Cinema com Rapadura

Críticas   segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Crônicas de Natal (Netflix, 2018): o Natal em novos tempos

O filme sabe como explorar os clichês a seu favor para construir uma narrativa envolvente. Pode não ser nem o melhor filme natalino, mas consegue atingir sua proposta de diversão com pitadas de novidade.

Filmes de Natal são lançados a todo ano com algumas convenções fundamentais para o subgênero. Em especial, a importância do espírito natalino e a jornada de personagens céticos para acreditar no que a festividade representa. Ainda que essa estrutura se repita muitas vezes, os clichês não são, necessariamente, um defeito merecedor de muitas críticas. Saber trabalhá-los ou atualizá-los, de alguma maneira, pode proporcionar um bom e simples entretenimento. É o que acontece com “Crônicas de Natal“, produção da Netflix dirigida por Clay Kaytis (“Angry Birds: O Filme”).

A abertura do longa mostra a relação da família Pierce com o Natal ao longo do tempo a partir das filmagens caseiras feitas pelo pai Doug (Oliver Hudson, da série “Splitting up Together”): a interação do casal Doug e Claire (Kimberly Williams-Paisley, de “O Pai da Noiva”) com o filho pequeno Teddy, o nascimento da filha Kate, as brincadeiras entre todos e as brigas entre os irmãos conforme envelhecem. Quando as filmagens chegam ao Natal de 2018, esse recurso demonstra suas duas funções narrativas: apresentar os personagens e a mudança de suas dinâmicas, assim como informar a morte do pai e suas consequências para a família e para as comemorações.

Em 2018, as relações conturbadas entre Teddy (Judah Lewis, de “A Babá”) e Kate (Darby Camp, de “Benji”), típicas da diferença de idade, ficam evidentes pelo trabalho dos dois atores. Teddy é um adolescente que não lida bem com a morte do pai, perdeu o encanto pelo Natal, se envolve com amizades questionáveis e provoca sua irmã o tempo todo; já Kate é uma criança ainda contagiada pela magia da época do ano, se esforça para manter as tradições da festividade e tenta ser muito próxima do irmão, apesar dos desentendimentos constantes. A relação entre eles pode não ser perfeita nem harmoniosa, porém o amor, o carinho e a preocupação recíprocos são perceptíveis – por exemplo, Kate não diz à mãe que Teddy roubou um carro com os amigos, nem ele termina a frase que diria à irmã que Papai Noel não existe.

É no dia 24 de dezembro que diversos acontecimentos inesperados transformarão a família Pierce. Teddy e Kate estão sozinhos em casa e decidem flagrar o momento exato da chegada do Papai Noel. O plano deles falha e, acidentalmente, danificam o trenó. A partir daí, os dois precisam ajudar o bom velhinho a entregar todos os presentes e a salvar o Natal. É interessante perceber como as características tradicionais dessa festa são colocadas em nosso tempo presente e relacionadas a traços marcantes da atualidade – são feitas referências orgânicas na narrativa ao Uber, às fake news e à série “Stranger Things”. Tudo isso acaba por estruturar a história dentro da perspectiva do peixe fora d’água, ao colocar o Papai Noel percorrendo grandes cidades norte-americanas e interagindo com cidadãos comuns.

Muitas atualizações também são feitas na figura do Papai Noel (Kurt Russell, de “Os Oito Odiados”), o ponto alto de “Crônicas de Natal” graças ao excelente timing cômico do ator. O personagem não corresponde à imagem clássica do São Nicolau tão difundida pela cultura pop: não é gordo, não fala o famoso “ho ho ho” e gosta de ser chamado de São Nick; não é exatamente a definição de “bom velhinho”, pois pratica suas “travessuras” ou ações radicais surpreendentes, como roubar carros, se envolver em perseguições automobilísticas, ser preso e cantar blues com os prisioneiros. Sua figura também é utilizada de modo a combinar a magia do Natal com apetrechos tecnológicos, ao conseguir voar e se transformar em fagulhas vermelhas para atravessar os tetos e as chaminés das casas, bem como usar um relógio para medir o espírito natalino do mundo.

Em termos visuais, “Crônicas de Natal” também tem suas qualidades. O figurino do bom velhinho é atualizado para um estilo mais prático, sem o volume na região da barriga. O design de produção do Polo Norte é belo esteticamente e ainda aproxima a fantasia da ocasião, como as mensagens das crianças pedindo presentes e os duendes os fabricando, a um cenário tecnológico próprio de nosso tempo (um exemplo é a modernização dos pedidos de presentes, não somente feitos por cartas, mas também por vídeos transmitidos para o Papai Noel em várias telas). E os efeitos visuais, baseados em um eficiente CGI, criam criaturas lúdicas, fantasiosas e com grande expressividade, como se pode notar, principalmente, na diversidade de duendes.

No decorrer de sua projeção, o filme trabalha bem o clichê do espírito natalino em construção para aquelas pessoas céticas, que duvidam de Papai Noel ou da própria magia desse período do ano. A abordagem escolhida aparece tanto entre os dois jovens protagonistas, que possuem um arco dramático formado pelas dores provocadas com a morte do pai, quanto entre os personagens secundários, que através do choque diante da presença do Papai Noel e das habilidades dele, se abrem para algo que a lógica não explica. E esse é o objetivo por excelência de uma boa obra sobre o Natal: encantar e entreter com algo além da racionalidade exagerada, usando a seu serviço de alguns clichês no caminho.

Ygor Pires
@YgorPires6

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Crônicas de Natal (Netflix, 2018)

The Christmas Chronicles - Clay Kaytis

Após causar um acidente com o trenó do Papai Noel, os irmãos Kate e Teddy embarcam em uma noite alucinante para tentar salvar o Natal.

Roteiro: Matt Lieberman

Elenco: Darby Camp, Judah Lewis, Kurt Russell, Kimberly Williams-Paisley, Oliver Hudson, Goldie Hawn, Steven Van Zandt, Vella Lovell, Lauren Collins, Tom Kane, David Kohlsmith, Jack Bona, Paskal Vaklev, Abel Tekeste, Jameson Kraemer, Solla Park, Seth Mohan, Kayla Lakhani, Glen McDonald, Danielle Bourgon

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