Cinema com Rapadura

Críticas   quarta-feira, 13 de março de 2019

One Day at a Time (Netflix, 3ª Temporada): respeito é bom e todo mundo gosta [SÉRIE]

Série da Netflix sobre a família de origem cubana Alvarez mergulha em assuntos difíceis sem medo de defender que respeito e aceitação é o básico com que os seres humanos deveriam se tratar. Mesmo discorrendo sobre temas espinhosos, o excelente elenco e o bom roteiro entregam uma obra divertida e engraçada.

Homofobia, transtorno de estresse pós-traumático, posse de armas, xenofobia, alcoolismo, uso de drogas, machismo, assédio, divisão de classes sociais, depressão, ansiedade. Estes e outros temas importantes e difíceis são tratados na sitcom One Day at a Time”, produzida pela Netflix. Em sua terceira temporada, a série continua mostrando a incrível capacidade de tratar de temas sérios sem perder o teor cômico, que é sua proposta, tornando-se uma obra de extrema relevância para o início do século XXI.

Criada por Gloria Calderon Kellett e Mike Royce a partir da série original homônima de Norman Lear (que faz parte do time de produção), temos a história da família de origem cubana Alvarez, composta por Penelope (Justina Machado, de “Uma Noite de Crime: Anarquia”), sua mãe Lydia (Rita Moreno, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Amor, Sublime Amor”) e seus dois filhos adolescentes, Alex (Marcel Ruiz, de “Superação – O Milagre da Fé”) e Elena (Isabella Gomez). Penelope é veterana da guerra do Iraque e lida com depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático. Nesta temporada, ela está se preparando para a prova de enfermeira enquanto lida com seus problemas psicológicos, sua filha iniciando a vida sexual e seu filho experimentando maconha. De novo, é impressionante ler essa lista de temas e saber que a série consegue tratar deles com a profundidade e respeito necessários enquanto mantém a comédia gostosa e fluída. Machado domina seu papel com facilidade e entrega uma personagem divertida e dedicada à família, e transita muito bem desses elementos para momentos de tristeza e preocupação. A conexão da plateia com Penelope funciona em várias camadas.

Desde a primeira temporada, há o formato clássico de sitcoms, com várias câmeras em volta de um cenário onde tudo é filmado em frente a uma plateia que reage e ri das situações. As risadas são audíveis e acentuam momentos engraçados ou as aparições energéticas de Lydia, que sempre sai de seu quarto com estilo e entusiasmo. O formato pode ser conhecido, mas nada batido, pois a série se eleva ao conseguir o equilíbrio entre leveza e seriedade a que se propõe desde o piloto. Além do mais, há tentativas de explorar algumas técnicas diferentes do molde costumeiro desse estilo de programa. Nesta temporada temos o uso de fotografia preta e branca somada a uma brusca edição nas cenas em que alguém tem um ataque de ansiedade, o que aliado às boas interpretações do elenco e a um texto preciso, consegue com louvor a empatia do público.

Há de se mencionar também como a série consegue manter um fluxo narrativo que evolui seus personagens com a passagem do tempo. Assistir os episódios em sequência é uma experiência mais recompensadora do que vê-los esporadicamente. Muitas sitcoms lidam com seus intérpretes como pessoas imutáveis, fazendo piada com seus traços de personalidade, o que não é necessariamente ruim, mas torna desnecessário o exercício de, por exemplo, maratona-las. Já em “One Day at a Time”, a sensação de estar acompanhando histórias críveis de pessoas reais é palpável e, com isso, é mais fácil se relacionar com suas jornadas.

Por momentos, a série exagera um pouco, principalmente na personagem de Gomez. O relacionamento de Elena com Syd (Sheridan Pierce), se é tratado com maturidade, por vezes transforma as personagens em avatares da militância LGBTQIA. Não é que a mensagem deixe de ser importante (afinal, qualquer ideia de respeito e aceitação é, no mínimo, básica), mas quando o roteiro perde o equilíbrio entre transmiti-la e representar pessoas reais passando por momentos íntimos, ele deixa de ter seres verossímeis na tela, que poderiam realmente gerar uma conexão com o espectador. De qualquer forma, os acertos felizmente têm bem mais peso e ajudam a série a alcançar um de seus objetivos ao contar histórias de pessoas dessa comunidade e, assim, tornando a obra algo mais encorpado e representativo do mundo em que vivemos, onde há gente passando pelas mesmas dificuldades e dilemas.

Esta temporada também dá mais destaque ao vizinho Schneider (Todd Grinnell, de “Histeria”). Além do divertido pateta que sempre foi, aqui a série aborda seu alcoolismo a fundo, revelando camadas que antes eram superficiais. Sua relação com o pai e com Penelope trazem nuances bem vindas a um personagem que cresce e deixa de ser exclusivamente uma escada para os outros. Para mérito de Grinnell, ele abraça os novos elementos de seu personagem sem perder a identidade do mesmo. E a cena em que Alex encontra Schneider na lavanderia é prova do equilíbrio entre gravidade e delicadeza que faz com que esta série mereça destaque.

Com um primeiro episódio que tem ótimas participações de Gloria Estefan (que canta o delicioso tema de abertura) e da dupla Stephanie Beatriz e Melissa Fumero (ambas de “Brooklyn 99”), a temporada inicia com vigor as discussões sinceras a que se propõe, e se há momentos em que as resoluções e maturidade pareçam vir rápidas demais, “One Day at a Time” é uma série com coração, que cativa por sua ótima comédia e seus temas relevantes e valiosos.

Bruno Passos
@macacaosapao

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One Day at a Time (Netflix, 3ª Temporada)

- Criadores: Gloria Calderon Kellett, Mike Royce

Uma família americana com raízes próximas em Cuba, composta por uma mãe recém-divorciada e ex-militar que precisa criar sua filha adolescente e o filho mais jovem, com a ajuda de sua mãe, uma cubana conservadora, e seu amigo Schneider.

Roteiro: Whitney Blake, Allan Manings, Norman Lear, Gloria Calderón Kellett, Mike Royce

Elenco: Justina Machado, Rita Moreno, Todd Grinnell, Gloria Estefan, Isabella Gomez, Marcel Ruiz, Stephen Tobolowsky, Sheridan Pierce

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