Cinema com Rapadura

Críticas   quinta-feira, 14 de novembro de 2019

As Panteras (2019): girl power!

Surpreendentemente se revelando uma continuação oficial do universo da série da década de 1970 e dos filmes dos anos 2000, "As Panteras" tem um roteiro descompassado salvo por um time inspirado de atrizes que brilham em tela.

As Panteras” é o novo filme da franquia que surpreende ao ser uma sequência das obras anteriores, trazendo a mesma trama base em que o misterioso Charlie coordena uma organização que recruta e treina mulheres para combater o crime. Elas são: Sabina Wilson (Kristen Stewart), Elena Houghlin (Naomi Scott) e Jane Kano (Ella Balinska). Sem nunca revelar seu rosto, existe um “gerente” chamado Bosley para lidar com o time de maneira mais rotineira e proativa. As missões costumam envolver viagens, disfarces e criatividade, algo que permite brincar com seu lado brega, abraçado sem receio, e resultando em ótima diversão.

Escrito e dirigido por Elizabeth Banks, uma atriz cômica que vem se aventurando em trabalhos por trás das câmeras, o longa contém uma organização que cresceu e expandiu suas atividades da Califórnia para o mundo, tendo equipes de Panteras (e, consequentemente, vários Bosleys) pelo mundo. O olhar feminino estabelecido pela diretora atualiza o projeto de maneiras revigorantes, como não sexualizar as personagens. As produções do início do milênio tinham closes em órgãos íntimos e poses insinuantes, mas aqui não há nada disso; apesar de serem agentes, definitivamente, sexy, essa característica vem do charme, carisma, confiança e personalidades, não de corpos atraentes desnecessariamente expostos.

Entretanto, Banks ainda é uma diretora em formação. As cenas de ação e luta raramente empolgam de verdade e carecem de uma montagem mais precisa. O roteiro, o primeiro dela, é inconsistente e incoerente, com arcos narrativos que precisavam de um direcionamento mais claro. Por consequência, o equilíbrio entre ação e comédia fica aquém do potencial a toda hora demostrado, dando a melancólica sensação de que ele está a um passo de ser ótimo. Sem contar que algumas frases de efeito estão mal colocadas e uma cena de dança, por mais legal que possa ser, acontece do mais absoluto nada.

Por essa razão, a dinâmica entre as três protagonistas sofre. Existe um arco sobre duas delas serem opostos e buscarem se aproximar que é confuso e nada coeso em seu desenvolvimento. O que salva é que as atrizes estão incríveis em seus papéis e tiram leite de pedra nesses momentos. Temos a própria Banks como a Bosley do time principal, uma ex-Pantera que sabe mais do que deixa transparecer; Naomi Scott faz a inocente, porém destemida Elena, cientista de uma empresa prestes a lançar um dispositivo gerador de energia capaz de revolucionar o mundo, que ao descobrir seu risco de ser usado como arma, se torna um alvo a ser salvo por Jane e Sabina. Ella Balinska faz uma impressionante estreia. Imponente, não só é dona das melhores cenas de ação como mostra camadas atrás da frieza calculada de sua personagem. Entretanto, o show mesmo é de Kristen Stewart. Encaixando como uma luva num papel com abordagem mais cômica, ela conquista o público com charme, obstinação e assertividade, entregando suas falas com tamanha sagacidade na voz que rouba todos os momentos em que aparece. Sabina tem personalidade bastante ímpar e a atriz a abraça sem cair no caricato.

Há também um impressionante time de atores coadjuvantes, a começar pelos Bosleys Djimon Hounsou e Patrick Stewart – este solto e à vontade mostrando um lado seu que não costuma aparecer em seus papéis. Noah Centineo traz seu carisma de menino acessível e contrasta com Sam Claflin, com pose de galã no papel de CEO da empresa de Elena. Luis Gerardo Méndez se mostra uma adição bem-vinda ao lore da franquia, tanto como ator quanto como personagem, gerando momentos humorísticos que podem render boas cenas em futuras sequências. O elenco se completa com Jonathan Tucker, assassino calado e ameaçador. Nem todos tem um texto bem polido, mas são presenças marcantes no longa.

Apesar das falhas do roteiro, as atrizes brilham e conquistam a plateia. O filme está totalmente ciente da abordagem brega e absurda da franquia, sendo assim um bom sinal. Ao trazer elementos de obras anteriores, “As Panteras” conquista fãs das antigas e expande o universo. O resultado se torna, então, uma celebração de incríveis personagens femininas que, há décadas, empoderam e levam mulheres a se sentirem melhores consigo.

Bruno Passos
@passosnerds

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As Panteras (2019)

Charlie's Angels - Elizabeth Banks

Elizabeth Banks dirige a nova geração de Panteras – Kristen Stewart, Naomi Scott e Ella Balinska – a serviço do misterioso Charles Townsend. As Panteras sempre proveram segurança e suas habilidades de investigação para clientes particulares, e agora a agência Townsend tem atuação internacional: as mais espertas, destemidas e altamente treinadas agentes em todo o globo formam múltiplos times de Panteras guiados por múltiplos Bosleys e estão prontas para atuar nos trabalhos mais difíceis ao redor do mundo. Quando um jovem engenheiro de sistemas soa o alarme a respeito de uma perigosa tecnologia; as Panteras são chamadas à ação, e colocam suas vidas em risco para nos proteger a todos.

Roteiro: Elizabeth Banks

Elenco: Kristen Stewart, Naomi Scott, Ella Balinska, Elizabeth Banks, Patrick Stewart, Djimon Hounsou, Sam Claflin, Jonathan Tucker, Nat Faxon, Chris Pang, Luis Gerardo Méndez, Noah Centineo, David Schütter, Hannah Hoekstra, Murali Perumal, Michael Strahan, Neil Malik Abdullah, Nick Dong-Sik, Dennenesch Zoudé, Robert Clotworthy

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