Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 21 de junho de 2025

Bailarina — Do Universo de John Wick (2025): quando a ação é o suficiente

Sem o diretor da franquia original, spin-off cumpre o básico com sequências de ação empolgantes e uma protagonista à altura.

O universo de “John Wick” sempre foi menos sobre o que se fala e mais sobre o que se mostra em tela. Uma história simples de um brucutu que retorna à ação devido à morte do seu cachorro acabou dando origem a uma vasta mitologia de códigos e facções, que pouco se preocupa com explicações e sustentada por uma violência cada vez mais inventiva e brilhantemente coreografada. Depois de quatro filmes e uma série derivada, “Bailarina” chega como o primeiro spin-off que traz uma nova personagem principal.

A história acompanha Eve (Ana de Armas), uma assassina treinada pela Ruska Roma que mergulha em uma busca por vingança após descobrir quem assassinou seu pai. A sinopse genérica não disfarça o pouco apego com o desenvolvimento narrativo. Contudo, o diretor Len Wiseman (da franquia “Anjos da Noite”) opta por gastar algum tempo de tela para construir a origem da protagonista, suas motivações e seu treinamento. Por mais que a história das bailarinas assassinas (ou protetoras, nesse caso) não chame tanto a atenção, mostra a preocupação de Wiseman em buscar uma identidade própria para o longa, além do que já se espera dele.

Ao contrário de John Wick e sua eficiência metódica, Eve é mais impulsiva, movida pelo improviso e pela capacidade de se adaptar para sobreviver. Só essa diferença notável já influencia todas as sequências de ação da obra. De fato, o longa não facilita as coisas para a personagem por ser mulher. Além disso, ela comete erros e frequentemente precisa encontrar soluções com o que tem à mão, seja um controle remoto, um lança-chamas ou um arsenal de granadas — gerando algumas das melhores cenas da obra.

Ana de Armas carrega o filme com entrega física e acrescenta uma vulnerabilidade que funciona como contraponto à masculinidade fria predominante na franquia até então. Já o diretor Len Wiseman, por sua vez, mesmo não sendo nenhum iniciante nesse subgênero da ação mais “absurda”, joga no seguro ao emular ambientações, cores e tudo o mais que fosse possível para deixar claro que “Bailarina” se encaixa na mitologia do Baba Yaga. A necessidade de evidenciar isso aparentemente era tanta que trouxeram o próprio Keanu Reeves, em uma participação que, apesar de funcional como fan service, soa mais como uma apólice de segurança do estúdio para facilitar a venda do longa. Talvez falte a elegância estética que marca os melhores momentos dos capítulos anteriores, mas nada que tire o brilho do que realmente importa: a ação.

Mesmo contando com mais diálogos e tempo de desenvolvimento de personagens do que toda a franquia, o filme tem consciência de que a inventividade nas cenas de ação é a chave para conquistar o público. Felizmente, o time criativo mostra ter tido o cuidado de trazer novidades, o que por si só já configura o maior mérito da obra, haja vista o quanto os longas anteriores avançaram nesse quesito. As já mencionadas sequências envolvendo lança-chamas e granadas, além de outras em um quarto ou num restaurante, com facas voando e objetos improvisados como armas, sintetizam essa ação estilizada com total consciência de espaço e ritmo, ainda que com uma montagem não tão polida.

“Bailarina” é um passo seguro para expandir o universo de “John Wick”. Não se destaca narrativamente, mas entrega excelentes sequências de ação, ou seja, faz exatamente o que se esperaria dele. Claramente funciona como uma vitrine para Ana de Armas, que mostra ter o físico e o carisma necessários para protagonizar uma franquia do gênero. No fim, cumprir o básico, nesse caso, é mais do que suficiente para entreter.

Martinho Neto
@omeninomartinho

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