Cinema com Rapadura

Críticas   quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

The Catcher Was a Spy (2018): segredos e decisões de Moe Berg

Filme mostra a história do jogador de beisebol que se torna espião durante uma missão americana na Segunda Guerra Mundial, na disputa pela produção da primeira bomba nuclear.

A guerra é um conflito de grandes proporções, mexe com diversas nações e suas populações, os grandes afetados de um conflito. É difícil registrar o tamanho da guerras mundiais sobre pessoas, governos e economia, dado as suas dimensões. Nesse contexto, o cinema traduz e dá luz aos mais diferentes pontos dos grandes conflitos mundiais, saindo do relato macro e toda sua grandeza, e investindo em pequenas histórias, recurso que serve como forma de contar “o todo pela parte”. Ver um filme de guerra mostrando apenas os grandes conflitos, sem apresentar todos os seus contextos, simplesmente não faria sentido. Em “The Catcher Was a Spy” (“O Apanhador Era Um Espião”, em tradução livre), vemos uma das tantas histórias que compõe um dos conflitos mais marcantes do mundo: a Segunda Guerra Mundial.

Baseado na história real do jogador de beisebol americano Morris Moe Berg, representado por Paul Rudd (“Homem-Formiga e a Vespa”), o filme dirigido pelo polonês Ben Lewin (“Tudo que Quero”) reconstrói, por meio de cenas não sequenciais, os momentos que levaram o atleta, também acadêmico conhecedor de várias línguas, a se tornar um espião americano em missão crucial durante o conflito com Hitler e seus aliados. Ainda no início, os americanos suspeitavam que a poderosa Alemanha estava desenvolvendo uma bomba atômica, quando os estudos sobre o poder nuclear começavam a ser testados. A suspeita pairava sobre o professor Werner Heisenberg (Mark Strong, “Kingsman: O Círculo Dourado”), relutante em sair do país mesmo com a ascensão de um governo nazista comandado por Hitler.

Com o Projeto Manhattan – iniciativa americana de desenvolvimento de armas nucleares – ainda em estágio inicial, era essencial impedir as nações do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), em especial os primeiros, de chegar na frente dessa disputa. Como em outras produções americanas que escolhem retratar um momento específico da guerra, o filme conta a história de Moe Berg e seus momentos-chave como decisivos para a história do conflito, trazendo o risco de uma falha na sua missão mudar a história dos Aliados (Estados Unidos, URSS e Grã-Bretanha) na batalha, acarretando em uma derrota e consequente mudança do mundo como o conhecemos.

“The Catcher Was a Spy” é um filme de personagens enigmáticos, principalmente seu protagonista. Não conseguimos saber as motivações para Moe Berg se tornar um espião, largando a carreira de sucesso no beisebol e sua companheira Estella (Sienna Miller, “Z: A Cidade Perdida”), que também não sabemos se era seu verdadeiro amor. Também não entendemos as motivações do professor Heisenberg para continuar na Alemanha durante a Segunda Guerra, mesmo após todos seus colegas terem saído do país, não concordando em trabalhar para os nazistas.

A grande questão do filme, percorrendo todo seu enredo, se resume no poder de discernimento de Moe Berg para julgar Heisenberg quanto ao seu trabalho. O espião deve discernir se o cientista planeja ajudar os nazistas na construção de uma bomba atômica, e matá-lo, caso isso se confirme, ou deixá-lo vivo para continuar seus estudos. Todo o peso da vitória, ou uma hipotética derrota americana na Segunda Guerra Mundial, cai nos ombros de Moe Berg, uma grande responsabilidade para apenas uma pessoa. Para fazer isso, o longa levanta diversos questionamentos morais: como ele vai julgar alguém, e matar apenas com base em poucos indícios? Será ele capaz de matar uma pessoa? Estará preparado para isso? Paul Rudd, mais conhecido por papéis mais extrovertidos, consegue mostrar bem esse conflito interno vivido pelo protagonista.

A construção do roteiro não linear, mostrando o caminho do jogador de beisebol até o “confronto” com Heisenberg, torna a obra atrativa e empolgante. Porém, falta juntar o relato macro com o micro, fazendo falta um contexto sobre as consequências da criação de uma bomba nuclear para a batalha e, principalmente, para os Estados Unidos. Com poucas cenas de ação e de guerra (o que necessariamente não é ruim), a ideia do filme foi mostrar a vida de mais um herói americano, alguém que ajudou o país durante o confronto, mas não foi lembrado no futuro, e nem quis isso.

“The Catcher Was a Spy” é um retrato de Moe Berg, com a Segunda Guerra Mundial e todos seus danos e contextos políticos e sociais como meros personagens coadjuvantes. Ao fazer essa escolha, o filme decide mostrar a história de um personagem da batalha, uma pessoa genial, mas não perfeita, com suas contradições e segredos. As escolhas do protagonista podem se relacionar com a guerra em todas as suas dimensões, afinal de contas, toda guerra é feita de decisões cruciais, principalmente por parte de lideranças políticas e militares. A escolha de Berg trouxe reflexos para o mundo atual, da mesma forma que a escolha de começar um conflito de proporções mundiais trouxe para a humanidade e para nossas vidas.

Filipe Scotti
@filipescotti

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The Catcher Was a Spy (2018)

The Catcher Was a Spy - Ben Lewin

O jogador de baseball da liga principal, Moe Berg (Paul Rudd), vive uma vida dupla trabalhando para a Agência de Serviços Estratégicos. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele trabalhou como oficial de inteligência, viajando em missão para diversas localidades.

Roteiro: Robert Rodat

Elenco: Paul Rudd, Mark Strong, Sienna Miller, Jeff Daniels, Guy Pearce, Paul Giamatti, Connie Nielsen, Shea Whigham, Hiroyuki Sanada, Tom Wilkinson, William Hope, Giancarlo Giannini, Pierfrancesco Favino, Anna Geislerová, Agnese Nano, Brian Caspe, Demetri Goritsas, Roy McCrerey, Susan Garibotto, Joseph Oliveira

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