Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 12 de setembro de 2020

O Fórum (2019): onde o mundo decide seu futuro

Documentário alemão revela os bastidores da diplomacia global acompanhando os cinquenta anos do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, local de encontro de figuras como Jair Bolsonaro, Donald Trump, Al Gore, Greta Thunberg e Leonardo DiCaprio.

Todos os anos, há mais de cinco décadas, os líderes dos principais países, empresários de grandes corporações, empreendedores sociais, ativistas e artistas renomados se reúnem na pequena cidade de Davos, na Suíça, para o tradicional Fórum Econômico Mundial. Criado pelo economista alemão Klaus Schwab, o evento se tornou o ponto de encontro mais relevante entre aqueles com poder de decisão sobre as economias e sociedades mundiais. Por reunir as figuras de tamanha importância, a reunião é cercada de restrições e protocolos de segurança e até então nenhuma equipe de reportagem havia sigo autorizada a filmar seus bastidores. Dirigido pelo alemão Marcus Vetter, o documentário “O Fórum” é uma chance inédita de se vislumbrar os preparativos de algo que define os destinos do mundo.

O filme foi lançado no Brasil pela O2 Play direto nas plataformas digitais e chegou causando burburinho por sua habilidosa campanha de divulgação, que trazia um trecho do diálogo nos bastidores ocorrido em 2019 entre o recém-eleito presidente do Brasil Jair Bolsonaro e o ex-vice presidente norte-americano Al Gore. Conhecido ativista ambiental, Gore produziu e estrelou “Uma Verdade Inconveniente”, que em 2006 já sinalizava sobre os perigos do nosso descaso ambiental. O encontro entre essas figuras tão antagônicas é o instante alto da narrativa e se estabelece como uma das cenas mais antológicas da recente produção documental. Nela, o governante brasileiro diz em português, sendo traduzido por auxiliares, que valoriza muito a Amazônia brasileira e que tem interesse em “explorá-la junto aos americanos”. Al Gore reage com incredulidade: “Acho que não entendi o que você quis dizer” – antes de ir embora da conversa.

Porém, a produção é muito mais do que a passagem constrangedora entre os dois homens. O documentário se dedica a aprofundar como esse empreendimento entre os setores públicos e privado e a sociedade civil concebido por Klaus e sua esposa Hilde se estabeleceu como o evento político-econômico mais relevante da diplomacia mundial. Acompanhando o economista nesses preparativos (ligações para presidentes ou executivos mais importantes do mundo), entendemos um pouco mais sobre a força diplomática desse homem e seus objetivos em reunir figuras consideradas por muitos como os vilões da atualidade. Ao longo do tempo, o Fórum também se constituiu como ponto de inovação em que se apresentam novas tecnologias que podem auxiliar na melhoria da vida coletiva.

Uma das histórias mais interessantes compartilhadas por Klaus é a de sua visita ao Brasil na década de 1970, quando conheceu o padre Dom Helder Câmara. Convidou o religioso para falar no na edição de 1973 do evento e, segundo seu relato, esse foi um dos momentos mais polêmicos em todos esse período, quase colocando um fim ao encontro anual. Isso porque a mensagem de Dom Helder, reconhecido ativista social, era muito “de esquerda” para o público liberal ali presente. Ainda assim, continuou existindo, mesmo que às vezes sofra boicote de indivíduos pouco afeitos ao diálogo, como em 2019, quando o presidente norte-americano Donald Trump se recusou a comparecer.

Em cinquenta anos de história, continua se mostrando fundamental na manutenção da colaboração entre partes antagônicas do xadrez global. Enfrentando as dificuldades inerentes às diferentes eras políticas, se manteve como espaço de diálogo entre tomadores de decisão, mas também vem recebendo críticas por parte de líderes e organizações por seu viés liberal e capitalista. A obra de Vetter tenta cobrir uma dessas vozes dissidentes nas discussões, acompanhando a presença do Greenpeace. Cada reunião anual é um prato cheio para protestos de quem não concorda com o rumo das coisas e contexto em que o documentário foi capturado (entre 2018 e 2019) foi especial para críticas contundentes à postura dos participantes diante de um tema específico: a ameaça ambiental.

Tendo passado pela Guerra Fria e diversas outras crises ao longo desses cinquenta anos de existência, a cerimônia se vê agora diante desse que talvez seja o maior desafio enfrentado pelo mundo. A produção retrata como a pauta ganhou espaço nas  mesas redondas, encontros e palestras que compuseram realizados nesses últimos anos. Ainda assim, segundo muitos, isso não tem sido suficiente para mudar o desenrolar dos acontecimentos. Outra crítica feita é ter entre suas empresas parceiras algumas que são notoriamente prejudiciais ao meio ambiente, como a produtora de pesticidas Monsanto, ou que tenham políticas de recursos naturais questionáveis, como a Nestlé com sua política da água. Ao ser inquirido pelo cineasta sobre essas associações, Klaus não soube se livrar da contradição.

Símbolo de uma intensa mudança paradigmática necessária para o rumo das discussões sobre consumo, produção, trabalho e vida em sociedade é a participação da ativista sueca Greta Thunberg no Fórum de 2019. Destaque no último terço do documentário, Greta aparece como antagonista à figuras anacrônicas como Bolsonaro e Trump, representantes de uma velha forma de encarar a relação entre economia e meio ambiente. Diante deles, a jovem Greta aparece como uma gigante, como o pôster do filme faz questão de demonstrar. A pergunta que fica em aberto é se o quinquagenário Fórum e seu velho criador estarão realmente preparados para a mudança que já começa a surgir.

Vinícius Volcof
@volcof

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