Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 24 de julho de 2021

Indiana Jones e a Última Cruzada (1989): o ápice da franquia

A adição de Sean Connery como pai de Indiana Jones é um dos maiores acertos de escalação de atores do cinema, realçando um filme que consegue entregar uma fantástica aventura com tons sentimentais complexos de uma relação que precisa ser reconstruída.

Após iniciar a década de 80 em grande estilo com “Caçadores da Arca Perdida” em 1981, o trio Steven Spielberg, George Lucas e Harrison Ford fechavam a (até então) trilogia com “Indiana Jones e a Última Cruzada” em 1989.

Após “Indiana Jones e o Templo da Perdição”, que procurou ser mais diferente do que o primeiro, Spielberg faz o que realmente parece ser um “Caçadores da Arca Perdida 2”, pois é tudo muito similar. A busca por um artefato da mitologia cristã, perseguições, humor inocente, nazistas como vilões e a volta de Sallah (John Rhys-Davies) e Marcus Brody (Denholm Elliot) são apenas alguns exemplos. Felizmente, é um filme que trabalha bem com todos esses elementos, quiçá melhor.

Brody se torna alívio cômico, e todas as suas cenas humorísticas funcionam. Seja pela ótima interpretação abobada de Elliot, ou pela afiada direção que sabe conduzir o timing, não há uma piada desperdiçada ou mal encaixada. Há brincadeiras com o próprio gênero de aventura, como Indiana dizendo que “X nunca marca o local certo”, para depois se deparar, para sua própria surpresa e diversão, com um 10 em número romano fazendo exatamente isso.

Entretanto, o filme abre com uma de suas novidades: o passado de Indiana Jones, ainda jovem, descobrindo sua vocação para aventuras. Spielberg rege a cena magistralmente, mostrando um adolescente seguindo o bando de um cara de jaqueta e chapéu fedora, que estavam atrás de um artefato. Escondendo o rosto do ator, ele nos faz achar que o protagonista está sendo observado, e pega de surpresa quando é revelado que é outra pessoa e que estamos presenciando River Phoenix atuando com um jovem Indiana Jones (a ideia até rendeu uma série posterior). Phoenix, que já havia trabalhado com Ford, procurou imitar trejeitos do veterano, e funciona, quando ele declara, cheio de autoconfiança, que o objeto pertence a um museu, já se nota que a paixão de Jones por arqueologia vem de muito tempo antes dos longas.

Nessa sequência, descobrimos o início da fobia de Indiana por cobras, como ele conseguiu o chapéu e até a cicatriz que Ford possui no queixo é criada aqui quando Phoenix pega um chicote pela primeira vez, acidentalmente se cortando. É aqui também que outro novo personagem é apresentado, o pai de Indiana Jones, Henry Jones Sr., interpretado por Sean Connery, numa das escalações mais acertadas da história do cinema. Sem ainda mostrar seu rosto, quando pai e filho falam um com o outro pela primeira vez, já se percebe uma relação conturbada e distante, mais por ignorância em lidar com sentimentos do que desprezo em si. De cara, este filme humaniza seu protagonista.

Quando corta para um Indiana Jones adulto – numa transição simples, mas certeira – ele logo se depara com um literal chamado para a aventura, com o ricaço Donovan (Julian Glover) o convidando para continuar buscas pelo Cálice Sagrado, já que seu pai, especialista no assunto inicialmente convocado, acabou desaparecendo. Ao ir atrás do artefato e do pai, a trama traz mais alma e camadas para o herói, elementos bem vindos para facilmente criar uma conexão com o público.

A ideia de Indiana Jones foi concebida por Spielberg e Lucas porque o primeiro expressou seu desejo em dirigir um filme de James Bond, o que levou a conversas que acabaram resultando no amado arqueólogo aventureiro. De certa forma, portanto, Bond é pai de Jones, o que adiciona mais um elemento divertido e significativo à escalação de Connery, um dos mais famosos Bonds da história do cinema. O diálogo entre pai e filho quando se encontram pela primeira vez na trama principal é deliciosamente engraçado, com o mais velho se preocupando mais com o estado de um vaso raro do que com a saúde do próprio filho, este matando nazistas e nunca, jamais, conseguindo impressionar o pai. Eles também conversam sobre a doença da esposa/mãe, algo que os levou a se distanciarem por não saberem lidar com o peso do luto.

À essa cena, segue-se uma de várias sequências de perseguições. Os Jones fogem de moto, e Indiana precisa ser criativo para se livrar dos vilões, e aí é mais um exemplo de como o filme equilibra comédia e ação magistralmente. A cara de satisfação de Indy após destruir uma moto inimiga com uma vara arremessada na roda logo azeda ao ver a cara de reprovação do pai, parece um drama pesado quando descrito assim, mas confie, é diversão infalível.

Vale a pena mencionar também que, além da citada acima, há perseguição entre barcos e tanques, com boa variedade e dinamismo, tudo realçado pela direção inspirada de Spielberg. A tomada em que Indy briga com um cara no barco enquanto o barco está sendo destruído pela hélice de um navio é absolutamente fantástica, transmite um real senso de perigo que também aparece quando o herói precisa lutar em cima de um tanque ao mesmo tempo em que tenta salvar o pai. A franquia nunca falhou em entregar momentos que disparam a adrenalina do espectador, e aqui, chega a seu ápice.

Outro elemento interessante ao comparar este filme com o primeiro é ver como Indiana era totalmente descrente do misticismo apresentado, mas com a arca destruindo nazistas ao final, ele começa a se questionar. Este elemento tem grande peso no desafio final, onde é “necessário” crer para superar um último desafio, a intercalação de pai e filho recitando palavras ao mesmo tempo ganha mais relevância emocional.

Quanto aos vilões, é ótimo como o filme zomba de Hitler na maravilhosa piada do autógrafo, mostrando que ele era tão cheio de si que não conseguiu reconhecer o diário que buscava. Irônico também que isso aconteça durante uma queima de livros, coisas de regimes totalitários que buscam dificultar o acesso da população a conhecimento.

É também com os vilões que o roteiro precisa ser um pouco expositivo, e neste quesito ele não chega ao nível do primeiro, que torna o momento mais dinâmico, mas não chega a ser ruim. Todavia, temas são repetidos com êxito ao ilustrar que a ganância pelo poder é o que causa a ruína, resultando na impecável cena com efeitos especiais da morte de um deles ao envelhecer rápido demais.

Durante o filme, é revelado que o nome do protagonista é Henry Jones Jr., com seu pai constantemente o chamando de “Junior”, o que o deixa furioso, sempre pedindo para ser chamado de “Indiana”. Na última cena, descobrimos que “Indiana” era o nome de um cachorro que foi muito especial para o jovem Jones. Curioso notar que isso nasceu do fato de George Lucas ter tido um cão com este nome, este mesmo cão foi a inspiração visual para a criação de Chewbacca na franquia “Star Wars”. O amor canino gerou ícones atemporais para a cultura pop, além de mostrar que chamar alguém pelo nome que prefere não é algo difícil, não é mesmo?

Com a trilha fascinante de John Williams, que até traz temas anteriores para temperar momentos de nostalgia, “Indiana Jones e a Última Cruzada” é uma sequência infinita de acertos, resultando no melhor filme da franquia e um casamento entre comédia e aventura poucas vezes testemunhados na sétima arte. A paixão de Indiana pela arqueologia é sentida em sorrisos sutis, mas é na busca pelo cálice sagrado que pai e filho encontram de valor imensurável: reconciliação.

Bruno Passos
@passosnerds

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