Cinema com Rapadura

Críticas   segunda-feira, 06 de maio de 2019

Maus Momentos no Hotel Royale (2018): neo noir tarantinesco

Em seu segundo longa, Drew Goddard diverte com um ótimo elenco e fortalece sua voz autoral mesmo com um filme aos moldes violentos de Quentin Tarantino.

No El Royale, um espaçoso hotel situado exatamente sobre a fronteira entre os estados Califórnia e Nevada, problemas estão por acontecer. A obra escrita e dirigida por Drew Goddard (“O Segredo da Cabana”) é um neo noir com tons tarantinescos de violência e divertidas atuações. Ao se passar em 1969 nessa área do sudoeste norte-americano, o filme traz um ótimo design de produção para reproduzir a época, perfeito para favorecer os olhos em compensação ao ritmo peculiar da história. Em “Maus Momentos No Hotel Royale”, todos os personagens têm algo a esconder e nada é exatamente o que parece ser.

Em um curto prelúdio, Drew apresenta os principais elementos do longa. Uma lente ampla para capturar a arte e a iluminação dos largos ambientes, permitindo que os atores se movimentem livremente pelas cenas como em palcos de teatro. Com poucos personagens e na perspectiva do espectador, é como se estivéssemos assistindo a uma peça se desenrolar. A música diegética, que faz parte da própria ação do filme, tem uma função maior que pontuar o espírito da produção. E a violência, quase sempre inesperada, faz manchar os ricos cenários de sangue. Uma mala escondida no chão de um dos quartos do El Royale anos antes da chegada dos protagonistas no hotel é tudo que precisamos saber de início.

Falando nos protagonistas, as estrelas regentes do conflito são os quatro misteriosos e “inofensivos” hóspedes que chegam quase ao mesmo tempo no vazio estabelecimento: Jeff Bridges (“A Qualquer Custo”), como o simpático padre Flynn; Cynthia Erivo (“As Viúvas”), interpretando a talentosa cantora Darlene; Jon Hamm (“Em Ritmo de Fuga”), um tagarela vendedor; e Dakota Johnson (“Suspiria – A Dança do Medo”), uma hippie sem paciência para papo furado. Completando o elenco principal, o El Royale é cuidado pelo jovem atendente Miles (Lewis Pullman, “A Rota Selvagem”), e talvez mais um ou outro personagem ainda apareçam por lá.

Uma comparação com “Os Oito Odiados” de Quentin Tarantino é inevitável. São semelhantes os cenários amplos, a fotografia cuidadosa, o uso de cartazes pontuando os capítulos, a escalada de violência e o jogo dos atores em número relativamente pequeno, que inclui até a aparição de um bonitão famoso a partir de certo momento do filme. A diferença é que o marketing de “Maus Momentos No Hotel Royale” não liga para spoiler e faz questão que todos saibam que Chris Hemsworth (“Vingadores: Ultimato”) está no longa. Um outro ponto em comum com a filmografia de Tarantino está no uso das canções como parte da narrativa. Rádios e jukeboxes são objetos ativos tocando músicas dos anos 1950 e 60. Além disso, é interessante saber que Cynthia Erivo cantou de verdade nas gravações das cenas em que Darlene mostra o potencial de sua voz.

Sobre sua estrutura e ritmo, é preciso pontuar que a história se desenrola com tranquilidade, favorecendo os diálogos e a apreciação do cenário construído e fotografado com delicadeza. Isso pode ser visto como um fator negativo para alguns, que esperariam um andamento mais acelerado para um thriller, ainda mais com um elenco contado nos dedos. Porém, as ágeis cenas de flashback, inseridas para contar algo sobre o passado dos personagens, e os momentos de clímax das sequências indicam que a montagem do filme foi feita de forma bem calculada. Mesmo que não funcione como esperado, ela é resultado de escolhas conscientes.

Como roteirista, Drew Goddard já possui uma carreira respeitável recheada de sucessos passeando por diversos gêneros no cinema e na TV. Este é somente seu segundo longa-metragem como diretor e seu domínio artístico como exercício autoral é marcante. Se assemelhar aqui com o venerado Tarantino não é menos que um elogio. Com uma proposta cool e uma narrativa inclinada para gerar interesse pelo mistério, ele entrega uma obra divertida, mas para ser consumida sem pressa. A todo o instante o espectador é desafiado a refletir sobre as intenções dos personagens e a acompanhar a história sem tirar conclusões precipitadas. O tom é bem definido desde as primeiras cenas, então caso o ritmo não lhe agrade, é permitido abandonar o filme sem esperar que as viradas do roteiro compensem o tempo investido. “Maus Momentos No Hotel Royale” é um daqueles jantares para se comer com gosto e calma.

William Sousa
@williamsousa

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Maus Momentos no Hotel Royale (2018)

Bad Times at the El Royale - Drew Goddard

Década de 1960, sete desconhecidos se encontram no El Royale, um hotel degradado perto de Lake Tahoe, Califórnia. Cada um deles tem um segredo obscuro e precisa encontrar redenção durante a noite... antes que tudo vá para o inferno.

Roteiro: Drew Goddard

Elenco: Jeff Bridges, Cynthia Erivo, Dakota Johnson, Jon Hamm, Chris Hemsworth, Cailee Spaeny, Lewis Pullman, Nick Offerman, Xavier Dolan, Shea Whigham, Mark O'Brien, Charles Halford, Jim O'Heir, Gerry Nairn, Alvina August, London Morrison, Bethany Brown, Rebecca Toolan, Hannah Zirke, Billy Wickman

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