Mesmo em um longa imperfeito, cinebiografia imortaliza na sétima arte uma das figuras mais interessantes (e pouco lembradas) da história do Brasil com orgulho e interpretações marcantes de suas protagonistas.
Já foi dito algumas vezes que a arte é a memória de um povo. Que, por meio de filmes, livros, músicas, conseguimos imortalizar pessoas e eventos. Pois bem, se existem pessoas que merecem seu lugar na memória eterna do país, uma delas é Marie Josephine Mathilde Durocher ou, simplesmente, “Madame Durocher“, a primeira mulher a integrar a Academia Imperial de Medicina do Brasil, em meados do (não tão longínquo) século XIX.
Dirigido pela dupla Dida Andrade e Andradina Azevedo (“Eike, Tudo ou Nada”), “Madame Durocher” mostra a saga dessa parisiense criada no Brasil para não só conseguir exercer a obstetrícia, mas também ser respeitada como médica e mulher. Abarcando a vida da protagonista-título desde sua juventude até sua maturidade — vivida nestas fases, respectivamente, por Jeanne Boudier e Sandra Corveloni —, a produção faz um retrato eficiente da luta e das tragédias na vida de Marie.
A criação difícil da futura médica ao lado da mãe (Marie-Josée Croze) é um dos grandes destaques do filme, especialmente com a maravilhosa química entre Boudier e Croze. A relação entre mãe e filha forja em fogo a personagem e faz com que seja natural a sua obstinação no momento posterior de sua vida, quando Sandra Corveloni surge em cena, exalando impetuosidade e compaixão.
A dupla de diretores faz um bom trabalho ao colocar o espectador no meio do Brasil da época de Dom Pedro II, especialmente do machismo e elitismo vigente na Academia de Medicina, algo fundamental para a trama. Porém, há um certo exagero nas figuras ao redor de Marie, especialmente com Mateus Solano, cujo Dr. Hermínio, que assume aqui a função de antagonista, por vezes beira o caricatural, sendo salvo pelo carisma natural de seu intérprete.
André Ramiro se sai melhor com o seu Dr. Joaquim, mentor da Madame Durocher, caminhando entre o professoral e o paternal, mas infelizmente Isabel Fillardis surge bem perdida com sua Clara. Outro problema da produção, inclusive bastante comum em cinebiografias, é que os diretores não conseguem fugir do tom quase episódico que a trama assume em dados momentos.
É inegável que “Madame Durocher” está no seu melhor quando foca em Marie, em qualquer de suas versões, com Jeanne Boudier e Sandra Corveloni entregando interpretações maravilhosas dessa mulher que sim, merece ser eternizada nas telas. E isso felizmente ocorre neste filme que, embora imperfeito, a retrata com o respeito que merece.
*Filme visto no Festival Varilux de Cinema Francês 2024.
