Cinema com Rapadura

OPINIÃO   segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Tito e os Pássaros (2019): lute contra qualquer medo

A mais nova comprovação do sucesso das animações brasileiras, "Tito e os Pássaros" tem a beleza visual e o poder de uma narrativa simples para agradar a qualquer idade.

As animações brasileiras ainda são filmes a serem descobertos e mais valorizados pelo público em geral. “Uma História de Amor e Fúria” e “O Menino e o Mundo” são exemplos recentes de maior sucesso conseguido internacionalmente do que em seu próprio território de origem. Tentando desbravar um mercado ainda tortuoso está “Tito e os Pássaros“, nova animação nacional a estrear no circuito comercial. O tema e a estética da produção são feitos de tal forma que sua penetração junto ao público pode atingir tantos os menores quanto seus pais.

O roteiro se inicia mostrando o excêntrico cientista Rufos dedicado ao estudo da língua dos pássaros através de uma máquina construída por ele. O projeto é seriamente interrompido quando, em um acidente, uma forte explosão atinge seu filho Tito. Após o incidente, pai e filho são separados, e Tito passa a conviver apenas com a mãe Rosa, uma mulher que tenta afastar o garoto de qualquer influência ou lembrança do cientista. No momento em que um surto de medo começa a afligir a população e ameaçá-las com a paralisia corporal completa, Tito se reúne com três amigos para recomeçar a experiência de Rufos por acreditar que o canto dos pássaros pode ser a cura.

Nos primeiros minutos de projeção, a qualidade visual já salta aos olhos com a técnica de pintura a óleo inserida em alguns efeitos digitais. A animação se torna esteticamente belíssima ao parecer uma aquarela de cores, que transita pelo vermelho, azul, amarelo e verde em tons lavados, e destacar as imperfeições nos traços dos personagens. A movimentação circular dos planos para encadear diferentes sequências também é um recurso eficiente para promover a imersão no filme, as transições dentro da narrativa e a exploração ainda maior de seu visual particular. A fotografia transforma, então, cada imagem em um quadro pintado para expressar o lirismo de momentos-chave ou a aflição das passagens assustadoras.

Esses momentos tenebrosos não se referem apenas ao tema do medo, mas também à construção visual: boa parte das estratégias utilizadas remetem à arte expressionista, responsável pela criação de uma atmosfera de suspense e apreensão. Enquanto a epidemia se alastra, as cores da animação ganham um tom mais escuro e disforme (especialmente, o vermelho e o verde) e o design dos ambientes também é alterado para assumir composições mais perturbadoras e não realistas. As próprias imagens ganham uma forma amedrontadora ao apresentar os sintomas de distorção dos olhos, tremores e atrofiamento de membros do corpo e paralisia corporal provocados pelo surto, além de exibir os médicos com uniformes próprios para quarentena como figuras saídas de um filme de terror. Essas sensações são completadas pela trilha sonora de ruídos fortes e pulsantes que preenchem várias sequências.

Em termos temáticos, existem também muitas potencialidades na história aparentemente simples de “Tito e os Pássaros”. Não dar explicações para o início da epidemia e suas formas de contágio ajuda a sugerir diferentes modalidades de expressão do medo: podem estar relacionados à violência, a animais transmissores de doenças, a outras enfermidades em geral, a pessoas estranhas, ao desconhecido ou até mesmo ao próprio pânico instalado após a aparição das primeiras vítimas. Há duas sequências específicas que reforçam a ideia de que o temor diante de uma ameaça poderia contribuir para o crescimento do surto do medo em si: a frase de Rufos de que o medo não se passa pelo contato nem por beber no copo de outra pessoa, mas sim pelas ideias; e no arco do apresentador de programa de TV Alaor Souza, que aborda a questão de modo sensacionalista de acordo com os próprios interesses.

Mesmo com tantas qualidades, ainda se pode notar problemas durante o filme. Alguns diálogos expositivos apenas relatam, desnecessariamente, o que é visto nas imagens ou o que deveria ser contado visualmente para causar mais impacto – por exemplo, nas passagens da narração em off de Tito e nas declarações de médicos sobre o início da doença e de seu alastramento. Dentro disso, um ponto que merece menção à parte diz respeito à paranoia e ao pânico que tomam conta da cidade: o começo do processo é apenas mencionado, para só em seguida construir cenas realmente mostrando a situação. Além disso, a mixagem de som por vezes falha em sincronizar a trilha sonora aos diálogos, deixando estes quase inaudíveis em certos momentos.

Apesar dessas ligeiras deficiências, “Tito e os Pássaros” tem inúmeras virtudes que tornam a animação um belo exemplar da cinematografia recente do Brasil. Trata-se de um filme capaz de estabelecer um padrão visual deslumbrante e dramaticamente coerente, inspirar-se na arte expressionista com muita eficiência, e também desenvolver uma história repleta de mensagens e alegorias profundas. Afinal, uma obra que cative em sua estética e ainda aborde manipulação da mídia, cultura do medo, isolamento social, segregação socioespacial e o ser humano como um sujeito social, alcança um resultado muito positivo.

Ygor Pires
@YgorPiresM

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