Cinema com Rapadura

Críticas   segunda-feira, 01 de julho de 2019

O Olho e a Faca (2018): o desenraizamento

História conduzida pelo talentoso Paulo Sacramento nos leva por uma jornada metafórica entre o mar e a terra para falar de solidão e pertencimento.

Roberto (Rodrigo Lombardi, “Os Amigos”) trabalha em uma plataforma de petróleo a quilômetros da costa e de sua família. Ao ser promovido a diretor de operações à custa do cargo de um antigo colega, ele vê a harmonia de sua vida pessoal e profissional se dissolverem, trazendo de volta antigos fantasmas. “O Olho e a Faca“, de Paulo Sacramento (“Riocorrente”), parte de uma trama simples e nos entrega uma impactante experiência visual e cognitiva, cheia das convulsões e estremecimentos de um personagem em crise existencial que parece ressoar os males emocionais de nossos tempos, do individualismo à solidão.

Explorando ao máximo a narrativa enxuta, com poucos personagens e arcos dramáticos, Sacramento valoriza sabiamente o que seu filme tem de mais interessante, que é a possibilidade de filmar em uma plataforma de petróleo em funcionamento. A equipe de filmagem ficou embarcada por cerca de 14 dias. Desse modo, grande parte foi gravada ao longo das duas semanas. Mesmo com o tempo curto, a direção soube captar sequências esteticamente muito atrativas, que exploram ao máximo as cores, ângulos, avisos sonoros e alertas que compõem aquele ambiente de alta periculosidade. Os atores desse núcleo, como Lombardi, Roberto Birindelli (“Boi Neon”) e outros, parecem muito à vontade nos espaços da plataforma e exalam uma espontânea camaradagem que é fundamental para dar credibilidade à virada do ato seguinte, em que tudo isso será rapidamente pulverizado.

A loucura que acometerá Roberto por culpa, luto e insatisfação com a vida pouco a pouco desfaz a base sobre a qual esse homem assenta sua vida, da bela casa em que vive com a mulher (Maria Luísa Mendonça, “O Homem do Futuro”) e os dois filhos em São Paulo, ao apartamento que mantém no Rio com sua amante (Débora Nascimento, “Uma Viagem Inesperada”). Explorando sua vida pessoal como espécie de “preenchimento” entre os períodos em que vive embarcado, a perda do emprego faz com que aquele outrora promissor engenheiro mergulhe em uma espiral insana e se torne uma espécie de andarilho enlouquecido, a esmo pelas calçadas de Copacabana, sendo atormentado por alucinações da plataforma e por um corvo maldito à la Edgar Allan Poe.

O uso da direção de arte com elementos visuais e simbólicos, como o corvo ou o fantasma de um antigo companheiro de plataforma morto em uma acidente, vivido por Caco Ciocler (“Olga”), dá paulatinamente à narrativa tons de fantasia. Oferecendo bons e pontuais efeitos digitais, os planos mais inspirados de Sacramento por vezes lembram os de David Lynch em seus momentos mais surreais, outras vezes algo como Alfred Hitchcock em “Os Pássaros” de 1963. Ainda que nem todas as suas metáforas fiquem bem explicadas, é rara uma direção tão interessada em inovar, sem parecer pretensiosa, em uma produção brasileira. O roteiro, escrito por Paulo com Eduardo Benaim (“Quanto vale ou é por quilo?”), também não fica atrás em escalar de forma cada vez mais intensa rumo a um final imprevisível e surpreendente, que não deixa de agradar, mesmo não sendo convencional. Em todos os sentidos esse filme poderia ser banal, mas felizmente escolhe não o ser.

As visões espetaculares que Roberto tem da plataforma a poucos metros da orla da praia, parecem reforçar seu desenraizamento. A certa altura, ele vai a um oftalmologista a fim de conseguir uma licença para que não tenha que trabalhar: “Eu não posso voltar para plataforma, doutor. Eu preciso ficar um pouco em terra”, diz o personagem angustiado. Assim, a plataforma de petróleo torna-se metáfora Dessa perda estrutural, que pouco a pouco o desconecta dos seus, desde o pai, com quem ele parece não falar há tempos, até a família, que perde aos poucos até restar apenas uma casa vazia. Olhando pela varanda de sua casa vazia, Roberto alucina com o alto mar, encarando o vazio, o nada.

Nesse sentido, a madeira é um elemento que se contrapõe à fluidez e à instabilidade da água sobre a qual Roberto assentara toda sua vida. Isso porque seu pai, descobre-se, era marceneiro, trazendo à história uma série de objetos cênicos em madeira que aludem à estabilidade e à precisão que o protagonista parece perseguir a todo custo. Em uma das cenas finais, porém, temos um belo solilóquio de Ciocler, que surge como especie de fantasma de Banquo a assombrar esse Macbeth tropical, ensinando-o que a estabilidade e o controle são ilusórios. De forma paulatina e dolorosa, Roberto parece aprender a olhar as coisas sob uma nova perspectiva, descobrindo que, por mais improvável que seja, a vida consegue se sustentar sobre um perpétuo desequilíbrio.

Vinícius Volcof
@volcof

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O Olho e a Faca (2018)

O Olho e a Faca - Paulo Sacramento

Em uma plataforma de petróleo, um grupo de amigos se mantem unido como forma de aliviar as dificuldades enfrentadas pelo isolamento imposto àqueles que trabalham e vivem em alto-mar. Uma promoção desencadeia acontecimentos que desestruturam de maneira irreversível a amizade do grupo e a própria vida em terra de Roberto, o protagonista do filme. Ele é posto à prova pela força do destino e vivencia o drama de um homem comum frente a um gradual processo de isolamento.

Roteiro: Paulo Sacramento, Eduardo Benain

Elenco: Rodrigo Lombardi, Maria Luísa Mendonça, Simone Iliescu, Roberto Audio, Genézio de Barros, Esther Góes, Lourinelson Vladmir, Roberto Birindelli, Caco Ciocler, Vinicius Zinn, Luís Melo, Esther Góes, Débora Nascimento

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