Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quinta-feira, 02 de julho de 2020

Ninguém Sabe Que Estou Aqui (Netflix, 2020): boas ideias ao vento

Contando com uma atuação central pautada por um silêncio poderoso, o longa mergulha nas consequências da perda da infância e a tristeza da solidão.

Jorge Garcia tem uma extensa carreira no meio audiovisual, mas foi graças à televisão que ganhou os holofotes. Ele é lembrado mundialmente pelo personagem Hugo ‘Hurley’ da antológica série “Lost(2004-2010). O ator integrou também o elenco da série “Hawaii Five-0” por um longo período até anunciar sua saída em 2019. Com experiência comprovada na televisão e muito carisma parecia estranho que Garcia nunca tenha ido além de papéis secundários, isso quando eles não eram praticamente irrelevantes (e aqui não cabe discutir nem o tipo físico como motivo para não figurar como protagonista, pois se não a crítica fugirá do objetivo). Talento ele tem. E o ator americano, filho de pai chileno e mãe cubana, deixa bem evidente em “Ninguém Sabe Que Estou Aqui”, drama da Netflix que concedeu a Gaspar Antillo o prêmio de Melhor Novo Diretor no Festival de Cinema de Tribeca este ano.

Produzido pelo chileno Pablo Larraín, o longa narra a história de Memo (Garcia), um homem simples, calado por traumas de uma infância conturbada e abusiva. Morando com seu tio Braulio (Luis Gnecco) numa pequena fazenda onde criam ovelhas localizada num vilarejo chileno, Memo esconde do mundo exterior a voz que um dia o levou a sonhar com uma vida diferente e que prestes a ser ouvida por alguém pode trazer à tona feridas do passado bem como o remédio para cicatrizá-las. Escrito pelo próprio Gaspar Antillo em parceria com Enrique Videla e Josefina Fernández, o roteiro de “Ninguém Sabe Que Estou Aqui” aborda uma temática interessante e muito dolorosa, com potencial para levar o público a uma reflexão valiosa sobre a vida do protagonista. Porém, o desenvolvimento dessa premissa se mostra problemático e pretensioso.

Durante a primeira metade da trama o roteiro alimenta o espectador com diversos questionamentos sobre o passado de Memo e assim aproveita para revelar um pouco do comportamento peculiar daquela figura. Esse é um momento em que a narrativa evidencia sua habilidade em instigar e provocar a audiência com doses homeopáticas de mistério. Pouco se sabe sobre aquele homem grande, por quais motivos ele invade casas enquanto os donos não estão, por que reluta em dialogar até mesmo com seu tio que lhe dá abrigo, suas habituais caminhadas pela floresta e a dificuldade em se relacionar com as pessoas. Algumas dessas situações são registradas em longos planos zenitais, pela condução – às vezes excessivamente -, observadora do diretor estreante Gaspar Antillo, nos levando a experimentar um pouco da solidão extrema na qual se encontra o protagonista.

Mas o roteiro se perde em meio a tantos questionamentos. Enquanto a primeira parte da narrativa estimula a curiosidade do público com segredos de uma vida pós-traumática, a segunda metade parece não ter tempo para fornecer a todas as respostas (o longa tem pouco mais de 1h30m de duração) e o que nos atos seguintes são acontecimentos atropelados e decisões atabalhoadas que surgem na pressa de encerrar um filme que, embora sabia como começaria e terminaria, não fazia muita ideia de como iria se desenrolar. Uma pena já que apresenta bons conceitos tanto técnicos quanto estéticos. O design de produção comandado por Estefania Larraín, por exemplo, confere a obra o grau de isolamento ao qual Memo está inserido ao passo que a fotografia registra o ambiente com ângulos extremamente elegantes e a frieza presente naquele universo imperturbável.

Grande fisicamente, Jorge Garcia serve também como âncora a obra graças a sua interpretação igualmente colossal. Quase imperceptível aos olhos do espectador, ele fabrica sua atuação num silêncio ‘barulhento’, no olhar esquivo e no gestual comedido. Trata-se de uma daquelas personagens complexas em que qualquer ator gostaria de se aventurar. Garcia ganha o coração de quem assiste e expõe toda a complexidade de sua figura com brilho e sem estrondo. Com uma trilha sonora delicada e uma canção original com a força para encantar qualquer jurado num show de talentos, “Ninguém Sabe Que Estou Aqui” exibe boas ideias, sobretudo com a relação ao texto central de sobrepor a voz de uma pessoa renegada por sua forma física a outra que atende as demandas do estrelato. Mas boas ideias se perdem facilmente aos ventos da urgência.

Renato Caliman
@renato_caliman

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