Cinema com Rapadura

Críticas   segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Brinquedo Assassino (2019): um remake diferente do esperado

Regravação do clássico filme de 1988 atualiza o boneco Chucky ao mundo da Internet e ousa modificar a essência do original.

Para saber quem é Chucky, não é preciso ver nenhum dos sete filmes anteriores da franquia “Brinquedo Assassino”. O serial killer com senso de humor peculiar e encarnado no corpo do assustador boneco é um ícone da cultura pop. Trinta anos após o lançamento do original no Brasil, uma regravação chega aos cinemas com mais mudanças do que se esperaria de um remake. Na era da “Internet das Coisas”, com mais e mais eletrônicos interconectados pela rede, o gênero do terror faz seu papel de atualizar os medos da sociedade pós-moderna. Chucky não tem mais alma humana, mas vem com um núcleo de inteligência artificial capaz de aprender lições bastante perversas.

Superficialmente, o filme de 2019 traz os mesmos cenários e arquétipos da obra de 1988. Karen (Aubrey Plaza, da série “Parks and Recreation”) trabalha numa loja de departamentos em Chicago e é mãe solteira do menino Andy Barclay (Gabriel Bateman, “Quando as Luzes se Apagam”). Com dificuldades financeiras e uma recente mudança de apartamento, Karen tenta compensar a ausência presenteando Andy com o boneco da moda, sem saber que a versão que foi parar em suas mãos recebeu um “upgrade especial”. A partir daqui, os realizadores buscaram se distanciar do original, transformando a história em uma sátira pessimista quanto à invasão dos eletrônicos inteligentes.

O terror pela ameaça tecnológica nessa regravação é maior que o clássico medo de bonecos, quase como em um episódio da série “Black Mirror” se não fosse pela mistura de tantos tons diferentes. O personagem de Andy agora é mais velho, pré-adolescente. Seus amigos coadjuvantes trazem um clima mais leve e cômico, incluindo a figura do policial, interpretado aqui por Brian Tyree Henry (“Homem-Aranha: No Aranhaverso”). Aos poucos a franquia já havia abraçado o humor mórbido, especialmente a partir de “A Noiva de Chucky”, muito graças à voz original de Brad Dourif, mas bem substituída aqui pela de Mark Hamill (“Star Wars: Os Últimos Jedi”). A voz do eterno Skywalker de “Guerra nas Estrelas” traz personalidade ao brinquedo com uma sonsidão perturbadora, alertando que os dois Chuckies, novo e antigo, são essencialmente dois personagens distintos. Enquanto o de Dourif era raivoso e psicopata, o de Hamill é uma entidade “recém-nascida” que ainda está aprendendo a interagir com humanos, como uma criança que só quer brincar ou um pet ansioso para agradar seu dono. É nesse ponto que a inteligência artificial é colocada como um perigo, uma vez que as lições erradas podem ser aprendidas (como na sequência em que Andy se diverte assistindo a “O Massacre da Serra Elétrica 2” na televisão – um perturbador exemplo do efeito Kuleshov na “educação” do boneco).

Há uma inesperada e inegável inspiração para a trama deste “Brinquedo Assassino”: “E.T. – O Extraterrestre”. Mais que as referências explícitas por um pôster no quarto de Andy e o dedo de Chucky que acende como o de E.T., o boneco aprende sobre os humanos com a mesma inocência inicial do alienígena e através da TV. Por sua vez, Andy se une aos novos amigos adolescentes como o menino Elliott de Spielberg, compartilhando inclusive o mesmo casaco vermelho como figurino, só que dessa vez não é para salvar o forasteiro. A relação entre Andy e Chucky não demora para se tornar violenta e abusiva. Quando o garoto se dá conta do perigo, não há opção senão frustrar a amizade com o brinquedo. O diretor Lars Klevberg (“Polaroid – Morte Instantânea”) chega a brincar com a perspectiva magoada de Chucky para justificar a revolta de quem não aceita o término de um relacionamento. Enquanto o perverso vilão de 1988 queria retornar a um corpo humano como motivação, o de 2019 realmente só quer um amigo. Neste aspecto, o remake ganha ares de filme de “stalker”, como “Louca Obsessão” e “Cabo do Medo”.

Quanto à recriação física do boneco, foram mantidas as características mecânicas do original, mas incrivelmente faltam movimentação e expressão para reproduzir a mesma ameaça bizarra. Apesar de ter mais recursos tecnológicos, o caçula parece inofensivo ao lado do Chucky dos filmes anteriores. No entanto, além de fazerem algumas homenagens aos ataques do assassino de 1988 para agradar os fãs, a preferência pelas facas e serras ainda está lá, apesar de drones e carros autônomos fazerem parte do novo arsenal eletrônico sem inspiração. No quesito diversão e gore, até a franquia concorrente e mais humilde “Puppet Master – O Mestre dos Brinquedos” fez algo semelhante melhor no contemporâneo rebootPuppet Master: The Littlest Reich”.

Executar essa mistura de thriller juvenil, humor sombrio, referências e crítica social, e ainda tentar manter a essência da mais famosa obra de terror do tipo “bonecos arrepiantes”, é um objetivo ousado, um trabalho muito difícil de fazer. Dessa forma, o resultado morno dessa regravação é até positivo dada a dificuldade do desafio. Insatisfeitos por não terem sido envolvidos neste novo “Brinquedo Assassino”, os realizadores da franquia original não abandonaram o velho ruivinho e, independente dos rumos deste remake, novas futuras produções podem trazer o personagem clássico para alegrar quem não gostar do jovem Chucky 2.0.

 

 

William Sousa
@williamsousa

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Brinquedo Assassino (2019)

Child's Play - Lars Klevberg

Um boneco altamente tecnológico adentra a vida de um grupo de crianças. Mal sabem elas que o boneco está amaldiçoado e vai trazer todo tipo de horror para o dia a dia delas. Reboot de Brinquedo Assassino.

Roteiro: Tyler Burton Smith

Elenco: Mark Hamill, Aubrey Plaza, Brian Tyree Henry, Gabriel Bateman, David Lewis, Ty Consiglio, Beatrice Kitsos, Hannah Drew, Kristin York, Carlease Burke, Veenu Sandhu, Nicole Anthony, Amber Taylor, Ben Andrusco-Daon, Zahra Anderson, Johnson Phan, Marlon Kazadi, Michael Bardach, Amro Majzoub, Kenneth Tynan

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