Cinema com Rapadura

OPINIÃO   segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

A Felicidade Não Se Compra (1946): descobrindo as maravilhas da vida [CLÁSSICO]

Em uma das mais clássicas histórias do cinema, o diretor Frank Capra nos mostra lições preciosas, capazes de emocionar e nos fazer enxergar o melhor dentro de cada um.

O Natal é uma das datas mais importantes do ano, carregada de tradições e sentimentos de amor e fraternidade que envolvem – ou deveriam envolver – a todos. Contudo, o passar do tempo tornou este dia muito mais consumista e inautêntico, com todos os valores célebres sendo deixados de lado. É aí que entram filmes como “A Felicidade Não Se Compra”, que se passam na época natalina e trazem preciosas lições sobre o que, de fato, é importante na nossa vida.

Para isto, o diretor e brilhante contador de histórias Frank Capra (“Do Mundo Nada Se Leva”) nos mostra uma narrativa simples e cheia de sentimento. A sequência de abertura nos faz ouvir vários pensamentos e orações dos habitantes de Bedford Falls em favor de Geroge Bailey (James Stewart, “Um Corpo Que Cai”), que estaria passando por grandes dificuldades e mereceria um “milagre de Natal” por ser uma pessoa boa com todos. É visível a valorização dos princípios cristãos da data, sobretudo em uma época mais antiga (1946), onde os meios de comunicação eram muito limitados, e a propagação do comércio, menos difundida do que atualmente. Esse resgate é mais atual do que nunca, visto que independente da religião, o Natal não trata “apenas” do nascimento de Cristo, mas também fala muito de afeto, solidariedade, empatia… qualidades tão importantes de serem cultivadas, hoje e sempre.

Seguindo a narrativa, entramos em uma conversa entre anjos, onde um deles, Clarence (Henry Travers, “Rosa de Esperança”), deseja receber suas tão sonhadas asas. Para consegui-las, ele deverá realizar uma ação importante: impedir que George Bailey sacrifique seu bem mais precioso e cometa suicídio. Mas Clarence só seria capaz de tal ato se conhecesse bem a vida de seu agora protegido. A partir daí, vários episódios da vida de Bailey são mostrados – para o anjo e para nós -, desde que o personagem era criança até o fatídico dia 24 de dezembro apresentado na abertura do filme. Essa escolha, embora pareça equivocada no início por fragmentar a história de forma aparentemente desconexa, acabará fazendo sentido à medida que a obra chega em sua conclusão. Além disso, seria impossível mostrar toda a vida do personagem em tão pouco tempo. Logo, Capra selecionou o essencial para que desenvolvêssemos uma forte empatia com o personagem, interpretado de forma irrepreensível por James Stewart.

É bem verdade que o público atual (o mesmo que não entende porque os créditos iniciais da franquia “007” são tão longos e sem história) deve achar o transcorrer de “A Felicidade Não Se Compra” bastante lento. Isso se dá porque os recortes de cada flashback da história de Bailey, escolhidos cada um por apresentarem um fato específico dentro deles, são mostrados em sua totalidade. Imagine uma seleção de melhores momentos de uma partida de futebol. Quando são mostrados apenas os chutes ao gol, tudo fica mais dinâmico e você descobre o que aconteceu de mais relevante rapidamente. Porém, se você assistir um compilado com todas as jogadas que geraram os chutes ao gol desde o início, vai poder dizer que assistiu e absorveu tudo o que, na prática, importava naquela partida. É exatamente o que Capra faz aqui. Somos mostrados a tudo o que, de fato, importa na vida de Bailey, quase como observadores da formação de uma grande figura. Figura esta que personifica com perfeição todos os valores que o diretor deseja resgatar neste conto natalino.

É praticamente impossível não se afeiçoar à persona de George Bailey. Por mais maniqueísta que possa parecer, esse é precisamente o objetivo do diretor com seu filme. O protagonista é cheio de compaixão e empatia pelo próximo, e isso é mostrado desde o início da narrativa. Ele abre mão de ambições – como viajar pelo mundo – e oportunidades – como estudar em outra cidade -, sempre pensando antes no bem-estar dos próximos. E é muito poderoso observar o quanto abraçar ou não uma chance que o universo te dá (ou que você mesmo a concebeu) pode influenciar todo o restante da sua vida. George é uma pessoa claramente reprimida por nunca ter realizado seus sonhos, mas mesmo assim é capaz de encontrar a felicidade na vida que ele conseguiu construir. Nosso tempo de existência, embora infinito para nós mesmos, sempre será curto. Aproveitá-lo da melhor forma possível é quase uma obrigação inata.

Mas nem tudo são flores em Bedford Falls. Mesmo o protagonista dando tudo de si para que os habitantes da cidade possam encontrar alegria e realizar conquistas em tempos difíceis, existe sempre um fantasma ganancioso à espreita. George, em uma clara crítica ao capitalismo desalmado, é a perfeita antítese do grande antagonista da história, o Sr. Potter (o magistral Lionel Barrymore, “Paixões em Fúria”), uma mistura do mal com a frieza e pitadas de crueldade. Apesar de trabalharem no “mesmo” ramo, George é sensível e considera cada cliente seu um amigo. Enquanto Potter tem sede de lucro e poder, tratando qualquer ser humano como um meio de conseguir dinheiro e ansiando pelo domínio de toda a cidade – esbarrando em um íntegro protagonista para isto. Por isso que existe uma discrepância brutal de comportamento da população entre os momentos em que George exerce influência na cidade, em comparação aos momentos em que Potter domina (revelar mais do que isso seria um spoiler pesado).

Aliás, o que seria spoiler aqui? Afinal, “A Felicidade Não Se Compra” trata-se de um clássico da história do cinema, além de servir de influência para inúmeras outras obras que carregam o mesmo teor narrativo. Mas, mesmo a grande virada da trama sendo muitas vezes revelada até mesmo em sinopses, aqui o “mistério” será mantido, para preservar a experiência caso este seja seu primeiro contato com o filme. Muito ainda poderia ser dito (sobretudo nos aspectos técnicos), como abordar alguns planos absolutamente fantásticos como o telefonema em que George e Mary (Donna Reed, “A Um Passo da Eternidade”) atendem juntos, ou mesmo a própria sequência final, com uma mensagem enérgica de amor ao próximo. Contudo, o que é válido dizer com propriedade é que o título de filme mais inspirador da história não é em vão. Às vezes, nos vemos em situações onde desistir parece ser a única solução. Mas a resposta – mesmo neste caso “caída do céu” – estará sempre dentro de nós. Basta, como diria George Bailey, que alguém nos coloque na direção certa.

Martinho Neto
@omeninomartinho

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