Cinema com Rapadura

Críticas   sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Kursk – A Última Missão (2018): o poder de uma história

A história da tragédia do submarino russo K-141 é contada através da ótica mais importante: a vida das pessoas negligenciadas pelas autoridades russas, que finalmente ganham relevância ao serem eternizadas neste longa de Thomas Vinterberg.

Histórias são contadas por diversas razões. Além de entreter, o cinema também é capaz de encapsular fragmentos históricos e conectar audiências com o que vai além de uma manchete ou um simples artigo na Wikipedia. “Kursk – A Última Missão” vai no coração de uma tragédia real que ocorreu em Agosto de 2000 envolvendo o submarino russo K-141, deixando 118 famílias em luto.

O diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, baseando-se no livro de Robert Moore, “A Time to Die”, se propõe a dar voz a poderosa história dos 118 marinheiros que partem para uma missão de teste de mísseis nucleares a bordo do submarino Kursk. Trabalhando em condições precárias e sem preparo, a tripulação sofre com a negligência de seus superiores, que acarretou na explosão dos mísseis, vitimando quase todos a bordo. Enquanto os 23 sobreviventes lutam para se manterem vivos até o resgate, em terra suas famílias lutam por respostas, pressionando as autoridades que se recusam a revelar informações importantes para proteger interesses próprios. Com equipamentos sucateados, a alternativa óbvia é aceitar ajuda internacional para resgatar os marinheiros remanescentes e, liderando os britânicos, o Comodoro David Russel (Colin Firth) tenta vencer a exacerbada burocracia dos russos.

Mikhail Averin (Matthias Schoenaerts) assume a liderança dos sobreviventes, determinado a salvar seus “irmãos” e retornar à companhia de sua família. A dinâmica do personagem com Oleg (Magnus Millang) enriquece a trama: enquanto um utiliza sua experiência e resistência para inspirar o grupo e resolver os problemas técnicos que enfrentam, o outro eleva o espírito de seus companheiros com seu carisma diante das situações enervantes. Ambos dividem um dos diálogos mais importantes do filme, no qual se questiona o tamanho do risco e sacrifício que suas profissões exercem e qual é a real relevância e marca que deixam em suas famílias.

A esposa de Mikhail, Tanya (Léa Seydoux), estende os laços de união entre os marinheiros para as relações com as outras esposas, sendo ela a janela de história dos que ficam. Tanya é o nó central da rede de apoio que se forma, e se recusa a carregar a sina da mulher de marinheiro, de ser subserviente, esperar e confiar. Ao invés disso, luta para pressionar as autoridades, lembrando a eles que o impacto que cada vida perdida causa em suas respectivas famílias.

De modo geral, o longa não se destaca artisticamente, e acaba pecando no excesso de autoexplicação do roteiro. A discussão proposta pelo filme chega a sair da boca de um dos atores, mesmo após já ter sido apresentada visualmente em diversas cenas anteriores. Alguns eventos prenunciam suas consequências de forma muito óbvia, diminuindo a carga dramática que certas cenas deveriam ter. No entanto, algumas escolhas são interessantes, como uso do enquadramento clássico e sua transição para widescreen a medida em que a embarcação submerge, evocando a melancolia diante da partida enquanto contemplamos a imensidão do oceano se fundindo com o céu. E na conclusão o uso desse recurso trará um impacto ainda maior em mais uma cena emblemática.

O uso do tema musical também é notável e confere grande sensibilidade à história. Além de traçar um paralelo na cena do casamento com os momentos finais da tragédia, nos quais em ambos vemos – em celebração e em luto – a irmandade entre aquelas famílias que se apoiam, dividindo dores, alegrias e condições precárias de vida, evidencia o vazio que ficará eternamente na vida das mulheres e das crianças. “Kursk – A Última Missão”, eterniza o que mais importa no meio dessa tragédia, a história que os russos quiseram a todo custo silenciar. A história de vidas humanas que tanto ofereceram ao seu país para em troca serem negligenciadas em nome de interesses escusos. E esse é o poder do cinema, fazer com que aquelas vidas, silenciadas de forma tão estúpida, jamais sejam esquecidas.

Tayana Teister
@tayteister

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Kursk – A Última Missão (2018)

Kursk - Thomas Vinterberg

Baseado em fatos reais, o filme narra a explosão e o naufrágio do submarino russo Kursk no ano de 2000. Os tripulantes precisam sobreviver às águas geladas do Mar de Barents enquanto esperam por um resgate que pode não chegar por causa do descaso das autoridades.

Roteiro: Robert Rodat

Elenco: Matthias Schoenaerts, Léa Seydoux, Peter Simonischek, August Diehl, Max von Sydow, Colin Firth, Bjarne Henriksen, Magnus Millang, Artemiy Spiridonov, Joel Basman, Pit Bukowski, Matthias Schweighöfer, Tom Hudson, Chris Pascal, Kristof Coenen, Pernilla August, Helene Reingaard Neumann, Martin Brambach, Peter Plaugborg, Guillaume Kerbusch

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