Cinema com Rapadura

Críticas   segunda-feira, 11 de março de 2019

Capitã Marvel (2019): a mulher pelos olhos de uma mulher

Primeiro filme solo de uma heroína da Marvel acerta em cheio ao contar a história de Carol Danvers descobrindo quem verdadeiramente é sem artifícios ultrapassados usados em longas sobre protagonistas femininas.

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado, que qualificam de feminino”. Esta é a célebre citação, na íntegra, da filósofa existencialista Simone de Beauvoir, imortalizada logo no início do segundo volume de sua obra mais famosa, “O Segundo Sexo”. O pensamento, também, é a força motriz de “Capitã Marvel”.

No início, Brie Larson é Vers, uma poderosa alienígena da raça Kree, mas que nunca soube mensurar, exatamente, a dimensão de sua força. Ela só sabe que precisa controlá-la para ser uma guerreira digna. Pelo menos é o que todos dizem a ela. Após escapar de uma emboscada armada pelos Skrulls, ela cai na terra, nos Estados Unidos dos anos 1990. Ali, descobre que Vers, talvez, não corresponda nem a metade da pessoa que ela é de verdade.

“Capitã Marvel” não vai te dar os clichês do protagonista alienígena ou forasteiro tentando entender como a Terra e seus costumes funcionam, e não vai te dar um interesse amoroso pelo qual torcer para que fiquem juntos no final. Este também não é um filme de origem tradicional do Marvel Studios – o que talvez seja o motivo que tenha irritado tantos fãs. Enquanto nos acostumamos a ver e torcer por heróis que sabiam quem eram e foram agentes ativos em sua transformação para suas personas de super-heróis, Vers se questiona até sobre sua identidade: ela é uma alienígena guerreira ou uma pilota da Força Aérea chamada Carol Danvers? Ela pode ser ambos? Uma de suas facetas tem que morrer para que ela possa viver?

E se o devir feminino, como coloca Beauvoir, vem do conjunto da civilização no qual a mulher se insere, em qual civilização ela deve se basear? E aí entra o trabalho de Brie Larson enquanto Capitã Marvel. Acostumada a filmes dramáticos e com um Oscar na mão por “O Quarto de Jack”, aqui, Larson encontra espaço para sair de sua zona de conforto e também pôr em prática sua expertise em interpretar mulheres complicadas. E sua Carol Danvers encontra o devir feminino na relação com a melhor amiga, Maria Rambeau (Lashana Lynch): mulher negra, pilota, mãe solo e que, mesmo distante de Carol, cultiva um amor sincero e admirável. O cinema ainda carece de histórias de amizades sinceras e puras entre mulheres, sobre uma incentivar a outra a ser sua melhor versão.

As palavras mais comuns a ser associadas com “Capitã Marvel” são “representatividade” e “empoderamento”. Ambos os conceitos possuem limitações: representatividade e empoderamento são bons, mas nem só de mulheres indestrutíveis se faz história. Para além da necessidade de ver mais protagonistas femininas no cinema, é preciso também uma diversidade de narrativas. A título de comparação, “Mulher-Maravilha” nos trouxe uma heroína forte, segura de si, com um senso de justiça implacável. E foi importantíssimo, tanto para o universo cinematográfico ao qual pertence quanto para as gerações de meninas que puderam, enfim, se sentirem fortes e incríveis em uma sala de cinema.

“Capitã Marvel” vem para continuar a saga de representatividade, ainda que com um considerável atraso por parte do estúdio. Ele chega para subverter o empoderamento: se nos acostumamos a ver este conceito como sinônimo de dar poder a alguém, especialmente à minorias, o filme da heroína mais poderosa do Universo Cinematográfico da Marvel mostra que “empoderamento” é descobrir a própria força por si só, e não deixar que influências externas limitem seu potencial. O MCU é repleto de filmes de origem sobre homens que tiveram seus poderes dados a eles, seja por destino ou dinheiro. Já a história da capitã se compara à de diversas mulheres brilhantes, que tiveram sua capacidade e vontade tolhidas por terceiros, normalmente homens, por conta de seu gênero; que ouviram a vida toda como permitir-se ser vulnerável é sinal de inferioridade.

No fim, este não é um filme de origem de super-herói. Não da forma que fomos condicionados a ver até então, pelo menos. A Capitã Marvel é uma heroína, mas sua jornada não se limita a isso. Ser mulher é muito mais. É a personificação do pensamento de Simone de Beauvoir, a origem de alguém tentando entender quem ela é no universo e no seu próprio eixo, alheia à impressão que os outros têm de sua pessoa, com um roteiro despido da vergonha de aderir ao discurso e sem medo de contar uma história que, pelo menos uma vez, não seja sobre o papel do homem na descoberta da força dessa figura feminina.

Jacqueline Elise
@jacquelinelise

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Capitã Marvel (2019)

Captain Marvel - Anna Boden e Ryan Fleck

A história segue Carol Danvers e como ela se torna um dos heróis mais poderosos do universo quando a Terra é pega no meio de uma guerra galáctica entre duas raças alienígenas. Situado na década de 1990, Capitã Marvel é uma nova aventura de um período inédito na história do universo cinematográfico da Marvel.

Roteiro: Geneva Robertson-Dworet, Ryan Fleck

Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Jude Law, Ben Mendelsohn, Annette Bening, Lashana Lynch, Gemma Chan, Clark Gregg, Lee Pace, Djimon Hounsou, Algenis Perez Soto, Rune Temte, Chuku Modu, Matthew Maher, Akira Akbar, Kenneth Mitchell, Mckenna Grace, London Fuller, Colin Ford, Pete Ploszek

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