Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quinta-feira, 21 de março de 2019

Um Ato de Esperança (2019): história polêmica e personagens marcantes

Emma Thompson rouba a cena em um “drama de tribunal” que discute liberdade e religião.

Há filmes que marcam pela assinatura do diretor, outros pela história emocionante, e ainda aqueles nos quais a presença de um ator ou atriz é o grande destaque. “Um Ato de Esperança”, dirigido por Richard Eyre (“Notas Sobre um Escândalo”), faz parte do terceiro grupo, com Emma Thompson, mais uma vez, inspiradíssima no papel da juíza Fiona Maye, que tem o estranho hábito de lidar com casos delicados, acompanhados de perto pela imprensa e com grande impacto nas vidas de todos os envolvidos.

Não demora muito e a juíza se torna a responsável pelo julgamento do processo envolvendo o jovem Adam Henry (muito bem interpretado pelo promissor Fionn Whitehead, de “Dunkirk”). O garoto de 16 anos sofre de leucemia, uma espécie de câncer que afeta a produção comum das células sanguíneas, e terá mais chances de melhorar e combater a doença se for submetido a transfusões de sangue. Não haveria impasse algum, não fossem ele e seus pais Testemunhas de Jeová, religião na qual diversos praticantes consideram proibida a mistura de sangue.

O hospital, pela figura do médico responsável e parte da equipe técnica, está disposto a realizar todos os procedimentos necessários que possam contribuir para a melhora de Henry. Em oposição, colocando os preceitos religiosos em primeiro lugar, estão os pais do garoto, os membros da igreja, e o próprio Henry, cientes e de acordo com as implicações que a recusa da transfusão podem acarretar: invalidez ou, até mesmo, a morte. No meio dessa problemática está Fiona Maye, incumbida de bater o martelo e tomar a complicada decisão.

Como se não bastasse o peso da responsabilidade que a juíza tem sobre os seus ombros, seu marido Jack Maye, vivido pelo sempre elegante Stanley Tucci (“Transformers: O Último Cavaleiro”) em um trabalho pontual e precioso, pede maior presença da esposa e ameaça o casamento de ambos indicando que pretende ter um “caso” com uma colega de trabalho muito mais jovem que ele.

A mistura dos dramas pessoais e profissionais na vida da experiente juíza em “Um Ato de Esperança” são baseados em um livro com mesmo nome, escrito originalmente e adaptado para o cinema por Ian McEwan (escritor de “Desejo e Reparação” e roteirista de “O Anjo Malvado”). O autor traduz razoavelmente bem o conceito da “dupla jornada” tão comum às mulheres que acumulam funções e tendo de lidar com suas atribuições profissionais e realizar tarefas domésticas sem a divisão com seus pares. Aqui, isso é representado pela responsabilidade que Maye carrega na manutenção do matrimônio, provocando um grande desgaste físico e emocional para a personagem e para as mulheres em geral.

“Um Ato de Esperança” é focado na personagem de Thompson, que entrega seus sentimentos de maneira minimalista a maior parte do filme, como boa londrina, sem ser fria ou distante. Muito pelo contrário, na sutileza das pequenas expressões faciais, no refinamento de seu andar e das suas gesticulações, a atriz consegue expor o claro posicionamento da juíza frente aos processos os quais ela é responsável. É quase como se ela flutuasse pelos corredores da corte de Londres, de sua casa ou das ruas cinzentas, totalmente confortável em ser o destaque e estabelecer uma presença marcante.

É interessante notar como este drama dialoga com “A Esposa”, apresentando mulheres mais velhas do que o típico filme hollywoodiano costuma mostrar em papel de destaque, e enaltecendo o charme e a beleza da maturidade. Uma mudança bem-vinda e que mostra uma tendência de que outras grandes atuações de veteranas saiam futuramente.

Uma pena que nem todo o material do longa acompanhe a qualidade do desempenho da protagonista ou do elenco principal. A montagem, por exemplo, é corriqueira, para não dizer insossa. Figurinos, design de produção e fotografia não apresentam chamariz algum e ficam apagados no longa, fora o uso pontual de um sobretudo que simula a roupa dos juízes da corte em determinada cena.

Até mesmo o diretor e o roteirista, profissionais gabaritados, não realizaram um desfecho satisfatório e tomaram decisões que podem ser tidas como clichês ou, pelo menos, desconectadas do restante da obra. Contudo, “Um Ato de Esperança” não perde o brilho das performances dos atores e ótimos diálogos e monólogos presentes ao longo do filme.

Hiago Leal
@rapadura

Compartilhe