da “guerra espiritual” propagada por parte da atual bancada evangélica. Há cenas que funcionam como sínteses poderosas, como na breve sequência na qual a diretora traz alguém do povo para mostrar o impacto real do tema na vida das pessoas. A riqueza de imagens e a variedade de fontes revelam Petra como uma curadora cuidadosa e com um acesso invejável, com direito a momentos de intimidade com figuras como o presidente Lula e o pastor Silas Malafaia.
Apesar de toda essa complexidade estrutural, a diretora em momento algum busca tensionar os discursos que coloca em cena. Malafaia, por exemplo, surge como o personagem mais bem delineado de “Apocalipse nos Trópicos”. O pastor domina a tela com seu carisma explosivo e discurso inflamado, ora no púlpito, ora em ocasiões reservadas. A cena na qual o pastor dirige um automóvel de luxo e se irrita com um motociclista, usando Jesus como justificativa para seus acessos de raiva, é uma síntese evidente da contradição de seu discurso, que constantemente busca se legitimar pela ideia de um apocalipse iminente, onde tudo pode ser justificado em nome da batalha final. E apesar disso, Petra opta por apenas registrar, sem grandes incômodos.
O documentário se estrutura como um grande mosaico político-religioso que tenta englobar um pouco de tudo. Essa abrangência leva a uma falta de aprofundamento em temas centrais, como a instrumentalização política da fé por meio de um discurso apocalíptico evangélico, ou ainda o impacto da teologia da prosperidade entre a população mais pobre. Em um país onde a fé tem sido usada sistematicamente como ferramenta de controle político e social, optar por não confrontar diretamente essa estrutura acaba por não contribuir para possibilidades reais de diálogo. Isso esvazia o potencial do longa, de modo que não importa o espectro político do espectador, dificilmente ele se sentirá provocado a questionar suas escolhas.
“Apocalipse nos Trópicos” termina sem chegar a uma conclusão clara sobre como o discurso evangélico moldou e se retroalimentou da ascensão da extrema direita no país. Determinada a construir um documento amplo da história política recente do Brasil, Petra adota um esforço de compreensão mútua que se desfaz diante da escolha por não incomodar nenhum dos lados. Trata-se de um registro distante que contempla o apocalipse iminente, sem se preocupar em como (ou se é possível) evitá-lo.
